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A insustentável feminilidade do ser mulher…

A Insustentável feminilidade do Ser Mulher

Ele a chamou para conversar e ela sentiu seu estômago pular na garganta, instintivamente imaginou o que poderia ser. Quis recusar, pedir mais um tempo, implorar mesmo que não desistisse dela, mas não conseguiu. Permaneceu praticamente muda, ao telefone respondendo: hum… hum… vez ou outra. Ele continuou a falar depois de uma pausa breve, por certo esperando alguma reação da parte dela que não veio.



– Sinto que precisamos resolver essa situação o mais rápido possível. Creio que será melhor para todos.

Respondeu que sim, que concordava, mas no fundo queria gritar que não, que não fizesse isso com eles, mas calou-se mais uma vez. Sentia-se uma fraude, um ser sem personalidade que não conseguia aceitar a própria fragilidade e dor.

Queria mandar toda a liberdade, orgulho e anos de conquistas feministas para o alto e dizer “eu te amo” com todas as letras, mas preferiu ser fiel as outras e não se rebaixar a alguém que parecia não lhe querer mais.


Você deve estar pensando que ela é feminista e defende até a morte a soberania feminina. Não! Não se trata disso.

Ela é feminista sim, mas não em oposição aos homens, mas pelo direito de liberdade das mulheres. É feminista porque acredita que nós mulheres garantimos direitos que não podem ser negociáveis.

Desligou o telefone e foi malhar. Malhou tanto que sentiu o abdômen trincar, não se importou com a dor física, a dor emocional era muito maior. Saiu da academia se sentindo mais forte, mais preparada e obstinada. Passou em uma loja de conveniência e comprou comida congelada, dessas que pudessem ser rapidamente esquentadas no micro-ondas, comprou também uma garrafa de vinho, precisava amortecer um pouco a dor. Poderia chorar, mas não a levem a mal, chorar a deixaria tão mal que poderia ser o seu fim. Então, beber poderia aliviar e comer preencheria o vazio. Aliás, poderia comer bastante, a barriga negativa nem se moveria.

Escolher a música de sua preferência, abrir a janela e observar as estrelas do alto do vigésimo segundo andar, ficar nua e poder se admirar no reflexo do grande vidro da porta da sacada e perceber o quanto a boa forma lhe caia bem lhe trouxe algum prazer e segurança. Um ar de liberdade que gostava de sentir, mas algo lhe faltava. Algo lhe escapava.


Não conseguia utilizar-se de sua doçura intuitiva para compreender o que só uma mulher conseguiria intuir acerca do seu amado.

Sentia-se vazia e desprovida do seu bem maior. Seu feminino. Não conseguia entender a decisão que o levou a abandoná-la. Uma simples comida feita por ela mudaria tudo? Um pedido de ajuda ou um sinal de fragilidade lhe traria sua vontade de reconquistá-la?

Não. Ela não poderia ceder a tamanha infantilidade, a tamanha falta de sensibilidade. Ele a havia conhecido assim, livre, soberana, forte e decidida. Sabia que jamais entraria em uma cozinha, que jamais pediria a ele um favor banal, como matar uma simples barata ou levar seu carro à oficina. Ele a conhecia e havia se encantado com sua beleza e seu jeito de ser. Por que mudaria agora? Isso tem cara de molecagem, tem cara de outra mulher.

Saíram do restaurante amigos ou pelo ao menos bons conhecidos. Ele ofereceu carona certo que recusaria, sabia que estaria de carro. Deu-lhe um beijo no rosto e partiu. Ela seguiu até o manobrista e entrou em seu carro 1.8 e voou baixo para casa. Ligou para uma amiga e disse-lhe:


– Você acredita que o cretino terminou comigo? Homens são todos iguais.

Outro dia, o viu na rua abraçado com uma garota que parecia ter a mesma idade que a dela. Eles pareciam felizes. Ela o abraçava carinhosamente e ele lhe sorriu de volta quando abriu a porta do carro para ela entrar do lado do carona. Ele não a viu, mas sua face demonstrava satisfação.

– Torço que sejam felizes. Acho que vou aceitar o convite daquele carinha que conheci na última balada. Quem sabe pode ser uma boa?

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Direitos autorais da imagem de capa: iconogenic / 123RF Imagens

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