Hoje prefiro os carrosséis às montanhas russas

Eu sempre tive medo de altura, mas quando se tratava de envolvimentos amorosos, eu era sempre a que encarava excitadíssima todos os bungee jumps.

Eu era mestra em me enfiar nos voos mais altos e nas quedas mais violentas. Entrava com coragem e coração escancarado nas empreitadas mais repentinas e malucas. Quantas barracas furadas no meio do nada eu me meti! Em quantos paraquedas mal resolvidos eu me envolvi. Em quantos loopings e montanhas russas gigantes eu entrei.

Tudo pelo frio na barriga? Tudo pelo excesso de vida? Tudo pelo vício na adrenalina? Ou pelo vício na minha habilidade de amar e ver brilho nas pessoas e querer mergulhar nas doces marés dos encantamentos e experimentar na própria pele a celebração dos encontros?

E vale a pena, e valeu a pena. Mas mais ou menos na mesma proporção dos risos e gargalhadas que me acometiam, haviam os choros, as frustrações, as rejeições.

E a vida é feita disso tudo, eu sei. De altos e baixos, quer coisa mais certa e clichê?

E sim, depois de um tempo e de tantas empreitadas, a gente aprende a lidar com mais familiaridade com as quedas. A gente levanta mais rápido, remenda o coração mais uma vez, não se demora numa paisagem que já passou.

A gente coleciona cicatrizes e histórias malucas, conexões fenomenais e fossas profundas. A gente decora a ‘cartilha do como recomeçar’… e já pode até dar aula disso, se quiser, a gente já sabe surfar nas ondas que nos descabelam.

Mas eu cansei, cansei de me descabelar. Eu cansei de cair fundo no brilho de um olhar, cansei de deixar as janelas abertas para convites mirabolantes. Cansei de dizer sim para aventuras sem pé nem cabeça, cansei de acreditar que grandes emoções sempre valem a pena.

Hoje eu vejo uma onda gigante me surgindo e eu já sei, eu a furo no ato, e saio do outro lado, ilesa. Eu comecei a preferir os brinquedos mais seguros do parque de diversões.

Fico num carrossel sem sustos, fico na monotonia boa dos giros fáceis, fico nas marés mansas, que me deixam fechar os olhos em paz.

Onde, também, talvez, eu possa ser a versão mais sem graça de mim mesma, ou não tão cheia de vivacidade.

Gasto-me menos nos dias, e justo por isso, vivo-os melhores. Subo menos alto no amor e, justo por isso, tenho fôlego para esparramá-lo ao longo e ao longe das horas.

Porque para mim, a paz na alma se tornou a maior graça de todas as graças que poderiam existir nos jardins da vida.





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