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Não é preciso estar sujo para tomar banho!

No amor, nas amizades, na vida… Aquela nossa mania de sujar tudo para depois limpar e aquele meio do caminho chamado viver.



Dizem que para se fazer uma boa faxina é preciso antes fazer uma boa bagunça. Isso é levado tão a sério que podemos passar a vida toda agindo conforme essa lógica.

Acho que quase todo mundo já inventou uma briga com a pessoa amada pensando na reconciliação. Ainda que não tenha assumido completamente, no fundo, lá no fundo, isso faz algum sentido. É muito difícil descobrir sozinho qual lado nosso que está falando a verdade, parece que internamente temos pessoas que pensam totalmente diferente. Isso varia em cada um, mas a incongruência faz parte da condição humana. Um lado às vezes descobre um motivo que parece urgente e inadiável para ser discutido.

Enquanto, timidamente, uma intuição nos diz que só estamos criando isso para ouvir “tal coisa”, ou para chegar “àquele lugar”, pensando no depois. É como uma droga, um vício, que nos leva por um caminho tortuoso para chegarmos ao objetivo final, que é saciar aquela vontade.


Na minha infância, muitas mulheres trabalharam lá em casa. Meus pais ficavam fora o dia todo e, com isso, costumava ficar sozinha com elas boa parte do dia e adorava observar a dinâmica de arrumação e da rotina de cada uma. A maioria não fugia à regra, fazia AQUELA bagunça e depois arrumava tudo. Tirava tudo do lugar e depois organizava. O jeito tradicional com o qual já estava acostumada. No entanto, duas delas me chamaram a atenção. A primeira fazia tanta bagunça, mas tanta, que se perdia e não conseguia mais se achar.

Minha família sempre foi muito bagunceira e, mesmo assim, percebia sua dificuldade em fazer o caminho de volta. A segunda, porém, marcou de forma completamente oposta. Organizava e limpava a casa de um jeito que me impressionava. Não se via, simplesmente, o processo de transformação, apenas o resultado final. Não havia o caminho do meio, ela alcançava a limpeza através da limpeza. No início, desconfiei que havia poeira embaixo do tapete, que não era possível estar tudo tão clean. Acontece que eu estava enganada, não havia nada, a aparência era também a essência.

Existe uma frase famosa de Gandhi que demorei muito a entender, diz assim: “Não existe caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho.” A Andreia, que nem deve lembrar de mim, me ajudou a entender. Aquela mulher que, a princípio, foi uma referência de como se trabalha, se tornou, na verdade, uma referência de como se vive. Sua serenidade e transparência me ensinaram.

banho2Passei a entender que se buscamos o caos para se chegar à paz, ficamos a maior parte do tempo vivendo esse caos. Às vezes nos apegamos a ele e acreditamos que tenha que ser assim. Esperamos por momentos curtos de felicidade. Vivemos em função de feriados e reclamamos o resto da semana. Mas se buscarmos a felicidade através da felicidade, poderemos escolher pelo menos a forma que vamos encarar a vida.


Assim, é mais inteligente buscar entender o que está me levando a querer discutir e perceber se de fato é necessário, porque talvez eu só queira ouvir um “eu te amo”, ou “me perdoe”. Se eu preciso de um banho, não é necessário que eu me suje todo para reconhecer isso. De repente me sujo tanto que fico cansado e desisto de tomar banho. O tiro muitas vezes vai sair pela culatra se assim continuo a agir. Posso ofender tanto o meu parceiro que ele vai perder toda a vontade de estar comigo. Posso passar tanto tempo bagunçando que posso ficar presa e terminar a vida sem saber o que é estar em um ambiente harmonioso.

O “para que” é importante para o autoconhecimento, mas para a vida o mais importante é o viver. Renato Russo já nos disse que se pararmos para pensar, vamos perceber que não há o amanhã. E não há mesmo quem possa afirmar que amanhã irá acordar.

Isso não significa que não exista importância na sujeira e no caos. A natureza mesmo ensina, da lama nasce a flor de lótus. O problema é quando isso vira regra. Quando esqueço o que é música porque é dia de trabalho, quando nem sei que existe poesia porque a vida anda muito dura, quando a culpa escolhe que eu não durma porque tenho dívidas, quando não olho a paisagem porque já conheço o caminho.

O problema é quando passo a vida entre os espinhos e esqueço que existe flor.


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