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A NORMAL X A DESPERTA:

Não se apegar a realidade acho que é um dos nossos maiores desafios. Aceitar que tudo muda e é passageiro e que somos meros figurantes da arte divina é um conceito um tanto abstrato para a maioria de nós.


Problemas sempre vão existir, assim como desavenças e desentendimentos. Só conseguimos não nos abalar quando não nos identificamos mais com tais formas. Segue uma história para exemplificar.

Maria e Joana são adultas e se tornaram amigas na adolescência. Maria se jogou no autoconhecimento, por questões de curiosidade e espiritualidade, se dedica há anos em cursos, leituras e filmes sobre a aventura de se conhecer. Joana também cresceu, mas diferente de Maria, somente se dedicou arduamente aos estudos acadêmicos, vida profissional e social. O cenário que as unia na adolescência mudou.

Após muito tempo sem se encontrarem, decidiram viajar um final de semana juntas para colocar o papo em dia. Joana conta a Maria sobre suas conquistas materiais e amorosas. Maria ouve, mas sente algo que vai além das palavras de Joana. Ao longo dos dias, Maria é capaz de perceber em Joana a ansiedade, a autocobrança, a mente acelerada e certa frustração. Não compreende bem seus sentimentos já que Joana parece estar tão bem e realizada externamente.


Mas aos poucos, Maria foi se dando conta que apesar de viver em uma situação bem inferior ao status conquistado por Joana, ela tem algo mais valioso: poder de sua presença, a calma e gratidão por tudo ao seu redor.

Nas refeições, enquanto Maria respirava e tentava sentir o que estava com vontade de comer, Joana fazia comentários sobre suas dietas e que não podia mais engordar. Maria achava o hotel quente e aconchegante, Joana reclamava dos lençóis e do pó que entrava pela janela. Maria se sentia bem com seus poucos cosméticos, enquanto Joana precisava de horas para passar infinitos produtos em todo seu corpo. Ambas eram magras. Maria gostava de se alongar brevemente pela manhã pelo prazer de ouvir seus ossos estalarem, enquanto Joana colocava metas de caminhadas para elas em seu relógio para gastar calorias certas.


Muitas das conversas eram interrompidas por e-mails ou ligações importantes de trabalho. Sua amiga postava fotos felizes delas nas mídias sociais, porém mal se permitia entregar-se profundamente ao prazer de um simples momento.

Maria falava pouco. Diversas vezes, ela foi criticada por Joana por não estar acompanhando as últimas notícias de desgraças e catástrofes mundiais. Em um diálogo das duas, Joana não se conformava com a “alienação” de Maria e lhe disse:

  • Você precisa saber sobre isso. Até a Onu foi acionada para cuidar de tal assunto.

Maria calmamente, lhe perguntou:

  • O que eu posso fazer para mudar a tal situação?
  • Bom, primeiro você precisa saber sobre ela para ver o que pode fazer. Você vive neste país. Você tem que se informar.
  • Eu não posso fazer nada! O que eu posso fazer, eu já estou fazendo: mantendo minha calma, vibrando coisas boas ao meu redor, portanto contribuo positivamente de alguma forma. De que adianta reciclar o lixo de casa, se não reciclamos pensamentos? Discordo com você de que porque nasci em tal país tenho que ler sobre misérias e catástrofes. Eu sou muito maior no sentido de que eu habito planeta. Me focar em um problema peculiar de uma nação é um trabalho de outros, não meu. Meu trabalho é estar bem para dar o meu melhor da minha forma.

Ao dizer isso, Maria se deu conta que havia mudado diversos padrões. Não se sentia mais inserida em sua amizade de longa data. Sentiu-se incompreendida e desrespeitada pela amiga, mas depois de algumas respirações, se deu conta que amava muito Joana e que sua forma dura, controladora e ditatorial de lidar com a vida, era apenas sua consciência. “Se foi dura, incisiva e impaciente comigo é porque ela é assim com ela mesma. Joana está preocupada demais com tudo o que está fora dela. Liderar funcionários, equipes, projetos. Controlar relações, calorias e vontades é a sua realidade interna”, pensou Maria.

A  catástrofe de hoje será notícia até a catástrofe de amanhã. O relacionamento perfeito não existe e o amor é uma energia, atemporal e infinita. O seu corpo muda todos os dias até o dia em que morrer. Cada ser humano é um universo particular criado por sua mente. Tudo está em transição o tempo todo. A realidade é relativa e somos nós que escolhemos o que queremos ver e enfrentar as experiências que a vida nos proporciona. Quanto mais relaxado em nosso interior estivermos, mais claro, neutro e belo tudo fluirá fora de nós.

Busque se conhecer. Ao invés de criar muros planejados fora de você, como Joana fez, trabalhe ao máximo para cultivar os jardins internos, porque uma hora, as flores de dentro crescem e começam a aparecer do lado de fora também. Faça chuva, faça sol, a flor seguirá existindo, independentemente das circunstâncias.





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