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Gente que não se deixa amar…

Quem nunca ouviu ou se viu num estranho paradoxo: 



“Por que eu sofro por alguém que me maltrata, mas não vejo graça ou não consigo me abrir para alguém muito bacana que conheci?”

Imagino que a Psicologia tenha um número sem fim de teorias que expliquem esse fenômeno, mas, como não sou psicóloga, intuo que uma explicação pode estar no fato que, desde pequenos, embalados por lindos contos de fadas, aprendemos a estabelecer ideais de amor e romance irreais que, portanto, não podem se materializar plenamente. São ideais criados para jamais saírem do campo da imaginação, caso contrário, perderiam seu encanto.

Assim, homens crescem com ímpetos de encontrarem uma frágil princesa de indizível formosura, que o aguarda em sacrifício por muitos anos, pura e apaixonada, e pela qual deverá enfrentar longas viagens, perigos e dragões, para finalmente ter seu amor e devoção para sempre. Da mesma forma, crescem as mulheres, esperando chegar, em seu cavalo valente, um lindo príncipe encantado, de tamanha beleza e bravura, que devota sua vida e prioridades para resgatá-la das suas prisões reais e imaginárias, levando-a para um castelo onde serão felizes para sempre.


Não há dúvidas de que dar asas à fantasia de criança é necessário e divertido. O problema começa quando deixamos a infância para trás e, inconscientemente, continuamos a buscar, na vida real, algo que se assemelhe ao sonho, sem percebermos que essas histórias estão permeadas de trabalho e sacrifícios desnecessários, que nos levam à busca de pessoas que, se existissem como as concebemos no mundo das ideias, seriam, no mínimo, estranhas.

Mas não importa, estamos determinados a viver o sonho e, assim, primeiro estabelecemos as características do parceiro ideal que terá uma certa idade, aparência, etnia, profissão, postura e tantos mais ingredientes que nossa imaginação trouxer. Depois de criado, partimos em busca desse ser idealizado, seguindo o mantra: “É preciso lutar por amor”.

Sim! Quantas vezes você já ouviu ou disse isso?

“O amor verdadeiro requer luta, sacrifício, dá trabalho, tudo suporta, tudo perdoa e blá-blá-blá.”


Somos programados para lutar por amor já na convivência com nossos pais e irmãos, quando obedecemos para agradar, quando choramos aos sermos negligenciados, quando barganhamos por migalhas de afeto ou quando, depois de uma surra, corremos para os braços do agressor como se ali fosse o refúgio mais seguro, pois encarar esse esforço descomunal, fará com que o verdadeiro amor aconteça.

E assim, reproduzindo nossas relações e idealizações infantis, transformamos gente real em gente perfeita e, porque submersos pelo temor de rejeição, abandono e de não sermos bons o suficiente para merecermos o melhor, (aquele “melhor” que nós mesmos criamos), seguimos repetindo que a luta, o trabalho duro, a resignação e a submissão são a única moeda capaz de comprar o “amor perfeito”.

Nesse estranho compasso, pessoas seguem criando em suas mentes pessoas com características impossíveis de se reunir em alguém de fato humano, ou com características que elas acham que o outro deveria ter, acabando por perder o bonde da vida; o bonde daquele que poderia ser um amor são.

Criam alguém tão perfeito e o colocam num pedestal tão alto, que as perninhas curtas da criança que ainda habita suas emoções não o alcança, por mais que pule e se esforce. Estranho, mas parece que é exatamente nesse esforço que está o sentido de tudo. “Se eu conseguir alcançar é porque me esforcei o bastante e portanto, eu mereci”. Infelizmente, por ser impossível alcançar aquilo que na vida real não existe, essas pessoas se tornam “gente que não se deixa amar”.


São pessoas que não se deixam amar por ninguém que não lhes exija sacrifício. É assim: gente que não requer sacrifício, que vem com simplicidade e naturalidade é “fofa, mas sem graça.” Gente que deixa livre, que não sufoca, que não faz malabarismos para impressionar, que presenteia com pequenos gestos, que acolhe seus medos, respeita seu tempo, seus valores e tudo aquilo que você estima, é “uma pessoa maravilhosa, mas não dá aquela adrenalina.”

São pessoas que não se deixam amar por ninguém que não lhes traga a mímica do conto de fadas, mesmo que, em tempo recorde, mostrem que do conto de fadas, elas só têm mesmo as características da bruxa malvada. São pessoas que não se deixam amar por ninguém que não os coloque naquela sinistra simbiose do sádico e o masoquista.

Essas pessoas sofrem porque não sabem que para amar não é preciso luta, sacrifício ou trabalho duro. Amar não é garimpo, no qual se arrisca a vida no escuro, respira-se um ar saturado, suja-se ao ponto de ficar irreconhecível para, quem sabe, encontrar uma pedra preciosa que, depois de lapidada (e dá-lhe mais trabalho!), transformará sua vida para sempre. 
Garimpo é isso, amor não.


Amor é jardinagem nos fundos de sua casa. Ali, à luz do dia e respirando ao ar livre, você não põe sacrifício, você põe seu carinho, sua dedicação, seu tempo e seu conhecimento de que cada planta requer um cuidado específico porque nenhuma é igual. Ao invés de trabalho, você se depara com uma poderosa terapia que envolve adubar, irrigar, dar espaço para o crescimento de cada espécie e esperar o tempo certo de florir. E vai florir. E cada flor lhe arrancará um sorriso e a gratificante sensação de ter acolhido as mais diversas espécies, sabendo que cada uma traz sua própria beleza, sem, no entanto, requerer sua intervenção, seu cálculo, sua exaustão, seu sacrifício. Você apenas acolhe cada uma da forma que é, aprendendo a amá-la por sua singularidade.

Lucy Rocha

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