Na dor não cabe a gente culpar ninguém…

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Estou aqui na paz, sério. Tá vendo aquela bandeira branca ali, ó? Fui eu quem hasteou.



Estou desarmada: sem raiva, sem a síndrome coitada-de-mim, sem vontade de te matar.

No coração, só há espaço para gratidão, juro. Eu tô aqui pra pedir desculpas pelas farpas que lancei no seu peito por meio de um tom de voz raivoso, também quero dizer que foi burrice, impulsividade ou até mesmo infantilidade te mandar à merda por conta de um vacilo, unzinho.

Na dor não cabe a  gente culpar ninguém…

Você não é aquele porcaria que eu pintei pra cada um que perguntou o que tinha acontecido com a gente, na verdade, você é o oposto de tudo que a minha raiva gritou na tentativa de destruir sua reputação de bom moço. Quando o sentimento ruim feneceu, recuperei a sanidade e conclui que um mísero erro é incapaz de ofuscar todas as vezes que você acertou em cheio e me fez a mulher mais feliz do mundo.


Um erro não tira das suas mãos o título de melhor cafuné que esse meu cocuruto já conheceu – tão eficaz que me fazia dormir em menos de dez segundos. Não apaga os abraços acalentadores que me deu quando desaguei no teu ombro em dias que o peso do mundo machucou as minhas costas.

Não me faz colocar para fora todos os cafés que você preparou com tanto amor enquanto eu enrolava na cama. Não rasga o afeto que você transcreveu em guardanapos saqueados dos botecos que costumávamos nos embriagar e que até hoje marcam páginas de livros que eu deixo para ler depois. Não veta a adrenalina que senti quando cruzamos a cidade numa moto tão velha quanto o homem do baú enquanto buzinas enlouquecidas nos intimidava. Não tira o mérito dos seus cuidados. Não me faz esquecer das inúmeras vezes que você levantou pra acender o abajur quando eu reclamava – choramingando – que não conseguia dormir no escuro. Não apaga as noites que me cobria com edredom, nem as manhãs que me acordava com um beijo seguido de um abraço apertado. Não elimina as calorias que ingerimos em domingos regado a sorvete, salgadinho e Netflix.

Mas quando a dor foi embora, me dei conta que o acontecido era uma gota amarga diante de um oceano de felicidade vivida.

O seu vacilo machucou mais que bater o dedinho na quina de um móvel, eu chorei, chorei mais um pouco, chorei de novo, mas quando a dor foi embora, me dei conta que o acontecido era uma gota amarga diante de um oceano de felicidade vivida. Esse pingo não foi suficiente pra me fazer te odiar, mas foi o chacoalhão que precisávamos para entender e aceitar que não éramos mais aquele casal fofo que matava de inveja os descrentes no amor. A rotina nos engoliu e a ideia de ser par, causava desconforto.


O nosso plural voltou a ser singular – eu aqui e você aí –, mas isso não me impede de continuar te amando e torcendo para que você se encontre. Do lado de cá, vibrarei com cada nova conquista corporativa sua, mesmo achando que existe mais arte na sua essência do que relatório e planilhas de Excel. Ficarei feliz em saber que você bateu a suas metas de vida – elas sempre foram tão diferentes das minhas. Enquanto você sonhava em ganhar o mundo, eu só pensava numa casinha no interior onde eu pudesse criar meus filhos longe dos agrotóxicos e da arrogância da cidade grande.

Hoje eu sei que as nossas vidas, tão divergentes, um dia se cruzaram com o intuito principal de nos fazer entender que amor genuíno é aquele que se mantém intacto mesmo depois do fim de um relacionamento. Amor é continuar admirando o outro, mesmo que ele não esteja mais do lado esquerdo da cama. Amor é a gratidão. Obrigada por tudo.

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