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Gosto de abraço que esmaga e de amor que liberta. Casa cheia. Mesa farta. Gente que ri com o olhar

Gosto de gente que ri com o olhar e que enxerga com o coração. Detesto falsidade, por isso eu me prometi honrar a verdade, a começar por mim. Quem eu sou é valor inegociável para mim.


O mundo está mudando cada vez mais rápido e com mais intensidade. Coisas que eram vistas, no passado, como “verdades absolutas” já caíram ou estão caindo por terra agora. Nossas certezas falidas deram lugar a um mundaréu de dúvidas e de perguntas cujas respostas, na maioria das vezes, só existem mesmo dentro de cada um de nós.

Nossas noções de tempo e espaço mudaram também. Num universo sem fronteiras, em que a tecnologia nos aproxima no limite do quase abraço e nos distancia na mesma medida, quando a gente poderia de fato abraçar, mas não abraça, quando a gente poderia de fato conversar, mas não conversa, quando a gente poderia de fato viver, mas só filma e fotografa, tudo ou nada parece caber em 24 horas.

Já não experimentamos solitude com a frequência que gostaríamos, mas nos sentimos cada vez mais sós em meio à multidão.

Num mundo em que só a mudança parece ser permanente, vamos nos deixando entrelaçar pelos múltiplos papéis que exercemos na vida, às vezes, nos escondendo mais em um do que em outro, sem sabermos muito bem o que fazer com cada um deles, sem o tempo da maturação ou da aprendizagem, porque a roda gira sem parar, roda moinho, roda-gigante, e quem é você na fila do pão?


Não é à toa que o autoconhecimento, longe de ser modismo, é palavra em voga nesse momento. Diante de tanto, de tantos e de tudo, precisamos nos conhecer com cada vez mais intensidade caso queiramos, de fato, fazer alguma coisa de realmente importante com essa coisa maluca chamada vida. Já não dá para varrer a sujeira para debaixo do tapete ou entulhar o armário de tralha, a cada vez que a visita chega, só pra passar uma boa imagem.

Bem aos pouquinhos, aos pouquinhos mesmo, eis que começamos a perceber o quanto a poeira acumula, o acúmulo pesa e o manter das aparências é completamente inútil quando o objetivo é simplesmente o de ser de verdade. Nesse cenário, a bagunça faz parte. E desde que a gente se proponha a fazer uma faxina de vez em quando, trocando certezas de lugar daqui e dali, sacudindo tapetes e cortinas, revirando gavetas e destralhando o que tiver que sair, está tudo bem.

Dentre tantas exigências de dar conta de tudo, o tempo todo, o quão libertador pode ser a descoberta de que a perfeição não existe e nunca vai existir?


Diante de tantos filtros, edições, ângulos, poses e coisas que deliberadamente escolhemos não enquadrar na foto da nossa vida, será que alguém realmente nos vê? Será que alguém realmente consegue nos enxergar? Será que nós mesmos nos enxergamos e nos reconhecemos ali? Quantas são as histórias reais por detrás de tantos sorrisos? Como será o bastidor daquele que a gente só consegue enxergar no palco?

Pois essa sou eu na fila do pão. Imperfeita até o último fio de cabelo, cara lavada pela manhã, às vezes bem-humorada, em outras, não. Vou conversar com você caso me dê abertura, puxar assunto e coisa e tal. Mas caso você feche a cara ou apenas prefira o silêncio mesmo, eu vou te sorrir um sorriso sincero e deixar que você seja… do jeito que quiser.

Costumo cantarolar músicas na minha cabeça, cujas letras não sei ao certo, inventando estrofes, versos e rimas. Sou da poesia, do conto, da crônica, do texto de livro, do texto de blog, da postagem que me tocou profundo numa rede social ou mesmo de uma frase de para-choque de caminhão que me fez pensar.

Eu sou das palavras. Mesmo daquelas que a gente não diz. Não desisto fácil de nada na minha vida, mas também não insisto para sempre. Enquanto houver amor, eu fico.

Quando sinto que preciso me moldar a lugares que não são meus e que simplesmente não me abraçam do jeito que eu sou, recolho a minha dignidade, e vou embora.

Gosto de céu azul, luz do sol e entardecer multicolor. Sou do verão, da energia solar, do mar de estrelas, do pé na areia e da brisa suave tocando de leve o rosto da gente, mas venho aprendendo a passar sem medo por todas as estações. Às vezes, inclusive, vou lhe dizer que prefiro o inverno e a montanha. Sou metamorfose ambulante mesmo, embora da minha essência eu não abra mão, de jeito nenhum. Quem eu sou é valor inegociável para mim.

Já disse que desistiria de um montão de coisas pelas quais eu luto para alcançar até hoje. E também já disse que seria pra sempre o que simplesmente já ficou pra trás. Já errei tentando acertar uma porção de vezes. E já acertei maravilhosamente só por causa dos meus erros de antes.

Já entendi que algumas coisas demoram um pouquinho mais, que outras não são pra ser, e que tudo o que tiver que realmente me encontrar, vai me achar.

Abro espaços daqui e dali, tropeçando entre passos que ainda estou aprendendo a firmar. Mudei de curso na faculdade, mais de uma vez. Recalculei a rota, voltei para o que era, encerrei o ciclo, comecei tudo de novo. Pedi demissão de um emprego estável para empreender. Já escutei que eu era louca. Entendi que loucura era exatamente deixar tudo como está quando já não se é mais feliz.

Aprendi a encarar os meus monstros internos e a abraçar o desafio que vier. Quando o medo chega, tenho tendência a ir com medo mesmo. Às vezes ainda me paraliso. É um processo. Aprendo a cada dia.

Gosto de abraço que esmaga e de amor que liberta. Casa cheia. Mesa farta. Sapato que não aperta. Gente que ri com o olhar e que enxerga com o coração. Detesto falsidade, por isso eu me prometi honrar a verdade, a começar por mim.

Sou leal aos meus princípios, aos meus amigos, a tudo o que acredito e que tem importância para mim. Aprendi a me libertar das amarras do agradar-a-todo-custo e a dizer não.

Agora conte-me: quem é você na fila do pão?

Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: 123RF Imagens.





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