Não somos obrigadas a nada!



Essa deveria ser a primeira coisa a se ensinar a uma garota, deveria ser uma de suas primeiras frases ainda na tenra idade de aprender a falar.

Não somos obrigadas a usar rosa e nem a preferir vestidos a calças jeans. Não somos obrigadas a usar maquiagem e nem a usar salto alto, muito menos a ter unhas e cabelos compridas. Justamente porque não somos obrigadas a nada! Nem a brincar de boneca e nem a assistir aos meninos jogando bola no recreio. Podemos brincar de boneca e jogar bola também. As duas coisas. Ou uma. Ou outra.

O que a gente quiser, do jeito que preferir. Essa deveria ser a primeira lição a se ensinar a uma menina.

Não somos obrigadas a casar e nem a ter filhos. Não somos obrigadas a fazer o almoço e a lavar a louça, não.

Também não somos obrigadas a dar à luz ao natural na banheira e nem a ter uma cesárea marcada com antecedência. Não somos obrigadas a dar o peito em livre demanda, a seguir método BLW para a alimentação, a evitar doces até os dois anos de idade. Também não somos obrigadas a dar chazinho que a bisavó da prima da vizinha disse que tira a cólica do bebê com a mão. Mas se quisermos, podemos dar, porque essas receitas caseiras, às vezes, funcionam que é uma beleza.

Não somos obrigadas a sorrir o tempo todo e nem a carregar nos ombros todas as dores do mundo. Não somos obrigadas a entreter a criança o tempo todo; para isso existem também os pais e (por que não?) os desenhos infantis na televisão e na internet. Não somos obrigadas a usar roupas longas e fechadas para evitar cantadas baratas e nem a usar roupas curtas e justas para provar algo a alguém. Segue o baile daí que a gente continua não sendo obrigada a nada daqui! Porque a gente pode ser o que quiser e pode estar onde bem entender.

Não somos obrigadas a continuar no emprego que não gostamos e nem a manter um relacionamento falido. Não somos obrigadas a manter um corpo igual ao das moças da televisão. E nem somos obrigadas a ter o nariz arrebitado e os cabelos lisos das atrizes das novelas. Podemos alisar nossos cachos ou cachear nossos lisos. Podemos deixar o cabelo secar com o vento ou com o secador.

Podemos viajar sozinhas, ir ao cinema sozinhas, jantar sozinhas no restaurante ou na praça de alimentação do shopping. Ou podemos chamar uma amiga ou um amigo ou quem a gente bem entender. Não somos obrigadas a calcular o que os outros vão pensar e isso já nem nos interessa.

Não precisamos dar explicações sobre a cor dos nossos cabelos, não precisamos esconder o frizz e nem os fios brancos que vão surgindo, não precisamos fingir que não ficamos suadas depois de uma corrida na esteira ou na orla da praia, não precisamos gastar fortunas em cremes milagrosos para evitar as rugas. Mas se quisermos, podemos (!) e ninguém tem a nada a ver com isso.

Não precisamos usar maiô para esconder a celulite! Não somos obrigadas a nada, muito menos a seguir qualquer padrão que não o nosso próprio jeito de ser, que esse, esse sim, nunca sai de moda.



Não precisamos ouvir as músicas, ler os livros e assistir às séries que estão em alta e nem fingir qualquer erudição para que nos achem inteligentes. Não somos obrigadas a provar nada pra ninguém, (ninguém mesmo!) e isso é coisa que toda garotinha já precisa saber!

Não precisamos conter nossos gestos e nem diminuir o volume das nossas risadas. Não tem essa de etiqueta que emperre nossas vontades, nossa expressividade. Somos feitas daquilo que quisermos e ninguém pode dizer o contrário.

Não somos obrigadas a aceitar que um homem, no mesmo cargo que o nosso, ganhe mais do que a gente. Não precisamos ser doces e maternais e nem precisamos segurar o choro para não parecermos frágeis. Não somos obrigadas a trabalhar com cólica e com isso todo mundo há de concordar! Não somos obrigadas a perpetuar tabus sobre nosso corpo e como ele (lindamente) funciona.

Deixemos esse maniqueísmo de lado, por favor! Na gente, assim como em qualquer ser humano, moram o bem e o mal, moram o rosa e o azul, moram a boneca e o carro. Dentro da gente mora nossa essência e ela não é monossilábica. Pelo contrário, é verborrágica, vaza por dentro e se espalha por fora, colorindo cada pedacinho de qualquer coisa que a gente toca! Sim, pois a gente não nasceu fadada a casar com homem rico, a ter filho, a trabalhar na empresa sonhando com a aposentadoria. A gente não nasceu pra carregar a culpa que a sociedade insiste que a gente deve sentir. A gente nasceu para ser feliz!

Para algumas, a felicidade vai morar na maternidade, pra outras na carreira de sucesso, para outras, ainda, nas viagens e nos romances. Para muitas, a felicidade será uma mistura disso tudo e, com o filho no colo, desejaremos mais liberdade, com nossas carreiras alavancadas, desejaremos mais tempo para a família, com a cara encostada na janela do avião, desejaremos uma vida mais tranquila em um lugar só. Porque a gente é assim: a multiplicidade, a diversidade, o grito e o silêncio!

Não me obrigue a nada, muito menos a ser uma só!

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Direitos autorais da imagem de capa: evgenyatamanenko / 123RF Imagens






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