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A máscara sentimental chamada orgulho…

A MASCARA SENTIMENTAL

Nenhuma máscara é permanente em quem a usa. Ora ela cai, ora precisa ser ajustada e, em outros momentos, retirada da fronte de seu usuário. Desta mesma forma, o orgulho é um tipo de máscara, mas uma máscara sentimental, diferente das mais comuns usadas pelas pessoas no decorrer da História, para diferentes finalidades, como complemento, um ornamento, de fantasias ou aparato de proteção nas armaduras de guerreiros.



Como quase todos os tipos de conceitos criados a partir do convívio social e da mente humana, o orgulho tem dois aspectos, duas qualidades, um positivo e um negativo. Seria aqui uma confirmação da doutrina filosófica Taoista, em seus conceitos Ying Yang? Um questionamento que se abre à reflexão.

A reflexão que aqui pondera-se é do aspecto mais negativo do orgulho (ou, vaidade), a gravidade do mesmo é tamanha para os religiosos que, por exemplo, segundo o teólogo dominicano e um dos representantes da Escolástica Medieval, São Tomás de Aquino (1225-1274), o orgulho é o primeiro em sua lista de classificação dos sete pecados capitais, que são formadores de outros vícios.[1] O historiador Leandro Karnal, por sua vez, também recorda esse mesmo fato na introdução do seu livro, “Pecar e perdoar: Deus e o Homem na História”, publicado em 2014: em nossa tradição religiosa – fundamentada, principalmente, no universo de moral e crenças judaico-cristãs – o orgulho representa o primeiro dos pecados.

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Quando abandonamos o legado de crenças religiosas, que tendem a entender o orgulho como um vício, um pecado, ou seja, como um sentimento nocivo que leva à práticas degeneradas, voltamos ao seu aspecto brando e positivo. Sem minimizar a importância da tradição religiosa, até mesmo em nossos tempos contemporâneos – como bem salienta Karnal –, não nos cabe entender o orgulho apenas como um pecado, pois ele também nos é indispensável e assim se constitui na medida em que fortalece nossa dignidade pessoal.

Na atualidade, o orgulho embasa não apenas nossa satisfação emocional psicológica – o orgulho da conquista de um sonho –, mas também está no cerne de diferentes movimentos sociais. Há poucos dias ocorreu um deles, o da Consciência Negra, no dia 20 de novembro, no qual ativistas e simpatizantes do movimento também comemoram o dia Nacional do Zumbi dos Palmares, ícone de uma história marcada por luta contra a opressão de um tipo de sistema e contra o sofrimento humano. Desta herança cultural, o orgulho irrompe como valorização máxima da cultura e da história dos povos negros escravizados por séculos.

Sendo assim, levanta-se uma, inquietante, pergunta: O que existe atrás da sua máscara sentimental de orgulho? O que contém atrás desta máscara é a sua essência, a essência humana. Na noção exposta, do orgulho polarizado entre o negativo e o positivo, existe a necessária possibilidade do equilíbrio entre um polo e outro. Afinal, será mesmo que “olho por olho, dente por dente” encaixa-se em toda e qualquer situação? Ou, o seu orgulho étnico, cultural, social, profissional ou pessoal, de gênero etc., justifica a prática de maldades, sutis ou violentas, às demais pessoas? É aí que o equilíbrio da essência humana se manifesta uma busca constante. Na prática, a busca pela justiça não devia machucar ninguém, mas esta ideia acaba por revelar-se pura teoria em certos casos.

A máscara sentimental de orgulho, em toda sua indispensável utilidade na vida e no dia a dia, requer, também, a conservação de empatia, de bons sentimentos e tratamentos humanos, mais honestos quanto nos forem possíveis, o equilíbrio entre o que nos fere e o que pode ferir o nosso próximo. A sua máscara não precisa, necessariamente, ser um ornamento falso de você mesmo, até porque, ainda que na superfície, ela não deixa de retratar quem você venha a ser em essência.


Por isto, não há necessidade de falsificar sentimentos ou fingir ser alguém que você não é para agradar as pessoas, uma vez que as mais sensíveis à empatia humana reconhece o momento em que atua apenas um mero e falso personagem. Muitas vezes, são essas as pessoas mais difíceis de terem seus muros de proteção pessoal quebrados e ultrapassada a sua máscara. Em contrapartida, às vezes, boa educação e bons modos de tratamento podem apenas fazer parte de uma simples obrigação da máscara, uma trivial interpretação realizada por obrigatoriedade, como é preciso em ambientes de estudo e de trabalho, por exemplo. Mas desde que o intuito seja positivo e não o de maltratar pessoas, a interpretação obrigatória da máscara terá sido bem utilizada, no caso, para fins maiores de pacífica convivência.

Não somos obrigados a gostar de ninguém, a sentir amor por todas as pessoas, ideias essas que vêm sendo bastante disseminadas nas redes sociais. Fato, não somos e não há como gostar de todas as pessoas que passam por nossas vidas, assim como agradar a todas também é inconcebível. Sempre encontramos comportamentos e hábitos que nos desagradam em algumas e modos que nos agradam em outras pessoas. Isto é normal, comum. Porém, a máscara sentimental do orgulho não deve abrir mão da boa educação e do respeito, pois sem estes princípios comportamentais básicos o convívio humano torna-se, praticamente, impossível, fatigante. Viver em constate “pé de guerra”, alimentando ódio, carregando pesados armamentos bélicos, ofensivos e defensivos, todos os dias, é algo cansativo, mesmo na metáfora imaginativa.

Esse “tal” aludido equilíbrio da máscara, entre o polo positivo e o negativo, carece de esforço pessoal, que, bem antes de ser coletivo, é um esforço individual. Preguiçosos e acomodados ao vício de um dos polos da máscara, geralmente, o polo mais negativo e, então, arrogante, não se agradam sequer da ideia do necessário esforço da busca pelo equilíbrio. Aplica-lo, então, torna-se ainda mais difícil, pois até que seja colocado na prática, antes, foi necessário sair da nossa zona de conforto e buscar dentro de nós, ou no meio à nossa volta, o trabalhoso equilíbrio sentimental.

Nessa busca, não há manuais de instruções ou procedimentos técnicos, o que demarca, mais a ainda, a dificuldade do desenvolvimento do essencial equilíbrio. Entretanto, uma vez alcançado, a máscara do orgulho pode ser melhor ajustada e mesmo retirada quando convir. Não seremos dela eternos prisioneiros, porque nosso eu real, íntimo, atrás do seu ornamento, será mais pacífico, humilde, equilibrado e tão, ou mais, humanizado que seu aparato ornamental e protetor. A máscara do orgulho é um aparato, um complemento da essência, mas não é esta.


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Cabe a cada um de nós traçar o próprio caminho para a busca, que se faz individualmente. A História humana mostra-nos através dos fatos acontecidos toda a dificuldade então vivenciada pelas pessoas devido ao pouco equilíbrio sentimental, mas temos hoje novas oportunidades de viver em paz conosco e com as demais pessoas. Outros tempos, outras pessoas, novas sociedades, novas mudanças. Aqui coloca-se um convite, permita-se ao trabalho, à chance, à constante busca, ao novo, e não desista: Equilibremos nossas máscaras sentimentais de orgulho!

[1] Obras de Aquino a trabalhar tais noções: “Sobre o ensino e os sete pecados capitais” e “Suma teológica”.


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