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A INDIFERENÇA NADA MAIS É DO QUE O ENTERRO DE QUEM AINDA VIVE!

”Realidade Oblíqua – A indiferença nada mais é do que o enterro de quem ainda vive…”


Se um dia me preocupei com o caminhar dos jovens, hoje me vejo preocupada com o findar dos velhos. Nem é necessário que eu tente localizar em qual época e em qual momento essa mudança me ocorreu. Sei exatamente quando comecei a mudar.A experiência de estar cuidando de minha mãe com Alzheimer, tocou-me, acordando nevrálgicos sentimentos, que eu nem imaginava possuí-los. E, os ideais antigos, deixaram de ter sua força prioritária, diante da realidade que eu teria que enfrentar. Uma realidade oblíqua, que atravessou os sonhos de minha reta… E os dela!

Ninguém mais sentirá o peso da saudade que irei sentir, quando ela partir. Pois acompanhei e vivi cada etapa de suas agonias. E, nesse seu tempo entrelaçado ao meu, aprendi a reconhecer e lidar com a fragilidade que, possivelmente, terei no futuro.

Às vezes, sofro uma transferência e cuido dela como se estivesse cuidando de mim. Às vezes, tento atravessar sua pele e me apoderar de seus pensamentos, para saber como se sente.


É indescritível a agonia de tentar percorrer esse campo insondável, onde só ela e Deus conhecem. É como olhar para uma árvore velha e silenciosa… Ver sua crosta sem conhecer o interior… Noutras vezes, imagino-me sentada em seu lugar: imóvel, com sede, e dependendo totalmente da observância de quem me cuidará. Dependendo desse olhar que me olhará, e esperando que haja amor suficiente, para adivinhar que sinto dores, e que preciso que mudem meu corpo de posição; que ergam meu braço pendido, meu pé que insiste em sair do sapato, minha cabeça que se entortou e não sei como colocá-la de volta.

Sinto medo. Não um medo sútil, no efeito de uma sombra que passa, mas de uma presença física, constante, mostrando-me que ela bem poderia ser eu. E, na vigência, terei sede, outras necessidades, e outros males. Serei um ser inanimado que sente. Indefesa. Dependente. Logo eu, que sempre amei a liberdade atonal de ir e vir. Tomar a água de que eu mesma me servi, pegar os planos pelos cabelos, dar rasteiras nas mazelas, sentir o nervo pulsante da mão, sem esperar nada de ninguém. Estarei à mercê de outrem. À mercê, também, de outros perigos que me rodeiam, como afogar-me com a própria saliva, enquanto todos dormem.

Quando fui mãe pela primeira vez, sofri uma espécie de inclinação compulsiva, buscando em outras mulheres, que já eram mães há mais tempo, experiências que me ajudassem a enfrentar o difícil papel de cuidar de um bebê.


Quando os filhos crescem, trocamos receitas. Aprendemos, umas com as outras, os temperinhos que facilitem nossas dificuldades e nos ensinem a lidar com o destempero de alguns filhos.

Muitas vezes, surpreendi-me, ao perceber o quanto a maioria das crianças são iguais.

Minha surpresa, atual, é perceber que os idosos também — com a diferença de que as crianças contam com o fator tempo — crescem e mudam. Os velhos, sem fator nenhum, veem o tempo como inimigo. Definham e murcham… E, depois de um tempo, não percebem mais tempo nenhum. Apenas a sensibilidade sobrevive, reconhecendo as mãos que lhes tocam. E agradecem, com gestos imprecisos, tateando como cegos, na tentativa de alcançar a face de quem lhes proporciona um mínimo de conforto. Gestos… Imprevistos e gráceis.

Tornei-me mãe de minha mãe, mas com o dobro do desespero de uma mãe de primeira viagem. E com aquela mesma preocupação de outrora, que me levava a ouvir outras mães, busquei, no início, inclinar meus ouvidos para ouvir os filhos que cuidavam de seus pais.

Mesmo depois de tanto tempo, continuo a fazer isso. Interesso-me pelas situações novas, dos filhos que passam o mesmo que passei, e continuo passando. Procuro transferir o que aprendi. Só não consigo transferir a força necessária para impedi-los das lamúrias sobre as renúncias e as mudanças que sofreram suas vidas.

Força é algo pessoal, íntimo, e intransferível. Sem ela não haverá renúncia. E sem renúncia não haverá Amor.

Como eu dizia: preocupo-me com o findar dos velhos, acompanhados por olhos que não os percebam.

A indiferença nada mais é do que o enterro de quem ainda vive. E tenho uma certeza dolorosa sobre esses velhinhos, que perderam o dom da fala. Creio que, se pudessem, perguntariam: “Onde estão todos que amei?”.

Daí vem a minha segunda certeza, tingida de indignação: Deus, que sabe de todas as coisas, apaga suas memórias, livrando-os da dor atônita, ao perceberem que foram esquecidos enquanto ainda estavam vivos.





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