História é feito vento, está em todos os lugares ao mesmo tempo…

Eu nem sabia o que dizer… Era quase que o mundo de ponta cabeça, algum tropeço dos planos, algum equívoco dos Céus. Era a mãe velando o filho e tinha alguma coisa muito ao contrário nisso tudo…

Mães e pais que perderam seus filhos costumam dizer que, para eles, a vida não seguiu seu curso natural. Estão certos. Algo fugiu àquela sequência de que o mais novo é a continuação do mais velho.

Tem um mundão cheio de pais e mães órfãos de filhos por aí. Sim, órfãos, porque o negócio é tão fora da corrente que nem nome que conceitue tal irreparável perda a língua portuguesa conseguiu encontrar. É uma coisa que só sente quem passou e nem adianta que a gente chegue dizendo “sei o que você está sentindo”. Não, você não sabe e eu também não sei. Não consigo sequer chegar perto de imaginar a dor nas entranhas, os berros de alma que esses pais e mães amargam em cada novo dia de suas vidas depois de ficarem órfãos de seus filhos.

Não sei como conseguem voltar ao trabalho, como chegam na casa vazia e silenciosa e nem de onde tiram forças para entrar no quarto do filho que partiu. É dor de arrepiar só de pensar. E lá estava aquela mãe do começo dessa história que teve fim antes mesmo de acabar. Sentada ao lado da saudade e afogada na hemorragia de uma ferida funda demais…

Sim, esses pais e essas mães ficam perdidos, sem rumo. E muitas vezes nem querem se encontrar de novo. É que eles sabem que ao menor sinal de consciência, sentirão aquela ausência doída, aquela dor de verter sangue.

Mas, assim como os devotados pais muito disseram a seus filhos in ventre, eles também, de onde quer que estejam, hão de querer lhes dizer algo terno, cheio de doçura, algo que lhes acalme o coração, pois agora tudo se inverteu de ordem. Vocês, pais e mães órfãos de filhos, estão aqui, crescendo e evoluindo para que, um dia, possam reencontrar aqueles a quem deram à luz. E eles vivem em algum lugar, em algum outro plano, de algum outro lado, na espera silente de que vocês sigam em frente.

Eles devem velar o sono angustiado de tanta saudade. Devem soprar brisa com cheiro de flor, de perfume, de noite de Natal para lembrá-los de que vai ter amanhã e que o dia seguinte é sempre de promessas e de sonhos, mas que vocês precisam continuar vivendo. Não somente por eles, mas principalmente por vocês mesmos.

Eles devem agradecer a cada novo entardecer pelo sol que aqueceu a alma dilacerada de vocês e devem pedir que o tempo seja carinhoso e insistente: que faça cicatriz resistente às memórias que a vida traz e que as feridas abertas não sangrem a ponto de entristecer, mas apenas cocem para fazer lembrar de tudo o que foi bom.

Eles se lembram de que deram os primeiros passos porque as mãos fortes do pai estavam lá, segurando a queda. Eles se lembram do primeiro dentinho que caiu porque a mãe estava lá oferecendo o colo quente se a dor atacasse a gengiva esburacada. Eles também se lembram de tudo! Da valsa de quinze anos, da viagem para a praia, dos aniversários no quintal com bolo e velinha, com brigadeiros e cajuzinhos. Se lembram bem da primeira bicicleta, dos muitos joelhos ralados, das partidas de futebol. Se lembram dos abraços e dos elogios e se lembram das broncas também.

É que quando a vida parece perder o rumo e leva embora quem mal começou a vasculhar cada canto do universo, os pais e as mães sentem que junto se esvai também toda a história deles. Mas não! A história continua aqui e lá! História é feito vento, está em todos os lugares ao mesmo tempo.

Eles – e não importa em que lugar do infinito estejam – querem que vocês saibam que valeu a pena! E como valeu! Querem que vocês saibam que sentem uma saudade enorme, que chamam pela mãe quando estão sozinhos, que se orgulham da coragem sensível do pai, que abraçam as nuvens como se os irmãos fossem de algodão.

Mas querem que vocês saibam que tem vida além do azul e que tudo continua do lado de lá, só que agora são eles que esperam por vocês e pode durar mais que nove meses, não tem problema. Eles estarão lá! É isso que eles querem que vocês saibam!

E no beijo final, antes de dar à terra seu bem mais precioso, a mãe disse bem baixinho no ouvido do filho o que todos pensaram ser um adeus, mas era só um até logo…

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Direitos autorais da imagem de capa: halfpoint / 123RF Imagens



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