Comportamento

“Meu nome é Zé Pequeno.” Conheça a história real do criminoso que inspirou icônico personagem em filme

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A morte de Zé Pequeno aconteceu no Natal de 1985, quando ele tinha apenas 28 anos, recém-saído da prisão em Frei Caneca, na tentativa de retomar o controle das “bocas de fumo”.

O filme “Cidade de Deus” foi uma adaptação de Fernando Meirelles e Kátia Lund do livro homônimo de Paulo Lins, de 1997.

Com roteiro de Bráulio Montovani, o longa-metragem foi lançado em 2002 e imediatamente se configurou como fenômeno cultural no Brasil e no mundo. Indicado ao “Oscar” nas categorias de Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Edição, a realidade das favelas cariocas imediatamente se tornaram foco de atenção internacionalmente.

Cidade de Deus, o bairro que nasceu do preconceito

Mas a história do bairro Cidade de Deus, que fica na Barra e em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, começa muito antes de Zé Pequeno, já remontando a uma história de desigualdade social, higienismo e preconceito. Na década de 1960, logo depois do golpe militar que culminou na ditadura no Brasil, milhares de famílias foram removidas de suas casas e transferidas para bairros e conjuntos habitacionais distantes e localizados em áreas mais desvalorizadas da cidade.

As chamadas remoções, com a intenção de “limpar” áreas centrais para que o capitalismo se apropriasse delas, tiveram início ainda no começo do século XX, no Rio de Janeiro, quando Francisco Pereira Passos começou o processo de retirada das famílias dos cortiços, sob o discurso higienista de que as habitações eram insalubres e indignas. Na década de 1960, foi a vez de Carlos Lacerda, que tinha como principal alvo a Zona Sul carioca, em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas, da Praia do Pinto, na Catacumba e no Machado Sobrinho.

As famílias que moravam nessas favelas da Zona Sul foram realocadas nas periferias da cidade, em bairros que eram a Cidade de Deus e a Vila Kennedy. A quantidade de moradores enviada acabou sendo incompatível com o espaço, e o crescimento desordenado fez com que a população precisasse se virar, ocupando as margens do rio Grande e seu afluente Estiva.

Logo depois de Carlos Lacerda, Negrão de Lima foi eleito governador do estado da Guanabara (como era conhecido o Rio de Janeiro), em 1965, e tinha o discurso político alinhado com a população das favelas, mas acabou sendo “engolido” pela classe média, que transformou as remoções em questão central do governo. Os chamados “removidos” ou “ex-favelados” passaram a falar abertamente sobre a súbita deterioração no seu estilo de vida, na renda, no tempo gasto no transporte, entre outros problemas encontrados nos conjuntos habitacionais, que ficavam extremamente distantes dos centros.

José Eduardo Barreto Conceição, o Zé Pequeno

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Direitos autorais: Reprodução/O2 Filmes.

É justamente nesse rompimento dos elos que existiam nas favelas, afastando indivíduos de seus ambientes compartilhados, desintegrando os favelados completamente da sociedade, que nasce José Eduardo Barreto Conceição, conhecido na infância como “Dadinho”. Afastados da Zona Sul, os moradores se viram ilhados em conjuntos habitacionais que nem sequer recebiam iluminação pública nas ruas, o que aumentou as taxas de violência drasticamente.

Nascido em 1957, no Rio de Janeiro, José Eduardo cresceu na Cidade de Deus, assistindo às remoções e à expansão da comunidade em tempo real. Ao contrário do filme (e do livro), Dadinho não é órfão e sua mãe tampouco trabalhava com prostituição, como alegam. A própria mulher, chamada de Dona Ba, explicou aos jornais na época que não chegou a se envolver com o ofício.

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Dadinho e Bené cresceram juntos, assim como o longa-metragem apresenta, realizando pequenos delitos, como roubos e furtos. O Trio Ternura realmente existiu, e era formado por Cabeleira, Marreco e Alicate, que era conhecido na Cidade de Deus e tinha a proteção de muitos moradores. Isso porque o trio realizava roubos e dividia o dinheiro com os moradores locais, o que dava a sensação de “justiceiros”.

O Trio Ternura acabou se transformando em uma fonte de inspiração para os meninos da comunidade, e Dadinho realmente foi convidado a participar do roubo a um motel com os jovens, ficando como vigia. Mas no longa-metragem, ele simplesmente é tomado por uma ira psicótica e acaba cometendo uma chacina no local, coisa que moradores e amigos de Zé Pequeno da vida real garantem que nunca aconteceu.

De fato, ele participou do assalto, mas ficou realmente apenas como vigia. Ainda assim, isso fez com que Dadinho encontrasse um caminho diferente para seguir dentro da Cidade de Deus, o da criminalidade. Zé Pequeno, como passou a ser chamado, decidiu dominar a venda de drogas na região, e foi anexando as pequenas “bocas de fumo” ao seu negócio, criando um monopólio na comunidade.

Para conquistar o poder, Zé Pequeno precisou matar concorrentes, e Aílton Batata, um dos que batiam de frente com ele na época, conta que uma guerra acabou se instalando na região. Como todos os traficantes eram amigos de infância, muitos ficaram sem entender o que estava acontecendo. No filme, Batata recebe o nome de Cenoura, e na vida real os dois chegaram a se enfrentar, mas foi Zé Pequeno quem levou a melhor, acertando vários disparos no rival.

Batata não morreu, mas deixou de rivalizar com Zé Pequeno, e outros traficantes quiseram disputar o monopólio da venda de drogas. É quando surge Mané Galinha, interpretado por Seu Jorge no filme e que na vida real era um ex-militar que decidiu entrar no tráfico, até ser assassinado por outro rival. Batata resolveu voltar para a cena, prometendo vingança pela morte de Mané, e os dois começaram um conflito sangrento.

Com tantas mortes, a polícia acabou prendendo Zé Pequeno, que ficou na detenção em Frei Caneca. Ele ainda lutou para se manter no comando do tráfico na Cidade de Deus, mesmo dentro da cadeia. Quando saiu, estava determinado a retomar sua posição, então elaborou o plano de tomar o ponto dos prédios habitacionais, local que deu origem à Cidade de Deus.

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Outro ponto que difere da realidade é que Zé Pequeno teria morrido pela mão de crianças que tinham raiva dele por usar muitas no tráfico. Na realidade, todos sempre relatam que ele não permitia crianças no tráfico, inclusive proibia seus capangas de usarem drogas na frente de qualquer uma delas na comunidade.

Se você está se perguntando como Zé Pequeno morreu, muitos acreditam que ele tenha sido vítima de overdose, já que seu corpo não apresentava marcas de violência. Foram os próprios comparsas que teriam removido seu corpo da Cidade de Deus para evitar a presença de policiais no local. Uma reportagem da Folha de S. Paulo de 2003, com entrevista de moradores da comunidade, revela que eles são totalmente contrários à ideia de que Zé Pequeno era estuprador, que cheirava cocaína e teria morrido por disparos feitos por crianças.

A antropóloga Alba Zaluar na época reforçou que, em todas as suas pesquisas, nunca viu nenhum menor de idade portando arma e que não teria sido Zé Pequeno quem cometeu a chacina no motel, quando ainda era chamado de Dadinho, e sim outro criminoso.