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A jornada do herói e o desenvolvimento pessoal:

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O antropólogo Joseph Campbell criou o conceito de monômio, mais conhecido como a “Jornada do Herói”. De acordo com Campbell, as narrativas que vão desde a Epopeia de Gilgamesh, passando pelos 12 trabalhos de Hércules até o próprio Moisés e Jesus Cristo, adotam um padrão de história clássico que todos os seus protagonistas tiveram que passar para chegar até se tornarem as lendas de suas respectivas histórias.

Creio que ao longo dos artigos que publiquei neste site, meu interesse pela cultura grega ficou bastante evidente, principalmente com as constantes referências que faço à Aristóteles e Platão, que ocupam lugar de destaque entre meus filósofos favoritos. A Jornada do Herói é uma destas estruturas narrativas que mostram como as virtudes de um indivíduo são moldadas através de suas experiências, e como evoluímos (mentalmente/espiritualmente) quando ser forte é a única alternativa que temos.

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Imagine a sua vida como uma estrada a percorrer: você tem um objetivo e quer alcança-lo. Infelizmente, a maior parte dos seres humanos atravessam essa estrada sem ficarem atentos com as placas de sinalização, não sabem a hora de acelerar ou de desacelerar, não observam o mapa que estão percorrendo, não ficam espertos com os buracos na estrada. Como consequência disso, muitos passam a maior parte da vida perdidos, sem saber de onde vieram e nem para onde vão.

Porém, temos também a figura do herói: o arquétipo do indivíduo virtuoso, que reúne em si todos os atributos necessários para superar de forma extraordinária os problemas que surgem em sua narrativa épica. O herói é aquele que, apesar de suas limitações humanas, transcende o seu Ser atingindo virtudes inalcançáveis pela maior parte dos homens comuns – nobreza, justiça, força de vontade, determinação, paciência, coragem.

O homem médio é incapaz de compreender essa figura, pois ao olhar para o herói, tudo o que ele é capaz de ver é um indivíduo sobre-humano, quase um semideus, que teve “sorte” na vida e por isso está onde chegou. No entanto, poucos param para observar e entender que até mesmo o mais extraordinário herói passou por etapas difíceis que o conduziram pouco a pouco ao seu destino. O herói não nasceu daquela forma, muito pelo contrário, foi moldado. Joseph Campbell em sua obra ‘O Herói de Mil Faces’ nos presenteia com a apresentação do que seria esta tal Jornada do Herói.

Na primeira etapa, o herói está em seu mundo comum, ou seja, sua vida antes da história começar. Usando o exemplo clássico de Star Wars, Luke Skywalker vivia sua vida em Tatooine, confortavelmente ao lado de seus tios, sem saber o que o destino lhe reservava. Isto pode ser representado pela nossa zona de conforto: dificilmente queremos sair dela, pois é aquele lugar onde nos sentimos em segurança, onde não precisamos nos preocupar com falhas ou lidar com quaisquer de nossos medos. As questões difíceis podem ser resolvidas por outras pessoas como uma figura de autoridade ou nossos responsáveis legais. Não há nada que não possa ser resolvido com o apoio de outra pessoa e você tem todas as garantias de que terá proteção e resguardo de quaisquer outros conflitos, sejam interiores ou externos.

Infelizmente, enquanto ficarmos presos em nossa zona de conforto somos incapazes de crescer ou alcançar quaisquer de nossos objetivos. Adam Smith – um economista britânico famoso pelo conceito de Mão Invisível – também nos ensinou algumas coisas sobre o que ele chamou de “estado estacionário”: um país que parou de crescer. Para Smith, a condição dos cidadãos de um país apenas melhora quando a “sociedade está avançando para a aquisição de mais riquezas”, pois um estado estagnado era caracterizado por sua decadência e por não produzir absolutamente nada, gerando poucos incentivos para o progresso. Assim é o indivíduo estagnado: sem produzir, sem avançar para mais riquezas e com a sensação constante de que a vida é um fenômeno decadente e com poucas surpresas.

E é neste ponto que entramos na segunda etapa da jornada do herói: o chamado para a aventura. Um problema se apresenta ao protagonista. Ele deve sair de sua zona de conforto ou corre o risco de perecer. Infelizmente, o herói recusa ou demora a aceitar o desafio, geralmente porque tem medo e duvida de suas próprias habilidades. Voltando ao Universo de Star Wars, basta lembrar que no começo, Luke não queria se unir à Obi-Wan para resgatar Leia, mas quando seus tios são mortos pelos soldados imperiais, ele aceita acompanhá-lo.

No mundo real cada pessoa tem um propósito na vida. O professor e pastor William Barclay afirmou que “Há dois grandes dias na vida de uma pessoa: o dia em que ela nasce e o dia em que ela descobre por que nasceu”. Cada pessoa descobre o seu propósito em vida em diferentes épocas e maneiras distintas. Não há um padrão aqui, há aqueles que se descobriram apenas aos 70 anos, enquanto outros aos 10 anos, há apenas um elemento em comum entre todos estes diferentes indivíduos: todos eles procuraram ardentemente o seu motivo de ser e existir e não desistiram disso nem por um minuto sequer.

Pois bem, qual foi a última vez que você reservou um tempo para descobrir o que você realmente quer em vida e traçar planos para alcançar este projeto? Qual foi a última vez que você atendeu o seu “chamado para a aventura” interno? Será que a sua missão pessoal e aquilo que você faz é tão atraente para si mesmo que te faz lamentar que mais um final de semana chegou? Sua missão interna te faz levantar da cama todos os dias ou você acorda com dificuldade e reclamando que mais um dia chegou?

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Seu propósito não precisa ser complexo, você não precisa necessariamente querer conquistar o mundo. O tamanho de sua ambição não importa, tudo que é necessário é que este projeto seja inspirador o suficiente para que desperte uma vontade interna de se esforçar para sempre ser o melhor que você puder ser.

A partir de hoje não faça nada por apenas fazer, mas adquira o hábito de perguntar a si mesmo: “Por que estou fazendo isso? Isto me preenche? Vou realizar algo que me aproxima de meus objetivos com isto?”. Estas perguntas podem ser incômodas e talvez suas respostas não te agradem, mas elas servem como bússola importante rumo ao seu Eu interior. Saber o que você busca e agir com base nisto aumenta enormemente as suas chances para o sucesso. Ouça sua voz interior, ouça o seu chamado para a aventura. Por que você está aqui, herói?

Infelizmente, como Luke, muitos acabam cedendo aos seus medos internos e, num primeiro momento, mesmo quando são chamados para a aventura, preferem ficar na zona de conforto. A maior parte dos indivíduos, ao invés de viverem em velocidade máxima, continuam repetindo a si mesmos sobre uma tal incapacidade para fazer isso ou aquilo, ou constroem imagens mentais onde eles estão falhando e passando vergonha. Como resultado disso, eles permanecem presos em sua zona de conforto, preferindo seguir uma vida de rotinas (porém segura) à uma vida de conquistas (porém instável).

Para ilustrar melhor a ideia, imagine que você está descendo a rua com o carro. Você ao invés de acelerar, aperta os freios, certo? Este é o melhor a fazer a menos que você queira bater o seu veículo no poste mais próximo. Só que, evidentemente, após passar a descida, continuar apertando os freios não vai te levar muito longe, certo? Imagine tentar andar por aí com o freio de mão levantado? O carro acelera com dificuldade, o consumo de combustível aumenta, o motor superaquece, podendo até mesmo fundir. Achou uma visão ruim? Pois saiba que este é o estado que a maioria das pessoas atualmente vivem: com o freio de mão puxado.

Em outro artigo contei sobre como elefantes de circo eram dominados no passado. A história nos relata que quando filhotes eles eram amarrados a uma corda e confinados a um espaço minúsculo, tornando seu movimento restrito ao comprimento desta corda. No início o bebê elefante tenta arrebentá-la, mas como ainda não tem força suficiente, não demora para que ele deixe de tentar. Quando cresce, o elefante passa a pesar mais de uma tonelada, e poderia facilmente romper esta corda, mas mesmo assim ele não o faz. Por que? Porque acredita que ela não pode ser arrebentada. Uma vida em liberdade deixa de existir porque o elefante está preso em sua zona de conforto.

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A partir de hoje, eu estou exortando você a atender o seu chamado heroico. Não deixe este artigo passar batido como mais um que você leu: comprometa-se consigo mesmo, aqui e agora, a dar o primeiro passo em direção aos seus objetivos. Se você ainda não sabe quais são, então vá descobrir, esta é a primeira etapa. Quando você finalmente encontrar o motivo pelo qual você está aqui, talvez sinta um pouco de medo e passe a lidar com questões que antes você não lidava, mas não recue, pois esta é a segunda etapa de sua jornada. O primeiro passo sempre é o mais difícil, um corpo tende a permanecer parado a menos que uma força o coloque em movimento. Saiba o que você quer, visualize sua vida como você gostaria que ela fosse e vá atrás disso. Não se limite por uma corda mental.

Só que lembre-se: sua jornada estará apenas começando. Você apenas passou por duas etapas. Para Joseph Campbell existem 12 Estágios que o Herói deve enfrentar para mudar o mundo, e estas etapas pretendo dissecar nos próximos artigos. Mas enquanto estes artigos não chegam, me conte qual é sua missão pessoal? Como você a descobriu?