Reflexão

“Não dá para apressar a readaptação de existir a partir de uma ausência” — Carpinejar

capa site Nao da para apressar a readaptacao de existir a partir de uma ausencia – Carpinejar

O escritor fala abertamente sobre o processo do luto e sobre as subjetividades humanas, pedindo que não se apresse o sentir de quem perdeu alguém que tanto amava.

Como explicar a morte e o sentimento avassalador que causa em quem vê partir um ente querido? Como mensurar o tamanho e a intensidade da dor, e como saber qual o tempo que o luto dura? Na verdade, não existem métricas e dados palpáveis acerca dos sentimentos, cada experiência é única, e cada pessoa vai vivenciar aquilo de uma maneira diferente.

O poeta e escritor Fabrício Carpinejar, de 49 anos, escreveu este ano o texto publicado no Zero Hora, “No luto, a gente enfrenta uma hora de cada vez”, em que aborda questões sobre a urgência em experienciar o luto, e a necessidade que as pessoas encontram para que ele “passe” o quanto antes.

O autor explica que quando se perde alguém, a sensação de temporalidade se perde, ou seja, os indivíduos que ficam não conseguem mensurar se foi ontem ou em outro dia, porque a sensação da perda acontece no agora.

Carpinejar ainda explica que não existem meios de apressar a recuperação do enlutado nem como julgar aqueles que experienciam o momento com mais demora: “É a readaptação de existir a partir de uma ausência”. As pessoas que “carregam um morto” dentro de si mesmas, para o poeta, são obrigadas a renascer, isso porque todas as relações sociais mudam, a rotina muda, tudo a partir daquela perda ganha outra dimensão.

Ele defende que a partida exige um amadurecimento que envolve humildade e resiliência, todas as experiências anteriores que existiram com quem partiu, passam a ficar apenas na memória. O tempo que era empenhado com aquela pessoa sobra, e não importa quanto tempo passe ou quantas coisas invente de colocar na agenda, não existem formas de substituir quem se foi.

Para Carpinejar, é preciso percorrer uma longa estrada de recuperação em busca de novas experiências de mundo, de novos lugares, isso porque aquele tempo tão cuidadosamente preenchido ficou vago. Existem pessoas que sentem de maneira tão impactante a perda, que preferem, nos primeiros meses, não ter nenhuma experiência, nenhuma descoberta e nenhuma lembrança feliz, como que para não afetar aquelas memórias com a pessoa que partiu.

Falar que é preciso viver um dia de cada vez no luto, para o escritor, é ingenuidade demais, já que é preciso viver uma hora de cada vez. Sem falar que cada pessoa vai experienciar o luto de maneira diferente, sendo diferente também o “ritmo de prantear”, como o autor narra. Alguns podem chorar gritando, outros calados; alguns querem falar sobre a pessoa que partiu, outros não querem falar nada a respeito dela; alguns mantêm a vida social, outros buscam o isolamento completo. De qualquer forma, é impossível mensurar quem sofre mais ou quem sofre menos, porque essa escala não existe.

Comparando com casos clínicos, ele diz: enquanto para determinados acidentes ou doenças é exigido um tempo mínimo de descanso, quando perdemos alguém é impossível mensurar o tempo que vai levar para o luto não ser mais uma grande e incontrolável tristeza. Carpinejar, de maneira muito delicada, faz uma simples comparação: “Ao se quebrar um braço, são exigidas seis semanas de gesso para recolocá-lo na posição original. E quando se quebra a alma?”

Em um texto que parece dançar com as palavras, Carpinejar toca em um assunto que ainda é caro a muitas pessoas. A morte é sempre um tabu, e mais ainda, para alguns, é possível mensurar a dor da perda, o tempo necessário para sentir as ausências e quando vira obrigatório voltar à “vida normal”.

O autor ainda é explícito ao afirmar que não se pode regular a dor do outro a partir do nosso relógio, porque a dor é capaz de levar a pessoa enlutada para “outro fuso horário, para outro continente, para outra cultura da sensibilidade”.

Para finalizar, ele pede aos que ainda não sabem o que é perder alguém que não condenem “a duração de nenhuma saudade”.

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