Comportamento

Mulher cega é apontada como “incapaz” ao anunciar gravidez: “Pensavam que minha mãe cuidaria”

Completamente cega desde os 15 anos, Nathalia relata suas experiências com a maternidade e o constante esforço da sociedade em desacreditar nela como mãe.



A deficiência visual afeta cerca de 246 milhões de pessoas no mundo, sendo que 39 milhões são completamente cegas, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estima-se que 0,75% da população tenha cegueira, o que corresponde a mais de um milhão e meio de pessoas.

Mesmo que os números sejam altos, quase nada na sociedade é feito e pensado nas pessoas com deficiência visual.

A jornalista e palestrante Nathalia Santos nasceu com apenas 20% da visão, mas ao completar 15 anos já não era mais capaz de enxergar. A jovem relata, em entrevista ao UOL Universa, que grande parte da população acredita que a deficiência é sinônimo de incapacidade, insuficiência.


A jornalista explica que o mundo não é feito para pessoas diferentes, e mesmo sabendo disso desde muito cedo, foi com a gravidez que tudo se tornou ainda mais complicado. Desde o início do processo gestacional, as mulheres cegas encontram dificuldades de acesso, por exemplo, ao fazer o teste de gravidez, precisam que outra pessoa leia o resultado antes mesmo que elas.

A gravidez pegou a família de surpresa, mas foi muito bem-vinda, já que ela sempre quis ser mãe do Davi, um sonho que acabou se realizando em meio à pandemia.

Conforme os meses foram passando, Nathalia conta que em nada existia acessibilidade, desde a escolha das roupas até a decoração do quarto do bebê, todas as etapas são muito visuais e as pessoas com deficiência visual acabam tendo que se adaptar ao invés de encontrar um mercado que pense diretamente nelas.

Direitos autorais: reprodução Instagram/@nathaliasantos.


Fazer ultrassom é um dos momentos em que a maioria das mães se sente reconfortada, a possibilidade de descobrir como a criança está se desenvolvendo é uma peça essencial para a garantia de uma gravidez saudável. Com Nathalia, isso não era diferente, poder ouvir o som dos batimentos cardíacos de seu filho era um dos momentos de que mais gostava.

Mesmo sendo bem assistida, ela não conseguia ver as imagens que o exame mostrava, foi quando descobriu que existia um ultrassom impresso em 3D, acessível para deficientes visuais.

Mas a acessibilidade estava apenas na estrutura do exame, já que financeiramente ele só atende às gestantes com poder aquisitivo. O valor chega a quase R$1 mil, o que impossibilitou a Nathalia ver o filho ainda na sua barriga, como as outras mães.

Direitos autorais: reprodução Instagram/@nathaliasantos.


As incertezas que acometem a maioria das mães durante a gravidez também chegaram à jornalista. Ela ficava se perguntando como faria para dar remédio, trocar fraldas, dar banho, saber se o filho estaria doente, sem nunca conseguir olhar nos seus olhos. Agora, já com nove meses, a jovem conta que teve uma boa surpresa quando descobriu que a maternidade é capaz de ser administrada através do toque.

A única coisa que ainda não é possível fazer sozinha é ministrar remédios para Davi, já que é impossível saber a quantidade de líquido que ela coloca em uma seringa. Seu companheiro é quem administra essa parte, mas a mãe se pergunta como fariam se ambos fossem cegos.

Como o filho agora usa apenas fraldas do tamanho G, esse também não é um problema atual, mas quando ele era recém-nascido, a casa estava repleta de pacotes de todos os tamanhos, sendo impossível descobrir sozinha qual era o tamanho certo.

Nathalia conta que uma das únicas coisas que encontrou na maternidade que foi feita para as pessoas cegas foi um termômetro que avisa a temperatura por som. Ela revela que todos os dias afere a temperatura do filho, apenas para ouvir o som e desfrutar de um produto que foi pensado para pessoas cegas.


 




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Durante a gravidez, quando ia às consultas acompanhada de sua mãe, todos presumiam que ela seria a mãe em seu lugar, como se não existisse outra forma. Mesmo que o casal more com a família, Nathalia é quem cuida da criança, fazendo quase todas as coisas que as mães fazem. Para ela, a maioria das pessoas trata o deficiente como um “pobre coitado”, como se não conseguisse se cuidar e precisasse de atenção o tempo todo.

Como uma mulher cega, Nathalia explica que só existem dois lugares onde ela se encaixa: na posição de “coitada” ou de “super-heroína”, como se qualquer coisa que realiza fosse uma grande superação.

Nathalia sabe do seu valor como mãe e não gosta de se classificar em nenhuma dessas formas. Possui dificuldades como todas as mães, sendo que existem algumas que enxergam e que sentem que têm mais trabalho que ela.

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