”Não me roube a solidão se não vai me ofertar verdadeira companhia”

Isso tem me ocorrido centenas de vezes. Lembro sempre de Nietzsche que dizia: Não me roube a solidão se não vai me ofertar verdadeira companhia.

O silêncio é, para nós, a possibilidade de mergulhar em si mesmo. Pode ser também um momento de contemplação. Talvez você esteja mudo, caminhando e sentindo os raios de sol, observando o céu, observando as flores, vendo passar os cães de rua, ouvindo o buzinar dos carros, observando um jovem que passa de skate, as mil faces da vida.

Mas é quando o silêncio é uma forma de mergulhar em si que o silêncio é mais apropriadamente silêncio. Você pode abrir a porta para o exterior e contemplar as coisas que se passam fora. E você pode abrir a porta que te leva para dentro e é aí que o silêncio se apresenta em toda a sua grandeza.

Os pensamentos surgem tal como um barco em alto mar e você entra neles. Para onde te levarão? Pode se encontrar brincando na rua, correndo atrás de uma pipa que cai lentamente do céu, sentado numa mesa fazendo um desenho, escrevendo um texto, discutindo com alguém, vendo TV. Pode se encontrar caminhando ao lado daquela jovem encantadora com quem você sonhava quando era adolescente.

Era um dia qualquer na 25 de março, os dois trabalhavam lá. Ela tinha um olhar profundo e um caminhar tímido, os cabelos mais lindos de toda a grande SP. Você vinha da linha 7 e ela do parque D. Pedro. O sorriso era daquele tipo de quem vai trazer para sempre uma menina dentro de si, de quem vai envelhecer linda, de quem só verá no tempo uma exaltação da própria beleza.

Ela era forte e destemida, trabalhadora e corajosa. Aquele tipo de garota com quem você gostaria de dividir para sempre o seu cachorro-quente.

Ela era grande e tinha um charme no jeito meio atrapalhado de ser. Um milhão de coisas e um milhão de coisas encantadoras. Do lado de fora, quem te vê quieto não sabe exatamente onde você está. Você está em pensamento com a jovem linda da 25 de Março, mas poderia estar com o filho, com um ente falecido, num momento bonito do passado, ou imaginando um próximo domingo de sol.

O silêncio te traz um barco em forma de pensamento e você entra nele. Do lado de fora, as pessoas te convidam para atenção, mas do que é que falam elas?

Muitas vezes você conhece a pessoa há anos, mas ela nunca conversou de verdade contigo. Tagarelar não é conversar. Uma conversa só se estabelece quando abrimos a janela de nossa alma e nos conectamos com o outro. Fora isso, como dizia Balzac, a alegria só pode brotar dentre as pessoas que se sentem iguais.

Você está quieto, mergulhado nos pensamentos, flanando por São Paulo num momento encantador da tua vida. Do lado de fora, as pessoas querem tagarelar e você lembra Nietzsche:

Não me roube a solidão se não vai me ofertar verdadeira companhia.


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