Mãe é mãe! o seu maior medo é de que seus filhos desapareçam de sua memória…

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Mãe é mãe! Ela não teme o entardecer dos seus dias. Seu maior medo é de que os filhos desapareçam de sua memória…

Poliu as unhas, e examinou o efeito da arte. Para secar, abanou ambas as mãos, num aceno de quem parte. No ar — de vinte metros quadrados — do quarto, foi deixando rastros perfumados do rosa esmaltado. Depois, aquietou-se. Pousou-as no colo e olhou ao redor, abismada, sentindo-se uma estranha que invade um recinto íntimo, alheio e desconhecido. Aos poucos, a mente clareia. Dissipa-se a neblina que vem lhe ocasionando, com certa frequência, esquecimentos momentâneos.



Às vezes, desconhece o ambiente; em outras, os nomes das pessoas. E dos filhos!

Põe-se de pé, e agarra o momento, antes que ele lhe fuja. Dentro de três terços de hora, haverá uma festa de aniversário. O seu. A garganta arranha, numa secura inesperada, e os joelhos tremem sutilmente, sob as rendas da anágua. Busca o ar e recebe o aroma fresco da rosa vermelha, colhida à tardinha, enfeitando, com soberbia, o centro do toucador. Os três espelhos ovais triplicam-lhe a imagem… e nenhuma delas parece ser a sua!

Apanha, com voracidade, o estojo de marfim, onde porta seu melhor batom importado. Antes de girar a pequena tampa, observa a relíquia — presente de um de seus pretensos namorados — de um glorioso passado… Qual deles? O cearense ou o alemão?

Desalentada, fita o chão. E murmura: “Ah, memória falha!…Por que não vem? Por que não aparece quando me convém?!”. Estranha a comichão, bulindo no peito, enquanto tenta reconhecer alguém entre as silhuetas que lhe rodeiam. Deita a ternura do olhar a cada pétala da flor encarnada, ainda cheia do viço, que murchará em algumas horas.


Outras lembranças acordam…

Recorda-se de seu primeiro amor, pobre, constantemente desempregado, e sem possibilidades de ofertar-lhe qualquer coisa acima do preço de uma rosa. Mas, nem rosa veio…Talvez as dificuldades lhe tenham empobrecido a alma. Não, não! Melhor não justificá-lo. Já era mesmo todo pobre, na essência e no bolso. A riqueza não mudaria essa miséria congênita escorrendo-lhe dos olhos e dos poros.

As feições ruborizam-se de felicidade, dando-lhe, por um instante, olhos deliciados, gulosos, de uma menina diante do sorvete. Conseguir uma lembrança inteira, sem intervalos, e sem aqueles vácuos perturbadores, é como escancarar uma janela e deixar que o sol da manhã atravesse a janela com raios deslumbrantes.


Parabeniza a si mesma por ter feito a coisa certa. Por não ter se casado com o rapaz fraco, sem romantismo e que não foi capaz de lhe ofertar sequer uma flor roubada. Não foi capaz de rompantes que a surpreendessem, de gestos inesperados que a conquistassem e, assim, aprisionasse seu coração definitivamente.

O início foi apaixonante! Encantou-se pelos olhos azuis, transparentes, olhos que pareciam carregados de promessas, e de céus. E, por fim, depois de atravessá-los esperando encontrar o Paraíso na terra, topou com o nada. Um nada que poderia minar-lhe a vida, os sonhos, e morreria jovem sem nunca ter sabido como era viver na íntegra. Um nada doloroso, assustador, que lhe fez recuar, sem nunca mais querer voltar. Fugiu, e cercou-se de silêncio, sem nem mesmo responder às cartas chorosas.

Suspira. O refil dourado do batom gira, lentamente, entre os dedos, e o rolo do filme de sua vida vem como relâmpagos esporádicos. Não foi o cearense nem o alemão, que a presenteou. O namorico com os dois teve o efeito de um raio, num tempo tão curto que nada marcou. Foi o paulista. Paulista de nascença, com o sotaque de carioca, adquirido pelos anos de vivência. Tinha belos cabelos dourados, um gingado de praia, e uma sereia tatuada no ombro esquerdo. Declamava-lhe poesias, presenteava-lhe com objetos encantadores, botões de rosas amarelas, no café da manhã, e sorrisos hipnóticos. Tudo era perfeito, até que descobriu que ele fazia o mesmo com mais duas…

Olha o relógio e vê que está atrasada. Nervosa, delineia os lábios entreabertos, apertando contra eles o pinque cremoso, com pressa e sofreguidão. Subitamente, o batom toma a forma e o gosto de um beijo. Sem som. Roubado, invisível… e tão perto! Afasta-se das faces triplicadas, espantadas, e pálidas dos espelhos. No peito, o coração descompassa, e depois dispara. Já conhece os sintomas, e, também, o remédio para esse tempo, que se mistura e a desnorteia. Os pensamentos são brumas confusas, açoitando-lhe as paredes da cabeça; a alma se debate como ave presa.

Pousa a taça de vinho no parapeito da janela, enche os olhos de lua e estrelas e sorve, com vagar, a ligeira brisa. É preciso acalmar as lembranças, que lhe alcançam como um mar tempestuoso. É preciso evitar o fútil assédio dos toques sem presença. Arrepios mornos de vida correm-lhe pelo corpo, como um hálito assoprado. Restaura a respiração, e, lentamente, concentra-se no próximo ato. Concentra-se no ritual de embelezamento, que disfarçará sua angústia. Há uma festa e precisa apressar-se — a pressa da alta idade é uma câmera lenta enchendo a todos de impaciência.

Sua filha, a mais nova, dentre os quatros filhos, ofereceu-lhe ajuda no vestir. Recusara gentilmente. Precisava saber que ainda era capaz de escolher seu próprio vestido, sapatos que combinassem, e entrar dentro deles. Ah, se ela soubesse…

A seda fria das meias, suavemente, farfalha, e desliza sobre a pele feito uma carícia, nas noites de inverno. Rente. Intimamente familiar! Casto tato, que só existe entre as mãos da criança alpinista que, um dia, já escalou suas pernas, tentando alcançar seu colar de pérolas.

Qual de seus filhos fazia isso? O primeiro? O último?

Solta os papelotes e olha para os ralos cachos, tingidos de cobre para disfarçar o grisalho. Chacoalha para fora de si o tapete do medo intenso, e interno. Vasculha, ansiosa, os quatro cantos do quarto, os quatro cantos da cama, os quatro cantos dos céus, os quatro cantos de sua vida, esperando encontrar… O quê?

Onde se meteu a coragem impetuosa de outrora? Em qual tempo fora roubada sua força de moça, deixando, no lugar, essa alma velha, alquebrada, fraca e confusa?!…Sente o suor gelado umedecendo-lhe as têmporas e ao redor dos lábios. Os brincos de ametistas colorem a face pálida; e o vestido é um jardim, exaltando o vermelho, sobre o fundo verde esmeralda. Dispensa o xale. Está apropriadamente vestida para a noite cálida. Apropriadamente bela para a comemoração de seus oitenta e nove anos. Está pronta para a festa!

Aparenta a tranquilidade que a ocasião pede, quando por dentro é apenas um veículo descontrolado, derrapando por uma via tortuosa, às vezes clara e, noutras, mergulhando no escuro. A festa, essa que a espera na grande sala, causa-lhe tremores, pânico e a proeminente vontade de estar inacessível à vista de todos. Nas outras, dos anos anteriores, era apenas o enfado de gente velha, contando os minutos para o encerramento, esperando, com aflição, o momento de se jogar na cama e relaxar o corpo esgotado. Prevê o cansaço de dentro em pouco, o cansaço da arte de sorrir, agradecer, cumprimentar, concentrar-se nos nomes e falar menos para evitar alguma gafe.

Condena quem inventou essas comemorações para a terceira idade. Condena quem segue adiante com essa festa contraditória, onde parabenizam a proximidade do fim. Depois dos setenta anos, o momento de cortar o bolo tornou-se cruciante. Vê, na fatia do primeiro corte, a antessala da morte. Vê, em cada ano acrescido, a diminuição do seu tempo de vida, e o minar de suas expectativas. Ganhar anos é perder um pouco de sua estada na terra. É perder a massa corpórea, as formas que lhe configuram… vincar o rosto… e, como se tudo isso não bastasse, vem o desfecho cruel da morte de sua cognição. Seu cérebro resolve pregar-lhe uma peça e decide partir, deixando-a para trás.

Abre a porta e atravessa o corredor, em direção das vozes e risos tão comuns nas festas. Sua bússola, no mundo, sempre a direcionou para a alegria reunida dos filhos.

Reconhece a voz cantarolante de sua filha, e a gargalhada de seu filho mais velho, retumbante como o bater de pedras no vidro. Como os ama! Ouvi-los é como ter uma orquestra de anjos só para si. Por eles, hoje, desempenhará o papel que, tradicionalmente, exibira todos os anos. Manterá o porte de matriarca, posto adquirido desde sua viuvez precoce, e receberá os presentes — um a um — mantendo-os por uns segundos no peito. Disfarçará a emoção, e distribuirá abraços longos, regados a beijos.

Sente uma fisgada de saudade dos bolos que não cortará mais. Da fatia, no pratinho de porcelana –herança de sua avó — zombando da morte de seus anos.

Sente saudades de todos da casa, do janelão de seu quarto, mostrando o jardim que plantara com tanto gosto e esmero; dos filhos pequenos, correndo pela casa, sujando as paredes recém pintadas, brigando por qualquer bobagem. Dos netos, bisnetos…e de si mesma!

Passou a tarde inventando palavras de adeus, para o discurso de hoje; e não encontrara uma maneira de dizê-las sem que uma nuvem de tristeza pairasse sobre todos. Não queria provocar isso, mas era inevitável. Não poderia esquecer das palavras ensaiadas, para consolá-los, e consolar a si mesma. Olharia para cada um deles, com o amor que não precisa ser ensaiado, e tão pouco decorado, e diria: ” Meus queridos, essa é a última comemoração de meu aniversário. Preciso confessar-lhes, enquanto me sobram uns laivos de realidade: minha memória agoniza, e não durará até a próxima festa… Meu último desejo é que não festejem meu corpo sem memória… seria tortura uma festa que não poderei perceber, desfrutar, e…”

Uma gota de orvalho, quente, pinga e escorre sobre a costa da mão. Angustiada, percebe ser uma lágrima. A sua! Lamenta os lapsos de memória, furtando-lhe o controle e estragando o script tão bem gravado. Estragando o final, em que ela sairia de cena, com distinção, aceitação, a maquiagem intacta… e Paz!

Estica o braço e, às cegas, procura um guardanapo entre os restos de sua festa. E chora, como nunca chorou antes, em outras despedidas. Sussurros…e mãos que lhe tocam, em carícias de plumas. E dois braços fortes do seu terceiro filho, amparando-a contra o peito. Instantes após, os braços tomam outra forma. Em outra época… Ouve a voz, repassada de ternura, de seu pai, confortando-a, enquanto o médico trata um de seus dedos do pé, que se deslocara. Chora como a menina de cinco anos, que chutou uma pedra, enquanto corria descalça, atrás de nada.

O relógio cuco badala oito vezes, no alto da parede. Tem um sobressalto. O corpo pula como uma mola solta, perdendo o aconchego do colo paterno.

Esquiva-se dos braços do estranho, que a circundam, e olha, assustada, para o tormento das faces desconhecidas.

Por que choram todos? Por que chora ela ?

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Direitos autorais da imagem de capa: jaysi / 123RF Imagens

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* Matéria atualizada em 07/05/2017 às 10:07






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