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Médico que retirou vergalhão da cabeça de operário em 2012 se aposenta do Hospital Miguel Couto, no Rio

Foto: Divulgação
Medico que retirou vergalhao da cabeca de operario em 2012 se aposenta do Hospital Miguel Couto no Rio capa

Prestes a completar 75 anos, idade limite para atuação como servidor público, o médico Ivan Santana Dório fez o seu último plantão nesta quinta-feira, como de costume.

Muito emocionado e sendo cumprimentado por todos que o avistavam pelos corredores do Hospital municipal Miguel Couto, sente “um vazio” com a despedida.

Dentre todas as cirurgias que realizou ao longo dos 28 anos na unidade, a mais conhecida é uma em que retirou da cabeça de um operário um vergalhão de dois metros de comprimento, que atravessou o crânio do homem.

Muito querido, precisou interromper a entrevista para cumprimentar os amigos de longa data. Lembrando-se de seu primeiro dia no hospital Miguel Couto, 12 de abril de 1994, às 20h desta quinta-feira se encerra o seu último plantão na unidade, o que não é fácil.

— Estou um pouco desorientado, com uma emoção atrás da outra. Vou até me internar no Miguel Couto para me reidratar, de tanto que chorei hoje — brinca o doutor Ivan. — Eu fui me aconselhar com aqueles que ficam jogando dominó e dama no Posto 6 (da praia de Copacabana) e já sei que não quero essa vida para mim, vou descansar e depois seguir atendendo meus pacientes particulares.

No dia de homenagens, seus colegas da neurologia e de outras áreas do hospital prepararam uma festa durante a manhã. Já no final da tarde, recebeu uma homenagem da prefeitura do Rio, com uma placa agradecendo pelas três décadas dedicadas ao Miguel Couto.

Carioca nascido em São Cristóvão, na Zona Norte, foi no bairro de Bonsucesso que Ivan Santana passou a sua infância. Estudante de escola pública ao longo de toda a vida, se formou em medicina na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e, há 28 anos, atua na área de neurologia do hospital Miguel Couto, no Leblon.

Ao longo de sua carreira, precisou experimentar a sensação do afastamento recentemente, já que, por ser hipertenso, ficou longe de suas funções durante o auge da pandemia. Antes de retornar ao trabalho, foi o primeiro da unidade a se vacinar contra a Covid-19.

Apesar de sentir orgulho de todas as cirurgias que realizou, uma em especial ganhou destaque: foi em 2012, quando Eduardo Leite, operário de uma obra em Botafogo, na Zona Sul, teve o crânio atravessado por uma vergalhão de dois metros, que saiu por entre seus olhos.
— Sempre sou perguntado sobre isso, dá a sensação que só fiz essa cirurgia na minha vida. Mas não: eu já fiz cirurgias de coluna, tumores, traumas. Sem contar uma leva de aulas para os meus residentes e a quantidade de cirurgias, que, no ano passado, nós (setor de neurologia) fizemos mais de mil. Elas me comovem da mesma maneira (que a cirurgia de retirada do vergalhão).

Seu aniversário de 75 anos, data limite para a aposentadoria, é só em julho. Até lá, vai tirar férias e, finalmente, se desligar do hospital. Depois do descanso, terá mais tempo de se dedicar à família. Além da esposa, do filho e de três enteados, tem o o xodó Lucca, seu neto de 6 anos — que já até o visitou no hospital e se vestiu com toda a roupa do centro cirúrgico para tirar fotos.

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