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“Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”

Já tive o pensamento de que voltar no tempo e recomeçar de outra maneira, editando algumas fases e reconstruindo uma história que poderia ser contada de uma forma diferente, que me traria mais felicidade.


Assisti ao longa: “Questão de tempo” uma tarde dessas e me deparei com esse tema numa história romântica, doce, vezes divertida e de muita reflexão. O jovem Tim (Domhnall Gleeson), é surpreendido com a inusitada notícia de seu pai (Bill Nighy), de que pertence a uma linhagem de viajantes no tempo. Com isso, Tim inicia uma jornada de edições de momentos nem tanto satisfatórios por outros que ele considerava como melhores.

Talvez, muitas pessoas gostariam de alterar algumas cenas de suas vidas, quando já conhecem o desfecho. Como seria interessante dar um beijo no momento exato, ter a melhor resposta num instante oportuno, causar uma boa impressão quando, de antemão,já se sabe o que encanta alguém.

Quem dera podermos apagar nossas barbeiragens, nossos desencontros, nossas pequenas ou grandes decepções.

No filme Tim se casa com Mary (Rachel MacAdams), e emociona por revelar um amor simples, gentil e real. Porém, com algumas polêmicas contradições e tantas peripécias, enfiando-se num armário escuro, voltando a momentos específicos para recontá-los e revivê-los com a chance de serem mais alegres, ou menos dolorosos, quem sabe.


Entre as muitas viagens que fez, incluindo algumas manobras para garantir o sorriso de amigos, familiares; sem se perder dos seus próprios desejos, Tim começa a pensar que essa capacidade de voltar no tempo talvez não fosse tão vantajosa. Pois percebe que algumas experiências não voltariam, alguns passos errados ou tortos, precisavam ser dados para que a história ainda carregasse o brilho, o encanto de existir para justificar a vida, seus ciclos, suas etapas, seus encontros seus ensinamentos.

A volta no tempo a fim de reparar o que foi sentido, aparar arestas sobressalentes ou destrinchar alguns nós, pode fazer com que algumas e únicas proezas também sejam perdidas, impedidas, não vividas. O livro que conta nossa história talvez perca a beleza se causarmos rasuras, se em busca de um conto perfeito, não ousarmos entrar de cabeça em todos os capítulos, tanto os longos e trabalhosos como os leves e vitoriosos.

Não somos capazes de chegar num futuro esperado, quando nos mantemos presos a um passado que só se vive uma única vez.

O filme me fez lembrar aquele tão repetido e cantado trecho da música de Lulu Santos: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará…” quando Tim, exausto de tantas viagens no tempo, questiona suas atitudes e percebe que o agora é com certeza o momento mais valioso. O presente deve ser sentido, vivido e aproveitado como se não houvesse mais tempo, como se fosse o último, como se carregasse aquela oportunidade, a grande chave de tudo.


Entender que “a vida vem em ondas como o mar” é perceber que somos fragmentos num Universo infinito e que se movimenta continuamente. Estamos a viajar no tempo todos os instantes. Por isso, tão especiais são os abraços de nossos pais enquanto os temos, tão breves os choros de nossos filhos que crescem, tão delicadas e necessárias nossas falhas para nosso reconhecimento como seres humanos.

Todos os momentos carregam a imensidão do mundo e uma  porção imprescindível de cada um de nós. E essa inseparatividade precisa de certo frescor para ser experimentada já que “tudo muda o tempo todo no mundo”.

E por mais que tentemos alternar pequenas gotas no oceano, seremos sempre um dentre tantos – passageiros e sutis. “Aqui dentro sempre como uma onda no mar.” 


 

Direitos autorais da imagem de capa: filme “Questão de tempo”.





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