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Há coisas que não podem ser mudadas, mas podem ser enfeitadas…

O Trem Da Alegria…



Você vai entender muito pouco do que te digo, mas mesmo assim devo lhe dizer: eu te amo, mas preciso te estranhar. Para continuar te amando como sempre amei, e para que você me ame como sempre amou, vai por mim: nós precisamos nos estranhar.

Talvez, você se aborreça com esse jeito de falar, você que sempre deixou claro que não gosta de incógnitas, de frases dúbias. Considere as minhas palavras como uma intervenção na paisagem, uma tentativa de recriar o mundo, como aquela vez que você viajou a trabalho, e quando voltou, encontrou a casa pintada de vermelho.

Por fora. Por dentro, usei as cores do arco-íris e fiz um ambiente de cada cor, em suaves tons pastéis. Deu um trabalho danado preparar todas as tintas, mas o resultado foi tão bom que até hoje penso: estou precisando pintar o mundo de vermelho. Com pitadas de arco-íris.


Resistente a mudanças, você levou um choque quando o táxi parou: o seu pedaço de terra no continente era agora uma mancha escarlate na vizinhança toda branca. O rosto, habitualmente pálido, ficou salpicado de pigmentos da mesma cor, um tipo de rubor que revela desagrado, você que é sempre discreto e não demonstra sentimentos. Só ao entrar, e dar de cara com o quarto azul da cor do céu, cheio de pontinhos brilhantes no teto, vi algo da criança feliz que se esconde em você.

Esperei, dei um tempo. Em torno de nós olhares, e silêncios, e sorrisos, eu olhando para você, e você olhando para mim, o quarto azul nos assistindo.

O que viria em seguida?


De repente, você me disse: – Nega, tu é loca demais!”

Era o epílogo da espera!

Eu respondi: – “também te amo demais”, era de amor que você falava, e o meu trabalho sempre foi te decifrar.

Lembra-se daquele dia? Agora respire fundo, e prepare-se para que as coisas aconteçam nessa ordem acostumada: primeiro você leva um susto, depois compreende, em seguida me chama louca demais, e finalmente se engaja no projeto, como um recruta obediente.

Gosto quando você adere, desse jeito perplexo e hesitante, à minha loucura vermelha, colorida, fragmentada, e sempre bem intencionada. Não tenho culpa da minha bandeira nonsense, nasci assim, com o estandarte na mão, e você bem que gosta.

Portanto, aceite o que te proponho porque é de coração: precisamos nos estranhar.

Faz tempo que a gente não se estranha.

Faz tempo que te recebo na porta de casa, com um sorriso cansado, e faz tempo que você me devolve o seu (sorriso) desbotado.

Faz tempo que tudo acontece do mesmo jeito. Faz tempo, o chinelo. Faz tempo, o perfume. Faz tempo, o pijama. Faz tempo, o mesmo jeito na cama.

Faz tempo, o Jornal Nacional. Faz tempo, a mesma hora de dormir. Faz tempo, a mesma hora de acordar.

Faz tempo que não assistimos um filme, deitados na cama. Faz tempo que não saímos para passear.
E faz algum tempo que começamos a roncar, trocando cotoveladas no meio da noite.

Há coisas que não podem ser mudadas, mas podem ser enfeitadas. Outras podem ser mudadas. Outras podem ser recriadas. E outras, ainda, podem ser combinadas como quando um mutirão junta os habitantes de uma cidade para um fim comum.

Neste caso, te proponho um mutirão de dois: eu e você em prol de um estranhamento combinado para que eu possa dizer “eis aí o meu velho novo homem.” E você possa pensar –porque dizer você não diz- “eis aí a minha velha nova mulher.”

Reparou que nunca mais fomos iguais ao que éramos quando nos conhecemos, dois desconhecidos no ponto de ônibus? Precisamos retomar daquele ponto.

Não tenho certeza se você me entende, mas tenho esta certeza: mesmo quando não entende, você colabora. É como se o teu sexto sentido reconhecesse um sétimo e um oitavo no meu, e você respeitasse a hierarquia imaginária e tão real quanto a linha do Equador.

Agora que já expus os fundamentos da minha filosofia, vamos ao que interessa:

No próximo equinócio de verão, pensei em te estranhar da cabeça aos pés.

Para o sorriso, uma faceta de porcelana cobrindo a face distal do pré molar, esconderia o amálgama que ficou escuro no meio do dente.
Sempre achei o seu sorriso cinza chumbo, agora sei porquê.
E depois, um aparelho intraoral para colocar o seu sorriso na perspectiva correta, os dentes para dentro, acho que você tem mordida cruzada.

Pensei no músculo peitoral com uma tatuagem gloriosa, feita de letras arredondadas, com tais e tais dizeres: “ Mercedes eu te amo pra sempre te amarei” – o meu nome no seu peito nu, o amor saltando fora do peito, espero que dure para sempre e você nunca tenha que apagar.

Nu, obviamente, só depois de uma depilação com cera.

Para arrancar o Tony Ramos da sua vida não será fácil, nenhuma tatuagem pode ser tatuada no meio de tantos pelos, me disseram que depois de algumas sessões, o pelo enfraquece, e a tatuagem fica, tomara.

Pensei em camisetas para vestir a tatuagem que é só nossa, ninguém precisa saber. Uma camiseta preta, dessa não abro mão, o preto fica muito bem em você. Calças jeans de modelagem justa, um sapatênis, queria tanto que você gostasse de sapatênis e de camiseta por baixo da camisa, sei que faz calor e você transpira litros, mas ajudaria se comprasse na farmácia o desodorante almiscarado antitranspirante que cheiramos na camisa do meu irmão.

Aposentemos o seu velho pijama, com um furo na manga esquerda, a malha está fina de tanto lavar.
Vi no bazar da esquina um pijama marrom, o short xadrez curtinho e a parte de cima lisa, com um forro do mesmo xadrez para combinar, só que do avesso.
Vi também um chinelo fechado na frente, bem gostosão mas aristocrático, de tecido aveludado, que não mostra as unhas.
Nada tenho contra as suas unhas, só contra o amarelado delas, denunciam a idade, parecem garras, melhor esconder.

Pensei em te estranhar naquele mesmo ponto de ônibus: “quem será esse simpático?”
A gente embarca junto e fica se estranhando de longe, e na hora que eu descer, você desce e fala comigo, te ajudo a lembrar as palavras daquele dia, posso usar a mesma blusa amarela com o rasgo nas costas, e você usa a camisa listrada de manga comprida e passa um perfume, o desodorante, aquele.
Vê se não esquece que não me conhece.

Pensei em te estranhar por um teatro e um figurino, por um script bem elaborado, por uma história sem enredo, só com olhares intensos e poucas palavras, pensei em te estranhar por tudo que se pode pagar em 10 parcelas para melhorar o visual, e mais as coisas que você sabe fazer e que não te custarão nada, só relembrar.

Lembra-se do vinho tomado direto da minha boca? E do chicletes que a gente trocava durante o beijo? E do dedinho na boca para ser mordiscado sem pressa, como um petisco ou uma ostra?
Esse último você não vai se lembrar e nem pode, acabei de inventar.

Como ainda não disse, acho nunca tive oportunidade de dizer: posso te ajudar a criar e recriar uma nova realidade em 3 ou 4 D, sou boa nisso.

Fico no aguardo do que você deseja estranhar em mim.

Faça uma lista para eu providenciar todos os estranhamentos necessários.
Tenho certeza que a primeira coisa que você vai querer estranhar em mim é a camisola de jérsei vermelho que admiramos na vitrine em dezembro, mas não compramos.
Era muito cara, e naquele momento, eu era eu, e você era você, e sem estranhamentos, camisola vermelha não rola.
Mas agora que estamos prestes a nos estranhar de novo, encontrei uma bem parecida no bazar da igreja e já mandei reservar.

Eu gostaria que você me estranhasse a ponto de esquecer de me chamar de mãe, ou de filha, vê se mete uma coisa na cabeça, meu filho: não sou sua mãe e nem sua filha. Cada vez que você me chama de “mãe” perco metade do meu tesão. Como posso ter tesão pelo meu filho?

Me chame do que quer que eu seja, e eu serei para você, mas o que eu mais queria é ser a sua delícia, em vez de me chamar de filha ou de mãe me chama de minha delícia? E capricha para me fazer acreditar porque a gente se transforma em tudo aquilo que acredita.

Quero muito que você me estranhe, tanto quanto eu desejo te estranhar.

Preciso do estranhamento para sentir que há um homem na rua vestido de cores vivas, estiloso, perfumado, que, em casa, recebe pinceladas de azul da cor do céu. Depois, só alegria: estrelinhas no teto, viagem astral, a mais pura vadiação.

Não sei porque vez ou outra fecho os olhos e vejo um trem, vem apitando esse trem, lá vai o trem, vem que vem o trem, olha como me arrepia, quero embarcar nesse trem.

Acho que é o trem da alegria, faz tempo que ele não vem.

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Texto escrito com exclusividade para o site O Segredo. É proibida a divulgação deste material em páginas comerciais, seja em forma de texto, vídeo ou imagem, mesmo com os devidos créditos.




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