Para o ministro, os EUA precisam de um governo "entreguista" no Brasil para acessar esses minerais estratégicos, essenciais para a economia do futuro

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, apontou que a “ingerência” dos Estados Unidos no Brasil, evidenciada pelo tarifaço, está ligada ao interesse americano nas terras raras brasileiras, um conjunto de minerais considerados o “ouro do século 21”.
Haddad destacou que os EUA já demonstraram disposição para interferir em outros países em busca de terras raras. Ele mencionou que o presidente americano, Donald Trump, propôs a compra da Groenlândia, um tema que ganhou notoriedade meses atrás. “É por causa das terras raras”, afirmou o ministro em entrevista ao jornalista Luis Nassif.
Além disso, ele recordou a tentativa de golpe na Bolívia. “Você lembra quando houve uma tentativa de golpe na Bolívia? Onde Elon Musk afirmou, ‘se precisar, temos que dar o golpe para pegar o lítio da Bolívia’? Não estou imaginando coisas, isso está nos jornais”, comentou. “Musk quer ser o maior produtor de veículos elétricos do mundo, mas a China está superando todos, e ele precisa do lítio.”
Na visão de Haddad, a ingerência no Brasil está relacionada a isso. “Eles necessitam de um governo entreguista porque é estratégico para eles. Como eles veem a América Latina como o quintal dos Estados Unidos…” Fernando Haddad, ministro
Esses minerais são estratégicos porque são essenciais para a “economia do futuro”. Conhecidos como o “ouro do século 21”, eles são fundamentais na fabricação de painéis solares, turbinas eólicas, discos rígidos, equipamentos aeroespaciais, baterias de carros elétricos e nanotecnologia.
Haddad também elogiou a oposição feita ao PT pelo PSDB. Ele destacou que o Brasil herdado por Lula em 2022 “é muito diferente do que ele herdou em 2002”. “Não podemos negar que o governo dos tucanos tinha diferenças conosco em relação à agenda econômica e de desenvolvimento”, afirmou.
“Mas o presidente Lula recebeu um país institucionalmente estável, com um Congresso manejável; era possível compor maioria com certa facilidade, pois, com base programática, conseguíamos estabelecer acordos mesmo com a oposição.”
Atualmente, a situação seria oposta. “Hoje você tem uma oposição bolsonarista, que não tem um projeto. O projeto [dela] é o país não avançar. Portanto, tudo no Congresso é mais difícil”, afirmou.
Haddad se esforçou para separar o bolsonarismo do Parlamento. “Não estou criticando o Congresso como instituição. Tenho até agradecido porque, bem ou mal, as pautas estão avançando”, disse ele, citando o papel de senadores e deputados na aprovação da Reforma Tributária.
Segundo o ministro, sem o bolsonarismo, os projetos do governo seriam aprovados mais rapidamente. “Em outro momento da história, o que fizemos em dois anos e meio poderíamos ter feito em um ano e meio”, estimou. “Mas a maneira como a oposição se comporta agora se tornou um obstáculo.”
Pela manhã, Haddad defendeu uma postura “altiva” do Brasil diante dos EUA, pois Trump não permanecerá no cargo para sempre. “O presidente Lula, em seus três mandatos, teve ótimas relações com presidentes americanos, tanto democratas quanto republicanos”, afirmou em evento na sede nacional do PT, em Brasília. “Sempre mantivemos nossa postura altiva, séria e soberana no trato de assuntos comuns aos dois povos, que têm uma relação histórica de 200 anos.”
Não há razão para que isso mude, até porque o governo Trump é temporário e o Brasil e os Estados Unidos são estados nacionais permanentes. Fernando Haddad, ministro
O tarifaço representaria um “desafio geopolítico” para o país. “O Brasil não pode ser quintal de ninguém. Temos tamanho, densidade e importância para manter e garantir nossa soberania. Não podemos escolher parceiro. O Brasil deve ser parceiro de todos”, afirmou.
Outra demonstração de “soberania nacional” seria regular as big techs. A regulamentação das empresas de tecnologia americanas é uma das justificativas de Trump para sobretaxar o Brasil. “60% dos dados dos brasileiros estão sendo processados fora do Brasil e precisamos tomar medidas para que sejam processados aqui e, de preferência, por empresas brasileiras também”, disse.
Estamos dialogando com setores estratégicos da economia brasileira para que possamos desenvolver inteligência artificial no Brasil e processar dados aqui. Fernando Haddad
Para o ministro, a “extrema-direita” brasileira articulou o tarifaço por interesses próprios. Haddad afirmou que a relação com o governo americano estava bem “até que essa atitude hostil nos surpreendeu pela ação de grupos de extrema-direita brasileiros que de patrióticos não têm absolutamente nada”, comentou.
Vimos pelas mensagens trocadas [e divulgadas nesta semana] que o único objetivo é proteger os golpistas e não há outra finalidade nessa hostilidade além de reabilitar a extrema-direita no Brasil. Fernando Haddad
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