A gente não vale nada

Ou vale? A gente vale o que a gente fala?
A gente vale o que a gente posta? E o que a gente critica? E a opinião do outro que a gente não tolera? Isso vale?



A gente nem aproveita o começo da semana só esperando chegar o fim dela. É como se a gente vivesse numa acelerada caminhada até o fim da vida, cada dia um pouco mais perto da morte, como se a vida só fosse boa no fim – e como algo que chegou ao final pudesse ser bom -. O raciocínio faz sentido?

A gente não vale nada.
O problema é que a nossa visão sobre o que é viver é reduzida demais.
A gente se apega a coisas e pessoas que vem a vão das nossa vida. Seja pela marca bacana para exibir entre outros humanos cheios de ossos iguais aos nossos; seja por uma boca que já beijamos e que largamos mão da nossa vida pela vontade de beijar de novo – como se adiantassa algo. E a gente não precisa levar isso pra sempre.

A lembrança já é um lugar grande o bastante para guardar quem passa pela gente.


A gente não vale nada porque a gente se machuca demais.

Respondemos quando sabemos que não devemos e ignoramos quando sabemos que machucaremos. Isso só pra exemplificar.

E o quanto a gente reclama, né?
É o cabelo que não acordou bom. O ônibus que demorou. O salário que não aumentou. O crush que não respondeu. O match que não vingou. O s*** que “já acabou”. A ressaca que chegou. Nada tá bom. Tudo tá ruim. Tudo. Absolutamente a gente reclama de tudo, de um ângulo ou de outro. E mesmo quando não temos do que reclamar, a gente: caça algo pra reclamar. Pode ser alguém perfeito até a gente encontrar algum defeito [não existe alguém perfeito, mas a gente procura]. Pode até ser uma boa intenção até a gente chamar de segunda.


As coisas estão invertidas e por isso a gente não tá valendo nada. A gente quer o valor das coisas mas não damos valor a elas.

Primeiro porque a gente é quem cria parte dos nossos problemas – e daí a gente reclama mais e mais. Fabricamos parte daquilo que odiamos. Fazemos com o outro o que detestamos que façam com a gente. E nisso seguimos num ciclo de energia não proveitosa. A gente meio que acumula sentimentos que não queremos. Isso acontece desde a resposta atravessada para os nossos pais até o “vamos combinar qualquer dia sim” que respondemos para nos esquivar. A gente não vale nada mas reclamamos que as pessoas não valem nada, ou seja, a gente vale mais que elas?

Como a gente quer tudo se não estamos valendo nada?

Ou será que a gente vale?
Ou o que vale pra gente é o que vale na vitrine?

A gente aperta o coração com um abraço ou com rancor?

O louco é que a gente sabe o que vale nesse mundo. A gente sabe bem. A gente sabe separar o valor do preço das coisas. Então, pergunto, o que falta pra gente valer? E pra gente fazer valer a pena?

 

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Originalmente Publicado em Um Travesseiro Para Dois

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Texto escrito com exclusividade para o site O Segredo. É proibida a divulgação deste material em páginas comerciais, seja em forma de texto, vídeo ou imagem, mesmo com os devidos créditos.




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