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A necessidade e o poder curativo do NÃO!

Quando fazemos do sim uma filosofia de vida, tendemos a esperar dos outros o mesmo comportamento. Tanta disposição e disponibilidade pode gerar desconforto e frustração na falta da reciprocidade.


O sim muitas vezes vem acompanhado de uma carga grande de culpa, gerada no íntimo e que tantas vezes nem corresponde à verdade.

Para aquele que não sabe dizer não, intitulado aqui de senhor SIM, quando acionado para um favor, negar, parece que vai romper todos os laços estabelecidos.

É como se a condição da aceitação e da bondade no meio em que vive estivesse alinhada à prontidão em qualquer necessidade alheia. O senhor SIM está sempre disponível, sempre a postos. Atende de primeira. Não cogita a transferência para terceiros. Não deixa sequer que sua ausência seja notada. Diz sim a todos os compromissos, a toda afirmação e a todo benefício que faz ao outro, muitas vezes esquecendo-se de buscar o bem a si próprio.

Aliás, julga saber das necessidades do outro antes dele mesmo, tamanha preocupação em estar positivamente em todos os cenários.  Acontece que isso não permite ao outro o crescimento e amadurecimento, o experimento da negativa, da dificuldade e da dor. A cicatriz não se faz em um morto, mas em um sobrevivente.


E sobreviver requer absorção e transposição de doses diárias e ininterruptas de NÃOS. São eles os fortalecedores nos caminhos da existência. 

É importante ajudar as pessoas, é importante demonstrar disponibilidade, é muito importante ser uma pessoa com quem o outro pode contar, mas há limites, há uma linha tênue entre ser uma pessoa possivelmente disponível e uma pessoa que pensa excessivamente nos outros primeiro para depois pensar em si tendo como condição, o agrado ou medo de dizer não. É preciso saber não ultrapassar esse limite.

O senhor SIM imprime tanto otimismo e positividade em suas ações que impede o outro de traçar seu caminho, com suas próprias pernas, mas sempre, não importa quanto tempo leve, cairá a ficha e o senhor SIM se reconhecerá doente e encurralado, com necessidade de conhecer-se. Todo ser humano, em alguma etapa da vida passará por esse processo. Processo de questionamentos para amadurecimento.


A vida é muito mais que nascer, pagar contas e morrer. É preciso identificar um motivo real e concreto para estar nesse mundo. E inicia-se uma longa jornada para dentro de si mesmo. Estabelece-se uma postura de não para mundo e sim para si mesmo. É o momento de curar.

Curando-se

Essa dificuldade de dizer não, cedo ou tarde ganhará peso relevante na vida desse ser cheio de boa vontade. Muitas vezes, cansado de apenas doar-se, o senhor SIM abre um leque de reflexões. Percebe que raríssimas vezes disse não e pior, que isso não o tornou mais diferenciado ou mais especial que aqueles que fizeram uso da negativa. Tornou-se então um vilão e negligenciador de si mesmo. É a hora em que ele sai de cena e de forma clichê, ouve a voz do coração. Entende que essencialmente precisa tomar posse da sua vida e de seus sonhos e trilha um novo caminho. Pára de evitar as dores alheias, deixa de fugir das suas próprias e  as encara. Começa então uma profunda análise de si mesmo, das pessoas em seu entorno e a representatividade em sua vida. Afasta-se e tem pela primeira vez a constatação de fora para dentro de que todos conseguem viver normalmente sem sua interferência.

É quando dói, sangra e dilacera. É momento de reinventar-se. Deixará o senhor SIM de dizer sim? Não, ele apenas passa a observar mais, refletir mais, racionalizar mais antes de agir. Continua agindo com o coração, mas de forma mais cautelosa. Escolhe com zelo os merecedores de um sim. Aquele amigo folgado ou aquele parente dramático já não consegue mais penetrar no campo da culpa. O senhor SIM curado, não sairá mais do conforto do seu lar para resgatar aquele que pode pegar um táxi.

O senhor SIM curado já não bancará mais passeios daqueles que não tem grana para acompanhar, mas tem para outros gastos supérfluos.

No máximo o senhor SIM, ainda em risco de recaídas, trará uma lembrancinha. O senhor SIM curado já não visita mais quem não lhe visita. Já não se preocupa tanto com quem não lhe deseja sequer um bom dia. O senhor sim curado percebe então uma liberdade nunca antes experimentada. A liberdade da cura. Do não sentir-se obrigado a dizer sim querendo dizer não. Já não corre na frente evitando as dores dos que lhe são caros. Já de posse de um aprendizado que os muitos NÃOS lhe trouxeram, aprende a fazer o curativo ao invés de impedir a queda. Aprende que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, e que o sim só é sim de verdade e regado de amor quando ciente de sua oferta sem condicionantes.

O resto são NÃOS implícitos e adoecidos em busca de cura.

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Direitos autorais da imagem de capa:dmitryag / 123RF Imagens





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