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“Precisamos tomar cuidado para não achar que o governo da Ucrânia é santo”, disse professora

Capa Precisamos tomar cuidado para nao achar que o governo da Ucrania e santo disse professora

Uma professora de Relações Internacionais da PUC de Minas Gerais deu suas considerações sobre os conflitos que estão ocorrendo no leste europeu.
O conflito entre Rússia e Ucrânia certamente será lembrado como um dos pontos que marcou o ano de 2022, principalmente por ter tido seu início no princípio deste ano.

Até o momento, o conflito tem se mantido apenas no leste europeu, mas especialistas não descartam a possibilidade de que a guerra se expanda para os demais territórios do planeta, visto que um dos motivos que levou ao início da investida russa contra a Ucrânia foi o possível envolvimento ucraniano com a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, chefiado pelos Estados Unidos, inimigo declarado da Rússia a tempos.

O povo ucraniano tem sido o mais prejudicado neste cenário, isso não há como negar. Civis de todas as idades estão perdendo suas vidas e sendo marcados pelo horror de uma guerra da qual não podem se defender. Alguns tentam fugir para nações vizinhas, que possam recebê-los, mas ainda existem muitos ucranianos presos em meio a troca de ofensivas dos dois países.

Desde o começo do conflito, podemos ver um movimento nas redes sociais pedindo que os ataques à Ucrânia sejam encerrados, ao mesmo tempo que exaltam o povo local, por irem de encontro com as tropas russas. Até mesmo o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky ganhou admiradores pelo globo, pela sua atitude de ir para as trincheiras com os soldados.

Embora essa narrativa seja ótima para uma história de “bem contra o mal”, onde os russos são vistos como os vilões e a Ucrânia como os mocinhos, mas conflitos tão complexos quanto estes não são tão “preto no branco” assim. Há que se pensar nas nuances do governo ucraniano, mesmo que em primeiro momento ele pareça o claro “herói” da história.

A professora de Relações Internacionais da PUC de Minas Gerais, Raquel Gotijo, explicou mais sobre esta questão em uma entrevista para o portal UOL. Gotijo disse que embora a Rússia tenha a vantagem nos conflitos armados, a Ucrânia está ganhando a “guerra informacional”, e isto deve servir de alerta para que o país não saia como a vítima sem culpa da história.

2 Precisamos tomar cuidado para nao achar que o governo da Ucrania e santo disse professora

Direitos autorais: Reprodução Linkedin / Raquel Gotijo

Com sua declaração, Gotijo se refere a dominação dos ucranianos nas redes sociais, desde o começo do conflito, com vários conteúdos relacionados à guerra. São imagens e vídeos do próprio presidente e de civis mostrando a situação através de suas lentes, conquistando a opinião pública internacional, que em maioria apoia a Ucrânia.

De acordo com a professora, esta exposição nas redes sociais fez com que a Ucrânia saísse na frente na construção de sua imagem para o resto do mundo. Construção de imagem em meio a uma guerra parece um detalhe ínfimo para se preocupar, mas com a velocidade com que informações viajam em nossa sociedade e a importância da opinião pública para governantes, este pode ser um ponto estratégico que a Ucrânia conseguiu ao seu favor. Ao mostrar caso de cidadãos ucranianos acolhendo soldados russos rendidos e o próprio presidente se juntando as tropas, a opinião do mundo tende a considerar a Ucrânia o lado certo para se torcer.

A Rússia, no entanto, parece não seguir pelo mesmo caminho, com resistência do próprio governo em marcar sua presença digital muito antes dos conflitos, além de sua censura a plataformas de mídia estrangeiras. Se antes sabíamos pouco da Rússia, durante o conflito, as tropas seguem no mesmo compasso sem alardes nem publicidade que é comum ao país.

A professora enfatizou que é preciso cuidado para não considerarmos o governo da Ucrânia “um santo”. Não existe um governo isento de defeitos, ela pontuou, mas no ponto de vista da estratégia informacional, é preciso reconhecer que a Ucrânia se destacou e tem a vantagem nesta parte do conflito.
Apesar do sucesso ucraniano nas redes, Gotijo foi enfática ao dizer que isto não significa que a Ucrânia está vencendo a Rússia no conflito. Do ponto de vista militar, a situação do país ainda é muito grave, pois o poder bélico do adversário russo é muito superior.

Gotijo afirmou que outro ponto favorável para comover a opinião pública é a identidade racial do Ocidente. A professora apontou que a visão de crianças brancas e com traços europeus sendo afetadas pela guerra tem o poder de influenciar o imaginário ocidental.

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