Reflexão

“Morrer é inevitável; viver bem é uma arte diária.” (Leandro Karnal)

5 capa Morrer e inevitavel viver bem e uma arte diaria Leandro Karnal

A cada vez que nos deparamos com momentos como esses, percebemos quão frágil e exigente pode ser a vida, lembrando-nos com urgência da necessidade de viver.



Quantas vezes percebemos que damos valor a uma coisa ou a alguém apenas quando a fragilidade ou o medo da perda nos assolam?

É como se vivêssemos sempre no automático, não reparando mais, como na infância, nos pequenos detalhes dos momentos, gravando cenas e memorizando cheiros.

No luto, também sentimos a fragilidade da vida escorrendo pelos dedos, percebemos que não temos controle sobre nada, e isso pode nos paralisar ou simplesmente nos motivar a aproveitar ainda mais todas as ocasiões. Cada perda, além da sua arrebatadora dor, pode trazer consigo diversos novos significados e motivações, como se fossem verdadeiros ensinamentos.


Na última semana, o historiador e professor Leandro Karnal, refletindo sobre a morte da cantora Marília Mendonça, fez uma interessante reflexão sobre os impactos da morte, tanto na trajetória de quem fica quanto de quem vai.

Sabendo e reconhecendo que muitos querem tirar proveito de artistas na hora de sua morte, ele aborda a questão da falta que aquelas cinco vidas vão fazer em suas famílias e em uma sucessão gigantesca de pessoas.

A ausência, segundo Karnal, provavelmente vai se prolongar nos filhos, e todas aquelas biografias foram encerradas quando estavam no apogeu. Já tendo conversado uma vez com a artista, ele se recorda de uma Marília carismática, forte e que falava sobre o cansaço da intensa rotina de shows e gravações, afirmando que quem vai ficar com a “sofrência” agora somos nós, sem ela.

Sobre o assunto, o historiador refletiu não sobre a falta que faria no mundo, mas sobre a falta que a vida faria quando partisse. É impossível saber se nossa ausência será sentida pelos que estão à nossa volta, se a nossa falta vai provocar dor em quem fica, mas podemos reconhecer que existem significados mais profundos em ver alguém ir embora. Marília Mendonça morreu jovem e, de acordo com Karnal, a morte é inevitável, mas não devemos deixar de viver bem diariamente.


Quando uma pessoa muito querida se vai, pode ser um sinal para olharmos tudo de maneira ampla, tentando achar, mesmo que pareça impossível, o significado mais profundo daquilo tudo. Ver alguém partir nos lembra da importância que é viver e que esses momentos, essas experiências, podem não ser mais sentidos na hora em que morremos, o que mostra a importância de aproveitar enquanto estamos vivos.

Desfrutar de momentos com nossa família, olhar nos olhos de nossos pais e agradecer por tudo que vivemos. Abraçar nossos filhos e falar da sua importância em nossas existências, do bem que podem fazer no futuro e do impacto que podem ter em outras vidas.

Perdoar nossos inimigos e esquecer o ressentimento, mesmo que seja difícil, mesmo que seja doloroso, porque ninguém deseja partir com assuntos malresolvidos. Talvez tenhamos muita dificuldade em falar sobre a morte justamente porque temos medo, e com isso vamos fingindo que ela não existe e tampouco precisamos falar sobre assuntos delicados. Com essa tendência escapista, vamos deixando momentos pela metade, vamos nos prendendo mais no amanhã do que no agora, sem nos conectar verdadeiramente com aqueles que estão ao nosso lado.

Pense mais no próximo e faça sua vida valer a pena quando chegar o dia da sua morte. Lembre-se que nossa ausência pode não ser sentida da maneira que imaginamos pelos outros, mas a forma como deixaremos de sentir o sopro da vida será sempre igual. Pense em tudo aquilo que pode lhe causar arrependimento no futuro e busque resolver ainda em vida, olhando no olho das pessoas e mostrando que a humanidade se resume à empatia.


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