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A GALERA DO DESCARTE!

Aparentemente, trata-se de um discurso bacana.


Superação, desapego do passado, bola pra frente e novas tentativas de alcançar um estado em que as coisas estejam e sejam boas. Mas, na verdade, a maioria das mensagens que se vê hoje em dia na internet são produzidas pelo que eu chamo de Galera do Descarte.

Pessoas que estão sempre em busca de “novas e melhores histórias”, apregoando que “nunca é tarde para recomeçar” e que “dar errado pode ter sido o que de mais certo poderia ter acontecido”. Olhando por cima, numa análise superficial, parece ok, mas…

Imagine um pedreiro que vai iniciando construções, erguendo novas casas, construindo novos edifícios, sem contudo terminar um único deles. Deixa atrás de si um rastro de casas inacabadas, portanto inúteis para uma moradia digna. Edificações (se é que esse nome cabe ao que não se terminou) que serão destruídas pelo tempo, pelos ventos e tempestades, e acabarão tomadas pelo mato.


Claro, é muito mais fácil jogar fora do que tentar consertar. Um relacionamento que tem coisas boas e ruins, analisado principalmente pelas ruins, parece mesmo digno de se jogar fora… mas, muitas vezes, trata-se apenas de tentar um pouco mais e, desse modo, caminhar na direção daquilo que se quer.

Engraçado que esses mesmos descartadores usam outras frases que se opõem ao discurso primordial deles. “Com medo? Vai com medo mesmo!” é uma delas. Há medos que se justificam. Quebradas de cara ao longo da vida, decepções mal curadas, tudo isso é digno de compreensão. Mas não tentar algo é passar o resto da vida pensando “e se tivesse sido dessa vez que a coisa iria…?”.


Não saber o que se quer também é um problema. Indecisão é complicado. Mas, também nesse caso, a única maneira de se saber se uma coisa é o que eu quero é usufruir dessa coisa, dessa situação, dessa criatura…

Às vezes, ocorre que a tal da superação é feita pela metade, com a porta nem sendo trancada nem deixada aberta. Vai que um dia, numa dessas esquinas da vida, a gente se encontra de novo e… Tá, e dá-lhe clichê: “o que tem que ser, vai ser”, “tudo tem seu tempo certo”… mas, caso o esbarrão e o reencontro aconteçam mesmo, quantos dias – e noites – perdidos, quantos momentos não vividos?

Na dúvida, é fazer, pois, como dizia Vandré, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. E eu acrescento: quem “não sabe” só vai saber se fizer a hora. E desistir precocemente, descartando, pode significar jogar fora algumas das coisas mais verdadeiras que já passaram pela vida da gente…

(Sei que este é um texto de tantas interpretações que alguns vão usá-lo para fazer ou deixar de fazer exatamente o contrário do que eu pensei ao escrevê-lo. Mas ninguém nunca disse que esse assunto é simples…)





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