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Não é qualquer pancada que me derruba, porque aprendi a cair, a levantar e a tentar quantas vezes forem necessárias

Sobre a importância de fracassar. E se arrepender também.

Há uma passagem no livro “Mais forte do que nunca”, da Brené Brown, que diz assim: “Você pode fazer tudo certo, estar animado e ir adiante, contar com todo o apoio que consiga encontrar e estar cem por cento pronto para aquilo e, mesmo assim, fracassar. Mas, se você olhar para trás e ver que não hesitou, que se entregou por inteiro, vai se sentir muito diferente do que se sentiria se não tivesse investido plenamente. Talvez você tenha que lidar com o fracasso, mas não terá que lutar com o mesmo nível de vergonha que vivenciamos quando nossos esforços foram pela metade”.


É isso.

Ao me deparar com todas as minhas tentativas um tanto otimistas e corajosas na vida, idas e vindas, às vezes tão fracassadas em seus propósitos, distantes demais daquilo que eu realmente imaginava, gostaria ou havia idealizado para mim, percebo o quanto o Universo é realmente sábio naquilo que faz, mesmo que a gente não consiga entender, na hora em que o fracasso se apresenta tão dolorosamente diante de nós, a grande lição escondida naquele algo que aparentemente não deu mesmo certo.

Para crescermos e evoluirmos na vida, é imperativo que fracassemos de vez em quando, sim, porque quando algo não acontece da maneira que a gente idealizava, além de avaliarmos a importância real do que a gente queria e o nível do nosso esforço para alcançar tudo isso, também podemos analisar até que ponto vivemos de acordo com os nossos valores.


E é nesse momento que a gente começa a crescer. Mesmo que seja na dor.

Será que fomos realmente fiéis aos nossos sentimentos e àquilo em que acreditávamos? Ou nos ferimos e passamos por cima do que considerávamos aceitável, em nome de conseguirmos o que tanto queríamos? Até que ponto valeu a pena? Continua valendo a pena?

Fracassar é inerente ao tentar, ao fazer alguma coisa, ao não se limitar ao aparente conforto e segurança de um lugar comum que, a bem da verdade, nunca vai nos desafiar em nada na vida. Ao entrarmos na arena e darmos a nossa cara a tapa no mundo, é claro que estaremos suscetíveis a todos os murros e pontapés do caminho, mas também aos abraços, aos laços e aos vínculos que só quem verdadeiramente se vulnerabiliza e se permite viver intensamente pode experimentar. Porque viver intensamente não se trata de ganhar ou perder, entende? Mas do quanto aquela experiência será capaz de nos modificar de alguma maneira, de nos tornar mais fortes, mais corajosos e mais resilientes para lidarmos com as várias situações adversas que surgirão ao longo do caminho. E com a nossa verdade.

Sim. Com a nossa verdade.


Se tem uma coisa preciosa que o fracasso nos ensina, além da clara lição de que nós somos muito mais fortes e mais capazes do que imaginamos – por mais dura que tenha sido a porrada, se não o matou, então o fortaleceu – é a reconhecer as nossas imperfeições e fraquezas, vulnerabilizando-nos o suficiente para que a gente possa reconhecer o quanto precisa do outro na caminhada. E o quanto o arrependimento também faz parte do processo.

É como se, ao fracassar, algumas fichas preciosas começassem a cair sobre as nossas cabeças, do tipo: “Até aqui eu consigo. A partir desse ponto, preciso de ajuda”. Ou: “Pode não ter saído da maneira que eu esperava, mas o que aconteceu não vai me definir. Ou ditar a minha vida a partir de agora”. “Tenho alguns arrependimentos na vida, sim, o que significa que, de alguma forma, já não sou mais a pessoa que eu fui um dia. Se eu me arrependo do que fiz e percebo que faria diferente se tivesse uma nova oportunidade, é porque aprendi com aquela experiência”.

Fracasso não é sentença

Gosto muito de uma frase que diz mais ou menos assim: Você não é o que te acontece. Você é o como você reage àquilo que te acontece.

Quando avalio meus fracassos na vida, percebo o quanto, apesar de dolorosos e muitas vezes revoltantes na hora, todos eles fizeram de mim uma pessoa mais corajosa, mais forte, mais entregue e mais resiliente também.

Não é qualquer pancada que me derruba, não, porque aprendi a cair, a levantar e a tentar quantas vezes forem necessárias enquanto o esforço ainda valer a pena para mim.

É isso. Coleciono alguns arrependimentos na vida simplesmente porque já não sou mais a pessoa que eu era antes. Talvez eu pudesse ter sido mais atenciosa, mais amorosa, mais prestativa, mais corajosa, mais audaciosa, presente e esperta em várias situações que se apresentaram diante de mim um dia. Mas, apesar de hoje me arrepender do que poderia ter feito e não fiz, entendo que agi da melhor maneira que eu podia naquele momento, justamente porque ninguém impute a si mesmo dores e sofrimentos desnecessários.

As pessoas agem de acordo com seu estado evolutivo, com os conhecimentos que têm, com aquilo que julgam ser a coisa mais acertada a ser feita naquele momento.

Ninguém diz conscientemente: “Vou fazer desse jeito porque eu quero que seja um fracasso”. Ou: “Vou agir dessa maneira, que eu sei que é muito errada, porque eu quero me arrepender e sofrer muito depois”.

Entende o que quero dizer?

As pessoas, todas elas, fazem o que entendem ser o melhor. E mesmo que esse “melhor” se traduza em arrependimento um dia, fica a lição de tudo o que pôde ser aprendido com aquela experiência.

Como diz Brené Brown, em um outro trecho do livro:

“Viver sem arrependimentos é crer que você não tem nada a aprender, nada a corrigir e nenhuma oportunidade de ser mais corajoso na vida… Às vezes, o aprendizado mais desconfortável é o mais poderoso”.

Porque sim. Os arrependimentos por não ter corrido riscos no passado foram os nutrientes que eu precisava para me tornar uma pessoa infinitamente mais corajosa. Os arrependimentos por ter perdido momentos importantes da vida das pessoas que eu amo foram fundamentais para que eu me tornasse uma pessoa mais atenciosa e presente. Os arrependimentos por não ter demonstrado amor quando amor era o que eu mais sentia, por não ter simplesmente estado de corpo e alma onde eu realmente queria estar, por ter me preocupado demais com um futuro que eu nem sabia exatamente como seria foram essenciais para que eu aprendesse a viver o agora com muito mais intensidade e presença.

Consegue perceber?

A gente precisa fracassar. A gente precisa se arrepender. A gente precisa dar a cara a tapa, cair, se arrebentar, achar que não vai mais conseguir.

Porque é quando nos permitirmos ser vulneráveis e humanos que a mágica acontece. E a gente consegue vencer. E dar a volta por cima.


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