FILOSOFANDO EM TEMPOS DE VESTIBULAR…



O fim do ano se aproxima e vem chegando a temida temporada dos vestibulares, o momento em que os estudantes do ensino médio (e os do cursinho também) são colocados no ringue frente a frente com seus maiores receios, num desafio alucinante. É o momento de estreia de peça com casa lotada e não pode dar branco, mas quase sempre dá.

É que alguém, em algum lugar do mundo, em algum momento da vida, resolveu que, para testar se alguém sabe o suficiente para cursar Medicina, Engenharia ou Psicologia, é preciso responder a 90 questões tendo cerca de 3 minutos para cada uma delas. Sim, é uma maratona. Os olhos aflitos não sabem se conferem o horário passando à revelia no relógio ou se tentam buscar alguma concentração no fundo da alma para ler os enunciados.

Os vestibulares exaurem, extorquem, tiram a energia vital em pouco mais de três horas. Aí, saem de lá jovens com feições devastadas, com ideias pessimistas, com a certeza de que não deu certo. É assim com a maioria.

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E com a maioria também é um tormento o tempo que antecede o tal do vestibular: a hora de escolher o que prestar. Pois é, você tem 17 anos de idade e tem que decidir que profissão seguirá para o resto da sua vida. Não é regra, é verdade! Muitos percebem que não se encontraram na Engenharia Química e partem para as Artes Plásticas, mas não são todos que se permitem mudar de caminho no meio do caminho. E os motivos são vários: a família ficaria frustrada, há pessoas que dependem do dinheiro que você recebe no trabalho, há carreiras mais rentáveis e estáveis que outras. Como é que um cara pai de família vai jogar tudo para o alto, renunciar ao cargo na empresa e começar a pintar quadros? Como é que fica a filha pequena e as mensalidades da escola? Como é que ficam as contas? Como ficam os impostos e as parcelas do carro novo? Bem, aí, meu caro cara, você vai ter que criar uma lista de prioridades. Se der para apertar aqui e ali, para diminuir os gastos com coisas supérfluas (coisas que a gente tem certeza que precisa para viver, mas que vive muito bem sem), você vai, sim, conseguir largar seu estável emprego naquela empresa de sucesso para correr atrás da sua felicidade profissional. Porque ser feliz, sim, é ter sucesso!

Loucura? Loucura mesmo é o cara ter que saber o que quer fazer pelo resto da vida quando não tem idade nem mesmo para dirigir. Sim, ele não pode pegar o carro para dar umas voltas e também não está apto a beber cerveja e vinho, mas pode optar pela carreira. Para isso ele já está completamente pronto, inteiramente maduro. Será mesmo? E as metamorfoses da vida? O tempo passa, você cresce por dentro, amadurece as ideias, sofre transformações, sai de uns casulos e entra em outros. E agora? Pois é, agora é sempre a hora de mudar a rota. Somos feitos de exclamações, de vírgulas, de interrogações, mas nunca de pontos finais. Nem mesmo quando morremos. Aí viramos um ponto e vírgula, mas nunca um ponto final.

Meu caro cara, se você acha que será mais feliz vendendo bolo de pote e brigadeiro gourmet, vá lá e faça o melhor doce que alguém já comeu na vida. Coloque toda a sua alma nos ingredientes e mexa bem! Mas se você não se encontrou na Culinária e percebeu que sua praia mesmo é a Marcenaria, estude muito e aprenda a fazer os móveis mais impressionantes que um par de olhos possa ver. O segredo desse negócio de trabalhar é colocar a alma inteira no que a gente está fazendo, seja o que for. Quando a gente começa a pensar assim, passa a dar valor a todas as profissões, sem preconceito algum.



Mas o ponto chave desse papo todo é justamente que você não se culpe se tem 17 anos e está completamente perdido. Saiba que muitas pessoas beirando os 30 continuam assim, perdidas. De repente, isso que chamamos de estar perdido, é estar se achando um pouco a cada dia numa dessas ideias de que o avesso pode ser o lado certo.

É que vivemos em uma sociedade que rotula, que classifica, que conceitua e pré-conceitua também. Deixamos de ser pessoas que exercem determinadas profissões e passamos a ser tais profissões. “Sou médico”, “sou professora”, “sou artista”. Acontece que estar é ser por um tempo e ser é estar para sempre. E nisso tudo, ninguém é, já dizia Paulo Freire. Estamos sendo o tempo todo. Esquecer-se disso é um dos grandes erros que a humanidade já ousou cometer. Então, meu caro cara, não se preocupe, essa indecisão só demonstra o quão humano você é! Talvez você não tenha certeza se era Educação Física mesmo que você queria ter feito estando já com seus vinte anos de profissão. Talvez, aposentado, você olhe para trás e veja que o que você queria mesmo era ser Cientista ou Nutricionista ou Escritor. E nunca será tarde para tentar de novo, recomeçar, construir um novo sendo para chamar de seu.

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Só não se culpe por nada! Culpa é coisa inventada para a gente ter medo de ousar, de mudar, de ser a gente mesmo. Não largar seu emprego maravilhoso na empresa mais top da cidade grande e que não te traz um pingo de felicidade e realização por sentir culpa é entregar sua vida nas mãos dos outros que, na hora H, tenha a certeza de que seguirão suas próprias jornadas e nem se lembrarão mais de cuidar da sua. Ninguém tem culpa de estar sendo quem é. A gente tem é o privilégio de estar sendo quem é. É uma honra, cara!

Ana Helena Lopes






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