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Não é preciso ir tão longe para ser feliz…

Não é preciso ir tão longe para ser feliz…

Não sei se toda menina da minha época sonhava alto, e longe… Conheci muitas que depositavam novelos de sonhos, nos cestinhos de costuras, enquanto preparavam o enxoval para se casar. O suposto noivo ainda não havia surgido. Mesmo assim, continuavam bordando até gastar o dedal; até transbordar os baús, de panos e rendas; até se verem obrigadas a venderem os mais antigos, que já começavam a amarelar.



Eu achava tudo aquilo estranho, e impedi, ferozmente, que minha mãe começasse meu enxoval. Era desperdício de dinheiro, e não o tínhamos para gastar com coisas supérfluas. Casar, para mim, era tão supérfluo, que nem mesmo constava no último item de minha lista de desejos.

Esse não era meu sonho, mas era o delas… Sempre respeitei o sonho de qualquer um, mesmo que fosse esquisito. Muito cedo, aprendi que o sonho pode nascer entre carretéis de linhas, numa tela, nas folhas de um diário secreto e pessoal, ou lendo.

Com antecedência, e confiança inabalável, as meninas insistiam nos preparos, e muitas deveriam querer jogar uma moeda na fonte dos desejos, para dar um empurrãozinho no destino, que parecia ter empacado. E, como todo sonho é feito de ansiedade e espera, elas deviam perder o sono, imaginando quem seria o Romeu que romperia em suas vidas, a qualquer momento, e as levaria para o altar.


Eu também sonhava até perder o sono: com o além-mar e suas histórias intrigantes. Tive uma espécie de febre na alma, querendo tocar o que eu apenas via nos livros e nos filmes. Pretendia conhecer o mundo, e fiz grandiosos planos entre os anos 65 e 70. Tocaria as areias do deserto, subiria o monte Sinai, o monte das Oliveiras, e sentaria na pedra do poço, onde Jesus falara com a samaritana.

Alguns personagens, e não a paisagem, me atraíam para os lugares em que viveram. Ansiava passear pelas terras dos grandes reis. Conhecer os camelos, as pirâmides do Egito, os castelos, e os restos arqueológicos dos Incas. E qualquer outro resto que estivesse registrado nos livros de histórias.

E eu estaria lá ainda que fossem apenas ruínas. Depois de tantos séculos passados, sabia que nada era como foi, nada permanecera como era. O  poço já deveria ter desmoronado, ou sido soterrado pela areia. As montanhas e montes sofreram as intempéries, pois tudo nesse mundo é corrosivo, menos o ouro. Que fosse um punhado de pedras, ainda assim eu as tocaria.


Estava apaixonada pelo mundo. Poderia casar-me com ele, sem que fosse preciso lavar roupas, faxinar a casa, cuidar dos bacuris chorões, envelhecer entre quatro paredes, com netos batendo portas… BLAM!!…  Não via nenhuma alegria nisso, e nenhuma ventura; por isso, antes de completar treze anos, descartei tais planos, e foquei no mapa do mundo.

Tudo se encaixou, quando conheci as músicas dos Beatles, e dos Rolling Stones. Os meninos britânicos que sacudiram uma era, com movimentos pacifistas, ideais de liberdade e autenticidade, bateram de frente comigo. Identifiquei-me! Sem pensar duas vezes, entreguei meu coração, e com paixão apoiei e defendi os anos rebeldes — designação genérica da contracultura dos anos 60.

As duas bandas trouxeram-me uma empolgada e romântica certeza de que eu viveria lá, dentro de um sobretudo de lã pesada, sobre as botas de canos altos camurçadas. Toparia com os meninos cabeludos, e falaria num inglês perfeito, e sem o sotaque denunciador: Good morning boys! Hello, Rolling Stones!

Concentrei-me de alma e língua, nas aulas de inglês. Tirei notas boas, e elogios do professor. Decorei as músicas internacionais de sucesso, com os ouvidos pregados no rádio de pilha, para entender e ensaiar o engrolado complicado do inglês. Já me sentia americanizada. Afinal, era lá, nos Estados Unidos que as bandas explodiam. Era por lá que os famosos passeavam, fazendo comprinhas em lojas de grifes, e parando para dar autógrafos. Faltava pouco para que eu caminhasse pela Time Square, Bleeker Street, etc. Mas residiria em Liverpool, cidade dos Beatles. Disso não abriria mão. Eles habitavam em um país onde governava uma rainha, e isso parecia ser um dos contos de fadas que eu ouvira quando criança.

Planos que, no meu parecer, eram perfeitos, mas que perderam o brilho, com a dissolução da banda. Entrou uma Eva japonesa pelo meio, foi fazendo a cabeça de John, oferecendo-lhe atraentes maçãs,  e a coisa foi pipocando até acabar.

Quanta raiva eu senti da Yoko!

Quanta raiva eu senti, quando uma menina disse que eu tinha alguns traços físicos dela!

Aproveitei a raiva e ataquei, mentalmente, todas as mulheres que destruíram sonhos perfeitos, com a arte da sedução.

Eva fez a cabeça de Adão, e acabaram despejados do Paraíso. Por causa de uma fruta, foram catar coquinhos na terra.

Dalila não fez só a cabeça de Sansão… fez o cabelo completo e, depois, foi morrer, sob os escombros, com ele.

E Cleópatra? Se a cobra de Eva ofereceu-lhe uma fruta, Cleozinha ofereceu sua mão à cobra, achando que a morte era redenção para seus erros.

Ex-heróis, destruídos por suas frágeis mãos e doces palavras. De fato, uma mulher leva um homem aos céus, ou aos infernos. À glória, ou à bancarrota. Sim, ela pode, se acaso encontrar nele a cegueira e a fraqueza da paixão, e nela existir uma alma maléfica, maquinadora e manipuladora. E pronto! Está feita a desgraça do homem. Em nome de alguma ambição, ou de alguma razão desconhecida, ela mascara-se de Amor, e o seduz.

Canalizei toda minha revolta em Yoko, pois ela acabara com meus planos. De repente, eu não via, nos anos rebeldes, qualquer liberdade. Era apenas uma fachada. Ao ver a foto de Yoko e John, sem roupa, meu sonho virou pedacinhos de isopor ao vento. De sonho dourado… passou a latão enferrujado. Admirava a vanguarda, pois eu, também, era uma inconformista da época e queria inovações. Mas bastou ver aquela foto para perceber que eu era  tradicionalista até a medula, e sem chance de mudar.

Esse foi o início de meu amadurecimento.

Foi quando a cortina da ingenuidade caiu, e a percepção se tornou mais nítida. A partir daí, aprendi a separar o ídolo da arte. Posso gostar do trabalho de uma pessoa, sem a obrigatoriedade de apoiar suas ideologias. Um tempo depois da decepção, voltei a ser fã de carteirinha das músicas do Beatles. Eles eram bons, bons demais, e eu não iria tirar esse mérito deles.

Também aprendi, que posso viajar sem arredar um dedo do pé. Há viagens e passeios, pelas   páginas dos livros, e, atualmente, pela internet. Descobri um programa virtual, que me permite passear pelas ruas de um determinado lugar, qualquer lugar, na hora que eu quiser, sem sair do conforto de minha cadeira.

Machado de Assis só atravessou uma única vez a Baía de Guanabara, e sabia tudo sobre o Brasil.

Nem preciso atravessar baía alguma… pois, da segurança de minha cadeira, em poucos segundos, posso conhecer todos os montes, montanhas, e os Alpes suíços. Ou apenas dou umas voltas,  pelas ruas da cidadezinha de minha infância, ouvindo os  Beatles cantar “Help”.

Ah, tempo louco, mágico, e inesquecível! Só quem esteve lá, sabe do que estou falando.

Good Day Sunshine!

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Direitos autorais da imagem de capa: niserin / 123RF Imagens

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* Matéria atualizada em 22/04/2017 às 5:03






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