Comportamento

Última mensagem de mãe a suas filhas antes de morrer de covid-19: “Não tem UTI, amo vocês”

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Valéria tinha 42 anos e estava internada por complicações da covid-19. Seus últimos dias foram em meio ao caos da falta de leitos, enquanto aguardava vaga na UTI.



Em Esteio, no Rio Grande do Sul, um triste caso aconteceu no início de março. Valéria, de 42 anos, enviou uma comovente mensagem a suas filhas antes de morrer em decorrência de complicações do novo coronavírus.

Por um aplicativo de mensagens, a mãe escreveu que ia para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas que não havia vaga em parte alguma do município. Ela se despede dizendo que ama as filhas.

A mensagem foi enviada no dia 27/02 para a filha mais velha, Giulia Mariana. A mãe passou seus últimos dias presenciando o caos da falta de leitos nas mais diversas regiões do país, em decorrência do aumento no número de novos casos e de complicações. Horas depois da sua morte, sua filha, de 23 anos, compartilhou a mensagem em sua conta no Twitter, no dia 02/03.


Na publicação, a menina explicou que aquela foi a última mensagem que recebeu de sua mãe, e pediu que todos usem máscaras e só saiam de casa se realmente existir necessidade.

Segundo reportagem da BBC, a situação vivida por Valéria ilustra o cenário caótico do sistema de saúde no país. Nos últimos dias, o Brasil tem registrado números de mortes cada vez maiores a cada 24 horas, batendo recordes diários.

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Direitos autorais: arquivo pessoal.

De acordo com a família, a mãe adotou todos os cuidados necessários para reduzir as chances de contágio, mas todos acreditam que ela tenha sido infectada enquanto atendia algum cliente na sorveteria de que era proprietária. Giulia explica que os clientes pouco se importavam com os protocolos de saúde necessários e que sua mãe já tinha cansado de pedir que todos usassem máscaras.


Valéria começou a sentir os primeiros sintomas no dia 14 de fevereiro, com muita tosse. Dias depois, o teste confirmou que ela e seu marido haviam contraído o vírus. Ambos se isolaram.

A mãe chegou a ir algumas vezes ao hospital, mas era liberada rapidamente, já que as unidades estavam cheias e era necessário abrir espaço para atender outros pacientes.

No dia 20 de fevereiro, a situação se tornou mais complexa, com histórico de diabetes e asma, a comerciante teve os pulmões seriamente comprometidos pelo vírus, e foi internada na emergência de uma unidade de saúde pública. Valéria mandava várias mensagens à família, já que podia ficar com o celular, mas ninguém podia visitá-la, exceto o pai, que podia levar itens de necessidades básicas.

Uma semana depois, o quadro piorou e a mulher recebeu a notícia de que precisava ser encaminhada para a UTI, mas a falta de leitos no Rio Grande do Sul impossibilitou isso. Assim como em outras partes do Brasil, a atual situação da pandemia no RS é extremamente preocupante.


Existe fila de espera por um leito na UTI. O governo do Estado estuda a possibilidade de alugar contêineres refrigerados para acomodar o possível excesso de corpos. A filha explica que quando soube que a mãe precisava ser transferida, a família ligou para hospitais em todos os municípios que conseguiram, inclusive no litoral, mas precisariam viajar durante cinco horas, e os médicos disseram que ela não aguentaria.

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Direitos autorais: reprodução/Twitter.

Giulia afirma que, desde o ano passado, as autoridades já vinham alertando para o colapso da rede de saúde, mas ninguém levou o assunto a sério, e agora não existem mais vagas na UTI.

Quando soube da situação da mãe, a filha mandou mensagens para saber como ela estava, disse que a amava e que torcia muito pela sua melhora. Pediu que a mãe fosse firme para que conseguisse vê-la se formar. Foi a última vez que conversaram.  A saturação de Valéria ficou muito baixa e os médicos tiveram de intubá-la.


Ela tinha asma e apresentava um quadro de pneumonia. Sem leito na UTI, ela permaneceu na emergência e o hospital fez tudo o que estava ao seu alcance para equipar seu leito. Mesmo com o respirador, a saturação dela não melhorou.

Giulia relata que tudo aconteceu muito rápido e, no dia 2, a mãe teve uma parada cardiorrespiratória e não resistiu.

A frustração da filha vem da certeza de que, se os jovens não se aglomerassem e os governos se posicionassem de forma efetiva diante do combate ao vírus, sua mãe ainda poderia estar viva.

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Direitos autorais: arquivo pessoal.


Giulia decidiu compartilhar as últimas mensagens que trocou com a mãe para tentar alertar as pessoas sobre a gravidade do novo coronavírus. Ela ficou em choque, quando o desabafo viralizou. A jovem agradeceu às inúmeras mensagens de carinho que tem recebido desde então, e explica que está sem forças para responder a cada uma delas.

Para a menina, uma das piores partes de todos os acontecimentos é que não pode receber um abraço, fazendo-a sentir-se ainda mais solitária. Giulia está com suspeita de covid-19 e aguarda o resultado do exame.

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Direitos autorais: arquivo pessoal.

Além da primogênita, Valéria deixa outras duas filhas, uma de 22 anos e outra de apenas 8 anos. Giulia revela que a mãe era seu porto seguro e que todos terão de aprender a caminhar sem a segurança dela.


A jovem escreveu no Twitter que escolheu o caixão mais bonito que tinha para ela e desejou que ninguém mais no mundo tivesse de passar por essa dor.

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