Comportamento

Mulher comemora divórcio com buzinaço no DF. “Nem sei como consegui viver tantos anos assim”

capa site Mulher comemora divorcio com buzinaco no DF Nem sei como consegui viver tantos anos assim

Tânia fez um trajeto de oito quilômetros, entre Taguatinga e Ceilândia, no Distrito Federal, comemorando o divórcio com um buzinaço.

O contexto da pandemia no Brasil potencializou o aumento de violências e abusos contra as mulheres, principalmente por conta do isolamento social e pela precarização do trabalho feminino. Segundo dados do relatório “Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 17 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência no último ano.

Mais de 50% das pessoas entrevistadas afirmam que passaram mais tempo em casa com a disseminação do novo coronavírus, e 48% relatam que a renda familiar diminuiu no mesmo período. Em contrapartida, é possível constatar uma elevação no número de divórcios, como revela um levantamento do Colégio Notarial do Brasil, segundo o qual, entre janeiro e junho de 2021, o Brasil apresentou alta de 24% em relação ao mesmo período de 2020.

O divórcio pode se transformar no momento mais importante para as mulheres que passam anos sofrendo abusos e agressões, marcando um verdadeiro renascimento. Para Tânia Lacerda, que comemorou com estilo a separação, não foi diferente. Segundo reportagem do G1, ela fez um buzinaço entre Taguatinga e Ceilândia, no Distrito Federal, e acabou viralizando nas redes sociais.

A técnica de enfermagem aposentada percorreu cerca de oito quilômetros de carro, buzinando sem parar e com latinhas amarradas ao para-choque, comemorando o divórcio. A frase “enfim divorciada” no vidro traseiro dava o tom de seu drama por viver 36 anos em um casamento abusivo.

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Direitos autorais: reprodução/ arquivo pessoal

Agora, aos 55 anos, ela conta que ainda não consegue compreender como conseguiu passar tantos anos daquela forma. Conforme assistiu a inúmeros casos de feminicídio no Brasil, percebeu que aquele pensamento de que o parceiro um dia pode mudar caiu por terra, e buscar o amor-próprio pareceu a melhor saída para escapar dos ciclos de abusos.

Violência doméstica e os ciclos de abusos

De acordo com o Instituto Maria da Penha, o ciclo de violência pode ser identificado pelas vítimas — ou familiares — e tem três fases principais:

1.Aumento da tensão

É quando o agressor demonstra estar visivelmente irritado, como se estivesse à beira de um ataque de nervos, descontando sua frustração nos objetos da casa e até mesmo humilhando a vítima. Para as mulheres que já passaram por momentos como esses, a reação instintiva que têm é de não “provocar” o companheiro, tentando evitar qualquer comportamento que desagrade ao agressor.

Normalmente, as mulheres tentam justificar para os familiares o comportamento do agressor, explicando que ele “teve um dia ruim” ou algo específico aconteceu. Essa primeira fase pode durar apenas alguns dias ou se estender por longos anos, mas caso nada seja feito, invariavelmente levando à fase dois, já que esse comportamento e irritação tendem a aumentar, até o momento da explosão.

2.Ato de violência

Esse é o momento em que o agressor perde o controle e comete o ato violento, que pode ser de maneira verbal, física, psicológica, moral ou patrimonial. As vítimas, na maioria dos casos, compreendem que o agressor está “fora de controle”, mas não conseguem reagir instantaneamente.

A tensão psicológica, o medo, o ódio, a solidão e a vergonha se apoderam dessas mulheres de maneira severa, e muitas chegam a apresentar insônia, perda de peso, ansiedade e até mesmo desenvolver outros quadros. Esse é o momento em que elas podem escolher tomar alguma decisão: algumas buscam os familiares, vizinhos ou ajuda de amigos; outras denunciam o algoz à polícia; outras ainda se separam; e algumas podem cometer suicídio.

3.Arrependimento e comportamento carinhoso

Caso a vítima não tome nenhuma decisão pontual, esse é o momento em que o agressor tenta se reconciliar. Advogados e especialistas também chamam essa fase de “lua de mel”, e ele costuma prometer mudança, parece amável e afirma que quer “salvar o casamento”. As mulheres, principalmente aquelas que têm filhos ou são dependentes, sentem-se confusas e pressionadas a manter a relação.

Porém, esse momento calmo acaba apenas aumentando a dependência entre os dois, já que a mulher vê no remorso a obrigação de permanecer ali. Mesmo assim, essa fase pode durar apenas poucos dias ou mesmo anos, mas invariavelmente acaba, e a vítima se vê novamente na fase um, em que a tensão se eleva.

Divórcio

Tânia conta que assim que descobriu que a justiça tinha autorizado seu divórcio, sentiu-se livre e alegre. Com vontade de sair comemorando e gritando aos quatro ventos, ela finalmente teria a chance de não passar por mais nenhum abuso. Depois de percorrer um longo caminho de sofrimento até aquele momento, as violências têm a chance de ficar apenas no passado.

A primeira vez que passou por uma agressão, Tânia conta que foi há 20 anos, na casa da própria mãe, e que o ex-marido, com um facão, cortou a porta por completo. Com medo do que lhe poderia acontecer, ela foi embora na ocasião, mas como era dependente financeira do marido, em uma época em que isso era mais comum, acabou voltando.

Os 36 anos ao lado do agressor a fizeram perder a saúde e perceber que apenas ela estava comprometida com a relação. Felizmente, teve coragem de colocar um ponto-final nessa história, e agora pode seguir sem medo de sofrer qualquer tipo de abuso.Assista ao vídeo do buzinaço de Tânia:


Se você presenciar um episódio de violência contra a mulher ou for vítima de um deles, denuncie o quanto antes pelo número 180, que está disponível todos os dias, em qualquer horário, seja por ligação ou dos aplicativos WhatsApp e Telegram.

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