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Morre Freddy Rincón, ídolo do Corinthians e da seleção colombiana

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Ídolo histórico do Corinthians e ex-jogador da seleção colombiana, Freddy Rincón morreu hoje (14) em decorrência dos ferimentos sofridos em um acidente de carro na madrugada de segunda-feira.

Aos 55 anos, o ex-meio-campista estava internado desde a manhã do mesmo dia devido a um traumatismo craniano, chegou a ser operado, mas não resistiu à gravidade dos ferimentos.

A morte do ex-jogador foi confirmada na madrugada desta quinta-feira do Brasil (noite de quarta na Colômbia) pelo médico Laureano Quintero, chefe da equipe do Hospital Clínica Imbanaco onde estava internado.

“Apesar de todos os esforços de nossa equipe de trabalho, Freddy Rincón Valencia morreu. Queremos expressar nossos sinceros sentimentos de condolências a seus familiares, amigos e seguidores”, disse Quintero.

Rincón foi um dos grandes personagens do futebol brasileiro nos anos 90 e 2000. Ele foi campeão paulista pelo Palmeiras em 1994 e anos depois se tornou um dos maiores ídolos do Corinthians, pelo qual foi bicampeão brasileiro (1998 e 99) e campeão mundial como capitão, em 2000, no primeiro grande título internacional do clube. O colombiano ainda defendeu Santos e Cruzeiro no futebol brasileiro.

Freddy Eusébio Gustavo Rincón Valencia nasceu em 1966 em Buenaventura, a maior cidade portuária da Colômbia. Foi no time local que ele se destacou aos 19 anos, antes de passar por Tolima, Independiente Santa Fe e América de Cali, chegar à seleção colombiana e ir jogar no exterior. Além dos clubes brasileiros, ele também defendeu Napoli (ITA) e Real Madrid.

Nas redes sociais, times como Corinthians, Santos e a seleção colombiana lamentaram a morte de Rincón.

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Problemas com chefes do Cartel de Cali

Freddy Rincón talvez fosse o jogador de maior prestígio do futebol colombiano em 1990, quando chegou ao América de Cali. Ele vinha do Santa Fe já como meio-campista consolidado e naquele mesmo ano faria um gol histórico na Copa do Mundo, no empate com a Alemanha —que seria a campeã mundial. Ao chegar em Cali, no entanto, descobriu que precisaria seguir as regras e caprichos do presidente Miguel Rodríguez Orejuela, traficante que era o número 2 do cartel local.

Nos três anos que jogou lá, Rincón conta que recebeu duas propostas do Boca Juniors que lhe agradaram, mas que Orejuela simplesmente ignorou. Foi só depois da Copa do Mundo de 1994, a segunda que ele disputou, que o volante finalmente conseguiu deixar o clube para jogar no Palmeiras.

“Quando cheguei ao América, me desmotivaram. Me baixaram o salário pela metade do que eu ganhava no Santa Fe. Isso para mim foi uma humilhação muito grande que me fez passar o dono do clube.”, disse Freddy Rincón, sobre Miguel Rodríguez Orejuela.

Chegou ao Brasil pelo Palmeiras

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Rincón passou à história como ídolo do Corinthians, mas entrou no futebol brasileiro pelo fortíssimo Palmeiras montado pela Parmalat. Chegou em janeiro de 1994, chegou a ser acusado de falta de compromisso, mas foi campeão paulista em um time que o próprio ex-volante afirmou ter sido o melhor em que jogou no Brasil.

Naquele ano, foi para sua segunda Copa do Mundo, já como um dos pilares da melhor seleção colombiana da história, de Valderrama, Valencia, Asprilla e cia., que chegou a fazer 5 a 0 na Argentina em Buenos Aires e foi cotada para o título mundial —que, no entanto, acabou em decepção. Durante a Copa, o colombiano chegou a dar entrevista dizendo que não queria seguir no Palmeiras, pois dito e feito: quando voltou dos EUA, já estava vendido ao Napoli (ITA).

Racismo e frustração na Europa

Rincón foi ao futebol italiano praticamente como contrapeso de uma negociação entre o Napoli e o Parma, cujo presidente era o mesmo que injetava dinheiro no Palmeiras. Inicialmente, chegou a ser escalado como centroavante, mas só melhorou depois de voltar ao meio-campo, seu setor de origem, e terminou a temporada 1994-95 como vice-artilheiro do Napoli.

Não foi um desempenho tão regular, mas a técnica e a imposição física de Rincón despertaram o interesse do Real Madrid. O meio-campista foi contratado a pedido do técnico Jorge Valdano, que, no entanto, logo acabou demitido. A troca no comando fez Rincón perder espaço em um vestiário “de ego, orgulho e ciúmes”, como descreveu depois. O colombiano revelou ainda ter sido vítima de racismo de torcedores do clube.

“Infelizmente passei por um período muito triste, porque era uma época de racismo muito marcado. Essa foi uma das coisas que me prejudicaram bastante. Não que tenha me desmotivado, mas fez com que eu não jogasse mais tempo ou tivesse mais chances.”

Idolatria no Corinthians e brigas com companheiros

Rincón foi emprestado para sua segunda passagem no Palmeiras em 1996, desta vez sem muito destaque ou título. No ano seguinte, foi vendido pelo Real ao Corinthians, que “atravessou” o Santos na negociação para torná-lo uma das rochas do elenco que seria bicampeão brasileiro e campeão mundial em 2000. O colombiano compôs com Vampeta, Ricardinho e Marcelinho Carioca um meio-campo muito lembrado pelos corintianos, ainda que o vestiário fosse um caldeirão.

A história clássica é de uma briga em que Rincón levantou Marcelinho do chão, e há ainda outra, em que Edílson teria puxado uma faca para o colombiano dentro do vestiário. Passados os anos, não era raro Rincón brincar que “carregava todos eles nas costas”, por ser o que mais marcava em um time bastante ofensivo no Corinthians. No total, foram 158 partidas e 11 gols de Rincón pelo clube.

“Foi um orgulho muito grande ter levantado a taça do Mundial de Clubes da Fifa pelo Corinthians. Foi logo uma semana depois de ter vencido o Brasileiro [de 1999] contra o Atlético-MG, que tinha um timaço e nos deu muito trabalho.”

Rescisão, ida ao Santos, Cruzeiro e aposentadoria

Rincón trocou o Corinthians pelo Santos já em fevereiro de 2000, duas semanas após o Mundial com o Corinthians. O colombiano rescindiu seu contrato para ganhar quase o dobro no rival após atritos com a diretoria corintiana em torno da cotação do dólar no cálculo de seu salário. Meses depois, o colombiano foi vice-campeão paulista com o Peixe, que teve ano decepcionante; no ano seguinte, os salários voltaram a ser assunto, ele se reapresentou muito depois dos companheiros e acabou negociado com o Cruzeiro.

A passagem por seu quarto clube no Brasil foi apagada, com 22 partidas naquele ano de 2001. Foi apresentado junto a reforços de peso, como Edmundo e Luisão, mas foi expulso logo na estreia, acabou multado por expulsões consecutivas e ainda criticou publicamente decisões do treinador e da diretoria, por isso teve seu contrato rescindido.

Rincón ainda voltaria ao Corinthians em 2004, já aos 37 anos, para o ocaso de sua carreira. Aposentado, se aventurou como treinador de equipes menores (Iraty, São Bento, São José e Flamengo-SP), ainda comandou o time sub-20 do Corinthians e foi auxiliar de Vanderlei Luxemburgo no Atlético-MG. Seu último trabalho no futebol foi em 2012, quando voltou da aposentadoria aos 46 anos para ajudar o América de Cali na segunda divisão colombiana —não deu certo, e o time só subiu quatro anos depois.

Investigado e procurado pela Interpol

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Já aposentado, Rincón se aventurou como treinador e auxiliar entre 2006 e 2011, mesma época em que foi preso no Brasil após ter sua prisão decretada pela Justiça do Panamá. As acusações eram de lavagem de dinheiro e ligação com o tráfico de drogas, pois ele tinha relação próxima com o traficante Pablo Rayo Montaño, integrante do cartel de Cali e preso no ano anterior. Nascidos na mesma cidade, os dois tinham negócios em uma empresa de pesca que, segundo a Justiça panamenha, era usada para lavar dinheiro do tráfico.

Após quatro meses detido no prédio da Polícia Federal, Rincón passou a responder em liberdade e voltou a viver normalmente no Brasil. Ele ainda teve seu nome incluído na lista de procurados da Interpol em 2015, mas finalmente foi inocentado naquele mesmo ano após prestar depoimento no Panamá.

“O Brasil tratou o caso como a Colômbia deveria ter tratado: o Brasil pediu três vezes as provas ao Panamá a respeito disso; o Panamá nunca as apresentou, e o Brasil arquivou o caso. Vou vivendo tranquilo no Brasil, vivendo como qualquer cidadão pode viver.”, disse Freddy Rincón, na época dos problemas com a Justiça.

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