Família

“Nós tivemos a sorte de ter pais que não viviam para agradar aos filhos” — reflexão de Leo Fraiman

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A relação que os pais estabelecem com os filhos, principalmente quando eles atingem a pré-adolescência ou a adolescência, precisa ser baseada no diálogo.

Quantas vezes os pais, mães e responsáveis por conduzir a educação de uma criança ou adolescente não se perguntam se estão no caminho certo? Conforme as gerações mudam, a tendência de centralizar essa criação no seio familiar mais íntimo aumenta, e isso não deve ser analisado sob o ponto de vista do certo ou do errado, apenas das alternativas possíveis dentro de cada realidade para que as relações não se tornem pesarosas.

Sabemos quão difícil é pautar a educação infantil em valores morais e éticos, e ainda que cada família tenha as próprias regras, algumas coisas nunca mudam perante a sociedade. Outro fator que pode impactar diretamente a forma como enxergamos o maternar ou paternar é a relação que estabelecemos com o exterior, com tudo aquilo que vem de fora.

São muitos os julgamentos que mães e pais ouvem desde o momento que anunciam que a família vai aumentar: “não pode mamar demais”, “tem que mamar”, “não pode dar colo”, “tem que dar colo”, “é preciso impor limites”, “dependendo da idade, imposições só atrapalham”, “ele está te manipulando”, “tadinho, ele está triste”, entre outras inúmeras suposições.

Existem linhas de criação infantil que apresentam pontos de partida diferentes, e apenas quem está no cerne da relação vai saber como conduzir determinadas situações, principalmente as de maior estresse e tensão. É preciso oferecer autonomia, mostrar aos filhos que eles são capazes de coisas que nem sequer imaginavam e que os responsáveis sempre estarão ao seu lado, independentemente da situação.

Mas essa relação de confiança não se cria da noite para o dia, é preciso estabelecer desde o início uma interação baseada no respeito, na liberdade e no diálogo. Compreender que os filhos são indivíduos é o primeiro passo para que os pais não se sintam cobrados em excesso dentro de casa nem os filhos se sintam desrespeitados com a ausência de direcionamento.

O combinado não sai caro

Conforme os filhos crescem, fica mais simples estabelecer limites claros, mas também somos questionados com mais ênfase. Não se sinta afetado pelo posicionamento e pela recusa dos filhos em obedecer cegamente àquilo que você pede, isso vai acontecer quando a sua criação oferecer espaço para diálogo, desenvolvimento físico e emocional.

O psicoterapeuta e educador Leo Fraiman fala muito sobre criação infantil e os processos familiares que tem percebido nas novas gerações. Ao mesmo tempo que nossos pais e avós estabeleciam um posicionamento hierárquico diferente dentro dos lares, vemos as famílias mais recentes cometendo excessos de permissividade.

É importante frisar que falar sobre “excessos” não tem a ver com retroceder e criar uma relação unilateral com os filhos, em que eles nem sequer têm espaço para exprimir seus sentimentos, e sim sobre a ausência de compromisso e comprometimento que eles podem ter ao longo da vida adulta. Crianças são indivíduos desde o dia em que nascem e, ao mesmo tempo, precisam compreender sua posição na sociedade.

Indo um pouco além daquele discurso batido dos “filhos folgados”, fazer com que se entendam parte do mundo, cidadãos e membros de uma comunidade, é ensinar a eles sobre seus direitos e deveres. Quando somos parte do tecido social, fazemos um pacto coletivo, ou seja, tudo deve ser pensado e realizado sob a óptica da maioria.

As desigualdades que presenciamos no mundo, sejam elas de gênero, sociais, raciais, entre outras, são capazes de proporcionar aos indivíduos uma noção macroestrutural de como uma sociedade funciona e, principalmente, quais caminhos precisam ser tomados para que aquilo que não está bom possa ser alterado no futuro.

Muitas pessoas têm privilégios, e esses privilégios perpetuam o status quo, fazendo com que as mesmas pessoas (ou o mesmo perfil socioeconômico) ocupem os espaços de poder. É preciso ensinar aos filhos essas disparidades, dessa forma eles serão capazes de estabelecer elos ainda mais fortes no futuro, tendo como base os aprendizados que receberam dos pais, mães e demais responsáveis.

Alguns momentos não podem ser terceirizados ou transferidos. As crianças e os adolescentes necessitam da presença de adultos comprometidos com seu futuro, e isso vai muito além de tudo aquilo que se pode comprar e vender. Sabemos que uma boa educação custa caro, e não precisamos “jogar na cara” dos filhos tudo aquilo que eles recebem, mas é preciso que aprendam a se situar na sociedade, é preciso que eles aprendam que esses privilégios custam caro a um segmento da população.

Os verdadeiros aprendizados acontecem na vida real, acontecem pelas experiências ao lado das pessoas que amamos e admiramos. Pense naquilo que deseja para o seu filho no futuro, pense no mundo que quer que ele herde, pense nos outros filhos e na quantidade de pessoas que nem sequer têm o mínimo.

Ensine a seus filhos sobre responsabilidade, mas não apenas aquela sobre arcar com custos e valorizar o esforço, mas também sobre responsabilidade social, sobre responsabilidade emocional e afetiva. A vida é muito mais do que bens materiais.

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