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Nem vítimas nem vilões!

Nem vítimas nem vilões!

Ainda vejo casais que passaram e passam uma vida inteira com o mesmo parceiro. Isso não é tão comum nos dias de hoje, mas ainda acontece. Começam a namorar na adolescência, casam, têm filhos e permanecem juntos na velhice por muitos anos. Tenho uma amiga cujo marido é o namorado dela de infância. O casamento ainda é bom e funciona, de verdade! Ela costuma dizer: “Fomos crianças juntos, crescemos juntos, aprendemos juntos e estamos amadurecendo e envelhecendo juntos”.


Não há dúvida de que esse tipo de relação é uma raridade. Muitos outros nessa mesma situação, depois de algum tempo de casados, separam-se ou passam a vida se digladiando e se acostumam a viver mal ─ um tolera o outro, a dificuldade de um reforça a do outro… . Em alguns casos, durante o namoro, tudo funcionava e dava certo; depois, não sei o que acontece, e a coisa desanda. Uma pessoa próxima namorou quase oito anos, e, quando ela e o parceiro resolveram se casar, o relacionamento não durou dois anos. Acontece bem mais do que imaginamos.

Fico curiosa com os relacionamentos longos, principalmente nos tempos atuais, nos quais o imediatismo e a superficialidade ganham cada vez mais terreno e notoriedade. A maioria das pessoas não esquenta com nada nem se prende a ninguém, tudo é rápido, passageiro e descartável. Sem contar que a procura está maior que a oferta, o mercado está bastante concorrido. Quem tem uma pessoa interessante ao lado que a segure e a valorize, pois não está fácil encontrar alguém decente, resolvido e disposto a compartilhar a vida. A concorrência está acirrada e agressiva.

Também não podemos esquecer que há muitos relacionamentos de “fachada”, de “vitrine”, um grande número deles é apenas para inglês ver. Hoje, algumas pessoas se mantêm em relacionamentos longos com base no patrimônio, nos “mimos” que recebem, nos luxos e nas mordomias proporcionadas; com isso, fecham os olhos para outras coisas…


Quando o assunto é relacionamento amoroso, não há vítima nem vilão. Falo de relacionamentos considerados normais (embora até isso varie de casais para casais, de pessoa para pessoa, porque o que eu considero normal, o outro pode não considerar), mas vamos falar daquelas relações cartesianas, conservadoras. Não há aquele que aproveita e o outro que é aproveitado. Todos aproveitam à sua maneira, e ambos são responsáveis pelo sucesso ou pelo insucesso da relação. Às vezes, um usa e o outro se deixa usar, porque é conveniente. Há outros que passam a impressão de que são explorados, mas, na verdade, são os que mais tiram vantagem.

Estes costumam posar de vítimas quando é conveniente e têm sempre uma lista de cobranças à mão para usar na hora propícia.

É o contador oficial da relação: quanto valeu a pena, quanto recebeu, quanto deixou pra trás, quanto merece, quanto ainda pode conseguir…

O relacionamento é um contrato, um jogo. Nele, ninguém faz nada para o outro que não seja permitido ou desejado por este. Há sempre um ganho para ambos, mesmo que seja apenas o suprimento das carências e das dificuldades de cada um. Relacionamento é 50% de um e 50% de outro; quando há desequilíbrio nesse percentual, é muito difícil não haver, com certeza um irá ceder mais do que o outro, e uma das partes irá se beneficiar mais. Aquela que mais ceder é a que mais se sentirá infeliz na relação ou que terá, futuramente, um maior poder de barganha sobre o outro na hora de contabilizar os ganhos deste em função das “renúncias” que fez, algo que mais tarde pode ser de seu interesse. Em relacionamentos, dividem-se as coisas boas bem como as ruins, embora haja muita gente que queira somente o filé da relação. Ninguém gosta de ficar com o que não é bom, não conheço nenhuma pessoa!


Vejo com certa frequência esse movimento desigual. Na “dança amorosa”, ambos os pólos se alternam o tempo todo. Claro, alguns tentam minimizar suas responsabilidades quando algo não dá certo ou não está sendo interessante. Passam a colocar o parceiro na condição de vilão e vice-versa, como se eles próprios não tivessem a menor interferência ou participação no assunto. Tudo o que aconteceu parece alheio a sua vontade. A pessoa se coloca na posição de mero espectador do próprio relacionamento, como se isso fosse possível. Não há como falar em culpa ou erro quando o assunto é amoroso. As duas partes envolvidas são responsáveis pela história que protagonizaram e que foi escrita, construída, por ambos. O final será dado por eles mesmos a partir do que cada um fez para o outro. Porém, temos sempre que lembrar que há muita gente que confunde amor com outras dificuldades pessoais, por exemplo: obsessão, fixação, dependência, insegurança …

Não podemos achar que o outro será nosso salvador, nosso redentor, e irá nos tirar das dificuldades, sanará todos nossos problemas, carregar-nos-á pela vida afora… Temos que nos bastar, pois sabemos que não adianta persistirmos em relações nas quais o descompasso da dança conjugal vive em eterno desequilíbrio, principalmente nas quais não há afinidades importantes nem objetivos comuns. Não devemos nos manter em quadros amorosos nos quais cada um está mais preocupado com seus próprios problemas e interesses do que com o relacionamento em si, nos quais sobraram somente as discussões, as cobranças, as obrigações e os deveres, nos quais o sentimento, o respeito e a cumplicidade já acabaram há muito tempo.

Alguns têm por hábito colocar no outro a culpa e a responsabilidade pela própria infelicidade, principalmente quando nada restou, não há mais nada em comum, nem respeito. A desarmonia é total. Tristes são esses relacionamentos em que, depois de alguns anos, o casal olha para trás e percebe que o saldo é negativo: nada restou além dos filhos, quando os têm, os quais uma hora também irão traçar os próprios caminhos. Difícil essa sensação de que a vida passou e muito tempo se perdeu devido às más escolhas e às decisões impensadas. Temos que ser cautelosos, quando possível, na escolha da parceria certa, se quisermos compartilhar o caminho da vida. 

No entanto, até as pessoas se darem conta da situação triste em que se encontram, ficam nisso um tempão. Estão atoladas de problemas até o pescoço e, principalmente, de consequências que resultaram dessa história. Não podemos esperar que o outro preencha um vazio existente em nós, somente nós mesmos podemos fazê-lo. Buscamos, muitas vezes, encontrar alguém que amenize essa lacuna, mas a descoberta de uma forma efetiva de suavizar a sensação desagradável que se instala em nós de vez em quando é um caminho pessoal, é certo que somente nós mesmos podemos preencher este vazio, isso é apenas de nossa competência. É ilusão acharmos que outra pessoa poderá nos proporcionar esse preenchimento, não podemos, nem é possível, delegar a ninguém essa função. Por isso precisamos ter a força de romper com o ciclo vicioso que a maioria das relações tradicionais impõe e nos encontrar com nós mesmos.





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