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Nossas hostilidades se desfazem quando conhecemos as tristezas e os sofrimentos dos nossos inimigos

Joker – “Se pudéssemos ler a história secreta de nossos inimigos, descobriríamos tristeza e sofrimento suficientes para desarmar qualquer hostilidade.”


No segundo dia de um curso de final de semana, foi pedido para cada participante contar como passou do dia anterior até aquele momento. Era um grupo de 15 pessoas, haviam experimentado algumas vivências e reflexões acerca do comportamento humano.

Pessoas de diferentes graduações, experiências, histórias de vida. Muitas respostas parecidas, como: “Ah, dormi muito bem” ou “estou com mais disposição” ou “resolvi um problema, estou aliviado”. Mas, dentre todas, uma resposta inédita: “Cheguei com muita fome, comi tudo que vi pela frente. Não tinha o que fazer, resolvi beber, tomei várias cervejas, fumei um cigarrinho fedorento que a faxineira esqueceu. Fiquei lá, bêbado, fumando, mandando mensagem para um monte de gente chata.”

É, a verdade é que somos muitos, somos vários, somos únicos. E nossas reações também. E, muitas vezes, quando deixamos claro quem realmente somos ou como nos portamos, muitos se espantam, porque o ser humano gosta de previsões, gosta de imaginar do outro a mesma maneira de agir e de viver. Procura ao redor as próprias atitudes, tenta decifrar constantemente o mundo alheio com suposições baseadas em suas escolhas, e acaba reduzindo a universalidade ao que conhece ou julga correto, normal ou bom. E, partindo desse ponto, pressupõe carta branca a comportamentos variados e bizarros alimentado pela presunção da resposta – ou ausência dela – pelo outro.


E se conhecêssemos mais do outro?

Assisti ao filme “Joker”, tão comentado e que tem dividido opiniões. Saí pensativa do cinema e assim permaneci por muito tempo até que, em casa, estudando, me deparei com essas palavras: “Se pudéssemos ler a história secreta de nossos inimigos, descobriríamos na vida de cada homem tristeza e sofrimento suficientes para desarmar qualquer hostilidade.” (Henry Wadsworth Longfellow)

O estudo era sobre julgamento. O filme, para mim, faz a representação de um ser solitário, confuso, inseguro e preterido na pele do Coringa. Retrata os anos 1980 de Gotham City, com muitas semelhanças aos dias de hoje. Revela e expõe a intolerância, a violência extrema e a banalização da atenção à vida, à saúde mental, ao ser humano.

A loucura, para mim, foi uma maneira de possibilitar ao personagem resolver suas questões na raiz dos problemas, é como se o delírio e a insanidade roubassem os freios, usando a doença psiquiátrica como mecanismo para exterminar situações desfavoráveis, pessoas indesejáveis, livrando Arthur de culpa, remorso ou qualquer outro sentimento parecido.


Não é possível aprovarmos essas atitudes, mas acredito que Todd Phillips tentou mostrar a mente de um psicopata em construção (e conseguiu), utilizando o sarcasmo, dancinhas, risadinhas de deboche, polemizando ainda mais com a revelação escancarada de que a sanidade pode abrigar sentimentos reprimidos, neuroses, raiva e ódio que acompanham a vida de muitos. Alívio! É apenas um filme, realidade produzindo arte, muito bem contado, que conseguimos compreender o que se passa no interior de uma alma perturbada e louca.

Compreender e não concordar ou aplaudir

A frase de Arthur Fleck: “A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não a tivesse” deixa claro a opinião do personagem sobre as pessoas. Esperam pelo que conhecem, consideram pelo que experimentaram e se surpreendem sempre quando o outro decide ser maluco a ponto de ser inesperado.

Haja vista que “rir de tudo é desespero”, convém pensar na outra pele e considerar que o que o outro carrega é mais improvável do que podemos imaginar, que há muito mais labirintos e encruzilhadas por trás de uma máscara ou maquiagem de palhaço.

Outros desfechos poderiam ter acontecido para o mesmo problema exposto no filme, como suicídio ou interdição, se Joker, além da paranoia, também apresentasse o mínimo de moralidade. Por isso, vale lembrar que nada é para todos e que o que cada um leva do lado de dentro é sempre um mistério até para si mesmo.

“É impressão minha ou o mundo está ficando mais louco?” (Arthur Fleck)

 

Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: 123RF Imagens.





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