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Funcionária de lanchonete denuncia caso de racismo e lesbofobia no Piauí

Funcionaria de lanchonete denuncia caso de racismo e lesbofobia no Piaui

A funcionária de um restaurante, Joelma Figueiredo, de 23 anos, denunciou nas redes sociais ter sido vítima de racismo e lesbofobia, em mensagens enviadas por um cliente, em Parnaíba, no litoral do Piauí. No texto, enviado no último sábado (12), o homem recusa o pedido por ser preparado pela mulher negra e lésbica.

Na conversa, o cliente relata que esteve no estabelecimento na quarta-feira (9) e lamenta que seu hambúrguer tenha sido feito por Joelma, que trabalha como chapeira no local.

“Desculpe a pergunta, mas meu hambúrguer poderia ser feito por outra pessoa? Lanchei aí na quarta-feira e vi que meu hambúrguer foi feito por uma pessoa que não é do meu agrado. Ela é lésbica e negra, entenda meu lado. A imagem de vocês em primeiro lugar”, diz o cliente em mensagens.

A vítima relatou que outra funcionária estava responsável pelo atendimento de clientes nas redes sociais. Ao receber as mensagens ofensivas, a mulher alertou Joelma, que acompanhou o restante da conversa.

“Tipo de clientes como você não fazemos a mínima questão em nosso estabelecimento. Que o senhor fique sabendo que a ‘negra e lésbica’ é a melhor chapeira da cidade. Vamos na delegacia registrar um B.O. [boletim de ocorrência] contra você”, respondeu a atendente.

“Eu sei, mas sou cliente e devo dar minha opinião e sou sim preconceituoso e racista. E acho que vocês não deviam botar esse tipo de gente pra trabalhar”, continuou o homem.

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Funcionária de restaurante denuncia racismo e lesbofobia em mensagens de cliente: ‘meu hambúrguer poderia ser feito por outra pessoa?’ – Direitos autorais: Arquivo Pessoal

Segundo a vítima, não foi possível reconhecer o responsável pelo envio das mensagens.

“Na mensagem ele dizia que tinha ido lá numa quarta-feira, mas, por lá, passa tanta gente. É difícil tentar lembrar. O perfil não possui foto”, comentou.

Após receberem as mensagens, as funcionárias acionaram o proprietário do restaurante, Bossuet Costa Sales, que foi até o estabelecimento. De acordo com ele, para conseguir o endereço do criminoso, a equipe tentou prosseguir com o pedido.

“As meninas me ligaram e fui acompanhar de perto. No primeiro momento, a gente não quer acreditar no que está lendo. Pensei que precisávamos conseguir o endereço do homem e perguntei se ele aceitaria o pedido se fosse feito por uma pessoa branca, ele disse que sim e pediu uma foto da pessoa. Enviei uma foto minha, mas ele não respondeu mais”, contou Bossuet.

A equipe utilizou as redes sociais da hamburgueria para denunciar a situação. As mensagens repercutiram nas redes sociais e causaram revolta em alguns internautas. Outros, segundo Joelma Figueiredo, julgaram o caso como uma ‘estratégia de marketing do estabelecimento’.

Por medo e insegurança, a vítima ainda não contatou a Polícia Civil para registrar o B.O., mas revelou que pretende formalizar a denúncia até a próxima quinta-feira (17).

“Estou com muito medo porque estamos recebendo ataques nas redes sociais. Estou nessa corda bamba. Fico me perguntando ‘e se não der em nada?’, mas estão me incentivando a não ter medo”, destacou.

OAB repudia e vai orientar vítima

No domingo (13), as Subcomissões da Diversidade Sexual e de Gênero e da Mulher Advogada, da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Piauí (OAB-PI), divulgaram uma nota de repúdio ao caso de racismo e lesbofobia. No documento, a instituição declara que as atitudes são incompatíveis e inaceitáveis.

A presidente da Subcomissão da Diversidade Sexual e de Gênero, a advogada Mayara Portela, destacou que Joelma está recebendo acompanhamento jurídico, para prosseguir com a denúncia formal, além de ajuda psicológica.

“A pauta das minorias, com frequência, é deslegitimada, descreditada. Por isso, quando recebem ofensas de cunho preconceituoso, as vítimas se sentem acuadas. Mas o primeiro passo a ser tomado é a realização de uma ata notarial, que sirva como prova do que aconteceu. Depois, deve ser feito o BO”, informou Mayara.

Conforme a presidente, por ter sido um crime virtual, a investigação pode ser mais complexa, mas possibilitará que o criminoso receba as punições legais cabíveis.

“Estamos com o número de celular de quem enviou as mensagens. Se for preciso, vamos acionar a operadora de telefone para ter acesso ao CPF da pessoa e identificá-la. Uma nota de repúdio não é o suficiente para reparar toda a dor sofrida por Joelma, tendo em vista que ela foi vítima de um crime e, como tal, o agressor tem que ser e vai ser responsabilizado”, completou a advogada.

Confira a nota da OAB-PI na íntegra

A Ordem dos Advogados do Brasil – Subseção de Parnaíba, por meio da Subcomissão da Diversidade Sexual e de Gênero e da Subcomissão da Mulher Advogada, vem a público, externar total repúdio ao fato ocorrido no último sábado (12/03) contra Joelma Figueiredo, funcionária da hamburgueria ‘Alien’s Burguer’ em nossa cidade, que fora vítima de Lesbofobia e Racismo enquanto estava exercendo o seu labor.

É válido ressaltar que a Lesbofobia e Racismo são condutas tipificadas como crime em nosso ordenamento jurídico e como tal serão tratadas. Todavia é importante frisar que, atitudes dessa natureza são completamente incompatíveis, e absolutamente inaceitáveis no seio de nossa sociedade, que deve prezar pela diversidade, pela democracia, pela justiça e a convivência respeitosa entre todos. Deixamos nosso total apoio e solidariedade à Sra. Joelma Figueiredo e a todos que fazem parte da empresa, ao passo que nos colocamos sempre à disposição para o que se fizer necessário.

Por ora, reforçamos nossa manifestação contra atos preconceituosos de qualquer natureza e deixamos claro que serão tomadas todas providências legais cabíveis, punindo, de forma justa e necessária, o autor dessa atitude.


Se você presenciar um episódio de violência contra crianças ou adolescentes, denuncie o quanto antes através do número 100, que está disponível todos os dias, em qualquer horário, seja através de ligação ou dos aplicativos WhatsApp e Telegram.

O mesmo número também atende denúncias sobre pessoas idosas, pessoas com deficiência, pessoas em restrição de liberdade, população LGBT e população em situação de rua. Além de denúncias de discriminação étnica ou racial e violência contra ciganos, quilombolas, indígenas e outras comunidades tradicionais.

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