Comportamento

“Não aceito”, por Fabrício Carpinejar

A partida do ator e humorista, Paulo Gustavo, desperto em milhares de brasileiros um sentimento de vazio e perda coletivos, o escritor Fabrício Carpinejar abordou um pouco do tema em sua rede social.



A perda de uma pessoa de extrema relevância, que há anos fazia parte do cotidiano dos brasileiros, acabou deixando um grande espaço em branco, uma ausência que demonstra o tamanho da fragilidade humana diante de tanto descaso e dificuldades.

O humorista Paulo Gustavo não era apenas um ator que fazia “graça” como fonte de renda, ele era capaz de envolver gerações, mexer com o imaginário popular e colocar em discussão temas sensíveis, como a sexualidade.

O escritor Fabrício Carpinejar, em seu perfil pessoal do Facebook, se manifestou, assim como muitos outros artistas e desconhecidos, compartilhando um pouco do que sente diante de tamanha perda. O Brasil perde não apenas um artista, mas também uma parte importante de sua cultura, que era capaz de fazer com que avós e netos rissem juntos, compartilhando bons momentos e nostalgias.


Confira o texto de Fabrício Carpinejar:

Não sei o que dizer

A perda do artista Paulo Gustavo não somente rouba as nossas lágrimas, mas estraga o nosso riso daqui para frente. Ninguém vai gargalhar como antes. Haverá uma ponta de melancolia, de amargura, um luto indelével cobrindo os lábios.

Não haverá Paulo para nos mostrar como dar a volta por cima. Não haverá Paulo para encontrar o nosso humor no mais fundo desespero.


É mais do que um gosto de velório: é o fracasso retumbante de um país. Uma lacuna insubstituível. Um ator como ele demora séculos para nascer: mobilizador, irreverente, inventivo.

Vou me recordar para sempre desse dia 4 de maio de 2021, como ainda me recordo até hoje do 1º de maio de 1994 da tragédia de Ayrton Senna. É o mesmo maio, a mesma perplexidade, o mesmo vazio absurdo.

Paulo Gustavo tinha lâmpadas de 220v nos olhos, de corpo elástico e camaleônico. Armava a tenda de um circo com um simples chapéu na cabeça. Sua voz dançava, psicografando a nossa alma.

Um chapéu preto jamais poderá ser visto sem a fisionomia de Paulo. É o único forro possível, o único complemento.


Fracassamos diante da covid. Erramos. Seremos condenados pela história. Foram 409 mil vítimas, dentre elas uma de nossas mentes mais brilhantes no esplendor dos 42 anos.

Paulo parte na véspera do Dia das Mães.

Logo ele que valorizou a figura materna pela personagem Dona Hermínia, que nos ensinou a perdoar os excessos do cuidado e a amar as reclamações e as implicâncias das matriarcas de todas as famílias.

Não sei o que dizer, como me convencer de que a notícia é real, de que não é um boato ou meu próprio medo gritando alto.


Ainda tinha a fé que ele pudesse resistir e ressurgir depois de 50 dias internado. Mas ele era humano, ele era como nós. Ele nos fazia acreditar em nós. Sua força vinha em revelar as nossas fraquezas e nos deixar à vontade para tentar de novo, sem moralismo, sem censura, com a humildade otimista dos defeitos.

Eu assisti “Minha mãe é uma peça”

e me lembro da ansiedade alegre esperando a continuação. Eu assisti “Minha mãe é uma peça 2” e me lembro também do meu alvoroço esperando a continuação. Eu assisti “Minha mãe é uma peça 3” e já estava faminto pela continuação.

Ele nos continuava, nos completava, nos inspirava a seguir adiante. E agora? A morte de Paulo Gustavo será fake para mim. Eternamente fake. Não aceito.


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