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“no relevo das circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura”

Há um ponto de partida e um de chegada, entre estes o dédalo.



Impossível desvendá-lo, o que temos aqui é apenas um ponto de vista, de uma perspectiva nefelibata, baseada no empirismo acumulado no âmago de um misantropo.

Do sertanejo recluso que reconheceu a magnitude de um homem e de sua obra: eterna, infinita, linda! Mero coadjuvante é o caráter informativo deste artigo, a minha real intenção foi prestar dentro de minhas pequenas possibilidades uma singela homenagem ao autor e sua Magnus Opus.

Senti que era meu dever, o mínimo que eu poderia fazer.

No relevo das circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura

Artigo dedicado à Débora Cristine Furtado

Baseado na obra: Os Sertões, de Euclides da Cunha


Basta um fato, um acontecimento trágico para que uma mente sã se transforme numa máquina ambulante de subterfúgios. Grande vitória será para a sociedade e para aquele que conseguir superar os desígnios do trauma sofrido, e os que não têm a mesma sorte, padecem ao longo da vida, causando danos desastrosos, por vezes em menor escala, e outros de magnitude histórica, não nos faltam exemplos.

Por que o homem ficou louco e vagou penitente trinta anos no deserto?


“No relevo das circunvoluções

Dificuldade em se recuperar depois de vivenciar ou testemunhar um acontecimento assustador. Necessitava urgentemente de ajuda, não obteve. O subterfúgio então torna-se a melhor saída.

Acredito que o doente não é completamente louco, realmente não creio que seja, mas o que foi desencadeado pelo trauma pode afetar drasticamente seu comportamento após o incidente, sendo assim este necessitaria de um tratamento, por vezes infelizmente, negligenciado, os fatores que levam a esta negligência não cabe aqui discuti-los, necessitaríamos de outra ocasião.

No que diz respeito a estas patologias em âmbito psíquico, Euclides da cunha descreve a seguinte situação:

Durante longo tempo numa semiconsciência de seu estado, numa série de delírios breves e fugazes, que ninguém percebe, que nem ele às vezes percebe, sente crescer a instabilidade da vida. Os intervalos lúcidos fazem-se ponto de apoio à consciência vacilante à procura de motivos inibitórios numa ponderação cada vez mais penosa das condições normais ambientes. A inteligência abalada afinal mal se subordina às condições exteriores ou relaciona os fatos e, em contínuo decair, baralha-os, perturba-os, inverte-os, deforma-os. Condensando no cérebro como se fosse à soma de todos os delírios anteriores, instável, pronto a desencadear-se em ações violentas, que o podem atirar no crime ou acidentalmente na glória.”

Do ponto de vista estritamente biológico é válido ressaltar a hipótese determinista, evidenciada por Maudsley, que defendia exatamente a noção de irresponsabilidade, insensibilidade ou imbecilidade moral, sem nenhuma outra alteração das faculdades mentais.

Porém com sentenciou Euclides: “É que ainda não existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades”

A força portentosa da hereditariedade, aqui, como em toda a parte e em todos os tempos, arrasta para os meios mais adiantados — enluvados e encobertos de tênue verniz de cultura — trogloditas completos. Se o curso normal da civilização em geral os contém, e os domina, e os manieta, e os inutiliza, e a pouco e pouco os destrói, recalcando-os na penumbra de uma existência inútil, de onde os arranca, às vezes, a curiosidade dos sociólogos extravagantes, ou as pesquisas da psiquiatria, sempre que um abalo profundo lhes afrouxa em torno a coesão das leis eles surgem e invadem escandalosamente a História. São o reverso fatal dos acontecimentos, o claro-escuro indispensável aos fatos de maior vulto.

Cabe à sociedade dar-lhe a camisa-de-força ou a púrpura. Porque o princípio geral da relatividade abrange as mesmas paixões coletivas. Se um grande homem pode impor-se a um grande povo pela influência deslumbradora do gênio, os degenerados perigosos fascinam com igual valor as multidões tacanhas.

Euclides da Cunha – Os Sertões – 1902


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