publicidade

Ninguém é obrigado a insistir numa relação, mas consertar um vaso quebrado muitas vezes é melhor do que comprar um novo

Até que a expectativa os separe…  

O mundo e as relações mudaram, as estruturas e os pilares sociais estão no chão. Talvez por isso haja a parcela que prefira os relacionamentos líquidos, aqueles que basta excluir das redes sociais que, com dois cliques e um bloqueio, desaparecem. 



Um casal de amigos que eu gosto muito disse-me ontem que o namoro terminou. Motivo? Aparentemente não há e disseram não saber. Eles se amam, têm afinidades, estão juntos há anos! Fiquei pensando sobre o que falta em nós para conseguir ajustar e resolver os meandros das relações.

A questão é que, às vezes, a falta de um projeto juntos, de dificuldades compartilhadas e principalmente de diálogo fazem com que se conjecture muito e se divida pouco, que se imagine demais e se pergunte de menos. Há um bloqueio enorme em entender nossas próprias emoções e, principalmente, em se abrir para o outro.

Não somos educados para desvendar o coração, muito menos para desenvolver a tal da “inteligência emocional”, que parece coisa de gente fria e racional demais, marketing de livro de autoajuda. A família não ensina, a escola muito menos, quase todas as religiões nos julgam culpados por sentir e se expressar, a mídia é fútil e superficial.


A ideia de que “posso encontrar alguém melhor lá na frente”, “estou perdendo tempo tentando consertar essa relação” ou “essa pessoa é muito complicada” faz do coração um eterno estreante, imaturo, sem forças para perdoar e corrigir o que não anda bem. 

A Síndrome de Peter Pan nos torna um adolescente mimado que mora com os pais, que inicia um novo namoro a cada três meses, que se não der certo é rapidamente substituído por outro que me sirva melhor. “Vivo na casa dos meus velhos mesmo, não me casei, nem pretendo, dá muito trabalho”.

Sempre haverá uma nova paixão na próxima esquina, mas até quando viveremos a ilusão dos contos de fada? O romance à moda antiga é uma estrutura falida que não funciona mais nem nos desenhos da Disney, mas que ainda assim ocupa o imaginário idealizado da nossa cultura, vendido como modelo, principalmente para as mulheres.


A indústria do véu e grinalda continua lucrando alto, mas o castelo desmorona logo que os problemas do convívio aparecem.

Aliado a isso vem outra indústria, a dos medicamentos, que nos anestesia do sofrer e do sentir, levando inclusive os mais jovens às altas doses, e até a dependência, tudo para anular a dor e a frustração.

O mundo e as relações mudaram, as estruturas e os pilares sociais estão no chão. Talvez por isso haja a parcela que prefira os relacionamentos líquidos, aqueles que basta excluir das redes sociais que, com dois cliques e um bloqueio, desaparecem. As fotos do casal são apagadas e a vida segue seu curso, pois logo surgirá um novo e eterno amor para ocupar aquela lacuna etérea que chamamos de sentimento, o objeto afetivo perfeito, construído sob o manto do “felizes para sempre”.

Ah, quanta tolice! Uma pessoa não substitui a outra, ela não vai desaparecer, e mesmo que mude de continente ela continuará viva na memória, presente na nossa história de vida, ela nos afetou de algum modo e isso não se apaga jamais.

Ninguém é obrigado a viver ou insistir numa relação falida, muito menos se for abusiva, mas consertar um vaso quebrado muitas vezes é melhor do que comprar um novo.

As cicatrizes do ajuste são pequenas vitórias contra o nosso orgulho e fortalecem a nossa capacidade de perdoar, o que inclui a nós mesmos.

Quem não erra? Quem nunca foi egoísta numa relação? Eu já, muitas vezes, e sigo aprendendo…

Mas como diz o querido Chico: “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode recomeçar e fazer um novo fim.”


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: epicstockmedia / 123RF Imagens

Baixe o aplicativo do site O Segredo e acompanhe tudo de pertinho. Android ou IOS.

Texto escrito com exclusividade para o site O Segredo. É proibida a divulgação deste material em páginas comerciais, seja em forma de texto, vídeo ou imagem, mesmo com os devidos créditos.




Deixe seu comentário

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.