O juiz aposentado José Eduardo Franco dos Reis confessou ter adotado uma identidade fictícia por razões pessoais, agora investigadas em ação penal
Resumo do conteúdo
O juiz aposentado José Eduardo Franco dos Reis, que durante 45 anos utilizou o nome Edward Albert Lancelot Dodd-Canterbury Caterham Wickfield, prestou um extenso depoimento à Corregedoria do Tribunal de Justiça de São Paulo.
No relato, ele explicou como criou a identidade fictícia e por que decidiu colocar fim à farsa. A oitiva ocorreu em 13 de maio do ano passado, no âmbito de uma ação penal que investiga o uso do nome falso ao longo de sua carreira — o caso ainda está em andamento.
Além disso, ele responde a um segundo processo por falsidade ideológica, após afirmar que vivia na Inglaterra enquanto, na realidade, morava em Poços de Caldas (MG). A ação foi aberta em julho e tramita paralelamente. Em fevereiro, o Ministério Público sugeriu um acordo para encerrar o caso, mas a defesa recusou, alegando ausência de novo crime.
A situação veio à tona em abril de 2025, quando ele tentou renovar o RG e o sistema identificou conflito de digitais entre ele e um suposto cidadão britânico. A defesa sustenta a possibilidade de insanidade mental e aguarda laudos que podem influenciar na pena.
Procurado, o advogado Alberto Zacharias Toron não comentou o depoimento.
“Eu mudei de José Eduardo para Edward sem nenhum motivo concreto, a não ser uma coisa psicológica. Eu tinha uma fixação por Inglaterra e coisas da Inglaterra. Eu, criança, já lia e relia livros de autores ingleses: Charles Dickens, Walter Scott, Robert Stevenson, de onde me identificava profundamente com o país, as pessoas, a paisagem, a vida. Eu me sentia um estranho na minha casa, apesar de gostar muito da minha família, amar minha família, mas eu tinha isso. Então a mudança (de nome) ocorreu por esse impulso meu, não sei dizer como ou por quê. Na minha família não havia nada disso, eram todos muito simples. E eu tinha essa vontade, essa coisa que eu não controlava de querer ir morar fora”.
“Eu comecei a trabalhar de office boy, depois passei por outra empresa (como) auxiliar de escritório, depois um banco, também auxiliar de escritório. Nesse período eu juntava uma parcela do salário, e um colega de trabalho que havia partido para os Estados Unidos me incentivava: ‘Venha, venha pra cá, venha trabalhar aqui, você já fala inglês’ — que eu aprendi com muita facilidade, tinha intimidade com a língua. Eu falei ‘Sim, vou, vou sim, vou sim’, mas quando eu disse isso na minha casa foi uma tragédia. Meu pai era muito rígido e ficou contrariado, furiosamente contrariado. Ele pegou meus documentos e escondeu para eu não ir. Eu fiquei desesperado, porque já tinha comprado a passagem. Aí minha mãe falou ‘seus documentos estão em tal lugar’. E peguei e fui para casa de uma amiga e fiquei lá até o dia da viagem”.
“Viajei primeiro para Miami, depois o destino final era Boston. Fui ao endereço do meu amigo, e chegando lá me disseram que tinha umas duas ou três semanas que ele não morava mais lá. Era uma espécie de pensão, fiquei pouco tempo lá. Fiquei sem saber o que fazer, aí me indicaram a Associação Cristã de Moços para eu ficar. Eu comecei a trabalhar, mas informalmente e com muita dificuldade, porque não me adaptei ao clima frio, não tinha roupa apropriada, ganhava muito pouco, enfim, foi um fracasso. Eu decidi voltar antes que meu dinheiro acabasse de todo e ficasse sem para a passagem de volta”.
“Eu voltei, mas não contei para ninguém, nem para minha família, que eu estava voltando. Porque eu estava muito deprimido, envergonhado, com medo da reação do meu pai. Aí eu fui morar em uma pensão”.
“Eu tinha 21 anos, e aí vem a história da mudança (de nome). Eu estava numa depressão muito forte. Depois de um tempo eu contei só para minha mãe (da volta), para deixá-la mais tranquilizada. Fiquei nessa pensão procurando trabalho, não conseguia, fazia ‘bicos’. Aí, no meu quarto, havia um senhor. Ele também morava na pensão e conversava muito comigo. Eu achava um pouco estranho essa pessoa, mas ele foi muito amigo meu, conversava muito, me ajudou quando eu não podia pagar a pensão. Eu falava pra ele que não sabia o que fazer da vida, queria desaparecer, morrer. Na pensão todos chamavam esse homem de Tio Pupo, mas ouvia (que se chamava) Vicente. Ele era mais velho e nós lá na pensão tudo rapaz ainda”.
“Tio Pupo trabalhava numa delegacia. E ele falava pra mim: ‘Isso (a depressão dele) é uma coisa espiritual’. E falava se eu queria ter um outro nome. ‘Você quer renascer? Eu ajudo você. Vou fazer um novo documento para você’. Como eu falava inglês, que eu falava muito de Inglaterra, ele ia me dar um nome inglês. (…) Ele pediu meus documentos antes, meu RG de José e a certidão de nascimento e levou com ele. Aí marcou um dia pra eu ir lá na delegacia, eu assinei a ficha e ele me apareceu depois com o documento pronto. Eu olhei e disse: ‘O que que você foi fazer? Que nome esquisito, estranho, horroroso! Não queria assim’. Ele falou: ‘Agora já tá feito, não tem como voltar atrás’”.
“Eu peguei o documento e a partir dele tirei a carteira de trabalho, os documentos que uma pessoa adulto tem. De 80 até 84, fazia trabalhos avulsos, até que consegui um bom emprego, fui trabalhar no Consulado Geral da África do Sul, porque falava bem o inglês. Trabalhei lá por 12 anos. Eu não tinha estudo, não tinha nada, então fiz os exames da Secretaria da Educação com o nome de Edward. Aí consegui o primeiro grau, o segundo grau, fiz vestibular, passei, fui fazer a escola de Direito, terminei o curso, fiz concurso e passei”.
“Eu nunca contei a ninguém (da família sobre a mudança de nome). Eles sabiam que eu trabalhava no consulado, que eu fiz vestibular, que estudava na universidade, sabiam disso tudo, mas sempre pensaram que era o José. Eu nunca contei (…) Ninguém foi (na formatura), não fiz festejo nenhum, só fui na colação (de grau), sozinho. Eles nunca tiveram conhecimento disso”.
“(Em 1993, já como Edward,) por uma questão sentimental, eu fiz a renovação do José Eduardo, mas eu peguei essa carteira e guardei. Porque, seja como for, eu tinha esse vínculo, eu era José Eduardo, nasci José Eduardo, queria morrer como José Eduardo. Esse nome Edward ao longo dos anos foi se tornando um peso, estava afetando até minha saúde. Estava difícil conviver, minha família sem saber de nada…”.
“Trinta anos depois (em 2023), eu fiz uma renovação porque estava ficando idoso e com medo de morrer como Edward, que não era ninguém a não ser na minha vida, uma vida, assim, burocrática ou formal, não sei como dizer, mas queria que minha família me enterrasse como José, e para isso eu tirei essa segunda (identidade), que também foi guardada e nunca fiz nada. Depois que eu me aposentei, eu não precisava mais ser Edward”.
“Agora sabem, agora, quando surgiu essa situação toda aí eu chamei, contei para elas tudo o que aconteceu desde o início, como estou contando aqui. Eu tinha dois imóveis em nome de Edward, eu pensava: ‘se eu morro, como fica?’. As minhas irmãs dependem de mim financeiramente. Que embaraço terrível seria pra elas descobrirem nesse momento, fiquei com muita pena. Aí resolvi antecipar, digamos, a transmissão dos bens. Passei um imóvel para a minha irmã Simone e um para minha irmã Silvana. Atualmente, não tenho nada a não ser meu carro”.
“Não, nunca (busquei ajuda profissional). Eu não entendia isso como um desvio de personalidade ou qualquer coisa do tipo, entendia que era um problema que surgiu no momento em que eu estava totalmente desamparado, aceitei aquela situação e fui convivendo com isso… Mas para mim era um problema dessa natureza. Depois eu comecei a… Não sei, achar que talvez fosse mesmo alguma coisa que eu não entendia o que era. Mas, não, nunca fiz tratamento. Me aconselharam até”.
Cadastre-se para comentar
Os comentários continuam visíveis para todos. Para participar da conversa, crie sua conta do Clube OS e volte para esta matéria.
Liberar área de comentários