Comportamento

Em meio à pandemia, médica recém-formada sofre racismo e sobrecarga em seu 1º ano de carreira

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Rayane Matos está na linha de frente contra a covid-19, com apenas 24 anos.



Em meio ao cenário que estamos vivendo, muitos médicos recém-formados já estão trabalhando para ajudar na força-tarefa contra a doença. Todo auxílio é bem-vindo para que a situação não se descontrole totalmente.

O período está sendo complicado, a área da saúde precisa muito de profissionais habilitados. Foi o que aconteceu com Rayane Matos. Sua formatura foi antecipada pela Universidade de Pernambuco (UPE), para acelerar o processo e conseguir trabalhar na linha de frente.

Em abril de 2020, já sentiu na pele o cansaço e desgaste vividos todos os dias causados pela pandemia. Relatou ao UOL que cada plantão era pior que o anterior.


Como é um cenário totalmente atípico, a carga emocional é gigantesca, principalmente quando precisa relatar mortes aos parentes. Comunicar que alguém querido faleceu é devastador, relatou.

Além de tudo, Rayane precisou lidar com outro mal.

Por ser negra e ter aparência jovem, perdeu as contas de quantas vezes foi desrespeitada, sofrendo racismo velado até por pacientes, que pediam que um médico os atendesse.

rayane matos medica relatou casos de racismo na carreira

Direitos autorais: Arquivo Pessoal


Um dos momentos mais críticos em sua memória foi o dia da vacinação. Todos lhe perguntavam sobre sua função no hospital, mesmo após o preenchimento do cartão e entrega da carteira de identidade. Ela estava fardada, com o estetoscópio ao pescoço, mas a responsável por esse trabalho não fez questão de lhe perguntar, já foi logo escrevendo “técnica” em sua ficha.

Outra vez, uma pessoa que trabalhava com cursos de pós-graduação foi apresentar a lista dos cursos disponíveis, mas quando chegou perto dela, abriu no capítulo de enfermagem. Ela pediu licença e foi procurar os de medicina. Não satisfeito, o representante apenas disse que para ela só havia aqueles cursos. Mesmo que sejam episódios pequenos, acabam com a confiança de qualquer pessoa, pois ela não se via merecedora de exercer sua profissão.

A médica declara que foi preciso muita terapia para que isso a afetasse menos, pois entendeu que é um problema da sociedade, e não dela.

Atualmente, Rayane trabalha numa “UTI Covid”, na emergência geral, e como plantonista de intercorrência, na enfermaria contra covid.


Ela relatou que a doença já estava mudando, manifestando-se de maneiras mais graves, com evoluções bem rápidas e, por diversas vezes, foi responsabilizada por questões acima de sua intervenção.

Segundo ainda relatou, os casos se agravam porque muitos pacientes atrasam na procura da unidade de saúde e por problemas, como dificuldade de transferência de um leito para outro melhor e mais adequado, além das fragilidades da pessoa, antes de adoecer.

Ainda afirmou que não existe apenas um ponto principal para a evolução da doença, são vários os fatores, mas no desfecho final, a responsabilidade é atribuída ao profissional de saúde. Por isso é importante manter a mente saudável e não se deixar consumir pela culpa, relata.

A médica já chegou a trabalhar todos os dias, por quase dois meses, isso a deixou esgotada, o que foi intensificado por ver o sistema de saúde em colapso e todos que estão na linha de frente chegando ao limite.


Não são apenas os médicos que estão cansados e sobrecarregados, mas todos que fazem parte da equipe de saúde. Técnicos, enfermeiros, fisioterapeutas, todos exaustos. Declarou que é necessário reconhecer os próprios limites, porque ninguém vai dizer que está tudo bem. Esses profissionais não podem descansar nesse momento.

Rayane conta preocupada que todos os dias recebe mensagens da unidade que precisam de médicos. Mas decidiu ser mais realista, se ela fosse para outros lugares, não teria como dar seu máximo em todos os plantões que já assumiu. O que a ajudou foi conversar com os colegas de profissão, assim ela percebeu que não era a única a se esforçar e a ter carga pesadíssima de trabalho.

Aproveitou para fazer um apelo: “Ninguém quer o título de herói quando a saúde física e mental está em jogo. Ver as pessoas circulando sem máscara, no atual cenário, é difícil ser otimista.”

O que achou do relato desta médica?


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