Bem-Estar e Saúde

Num mundo tão assombroso, não ter câncer é um milagre, diz pesquisador

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O professor de bioquímica explica que as células cancerosas são “egoístas”, por isso muitas pessoas desenvolvem a doença.

Dentre as doenças que mais assustam, o câncer entra nas primeiras posições para a maioria da população. Cercada ainda de muitos mistérios, mesmo com o avanço da medicina, a quantidade de pessoas que desenvolvem ou vão desenvolver o câncer é grande, e ainda não se sabe exatamente quais os seus motivos.

Em entrevista à BBC News, o professor espanhol de bioquímica e biologia molecular Carlos López-Otin ofereceu um novo panorama sobre o câncer, chegando a dizer que as células que provocam a doença são “egoístas”. Segundo o profissional, atualmente é mais fácil sobreviver ao câncer do que morrer dele, mas todos ainda guardam na memória os casos em que a morte foi a única saída.

O professor explica que a doença pode ser considerada uma “tempestade perfeita”, já que nossas moléculas passam por tempestades de mutações, danificando o material genético e tudo à sua volta. Até hoje, ele não consegue explicar por que as pessoas encaram a doença com tanto estigma, já que ela é muito mais frequente do que se imagina.

López-Otin explica que uma em cada três pessoas vão desenvolver câncer e, destas, uma em cada duas vai se curar completamente. Entre as que não se curam, a doença poderá ficar cada vez mais controlada, aumentando sua expectativa de vida. Mesmo assim, ele acredita que nunca estaremos livres da incidência dos tumores, já que é parte da nossa essência biológica, só podendo ser erradicado quando não formos mais compostos de células, tecidos, órgãos e demais componentes biológicos.

Segundo o professor, como humanos, dependemos da divisão das células para ficar vivos, mas esse número gira em torno de 60 ou 70 vezes, no máximo, como mecanismo de segurança. Quando uma célula sofre uma mutação, adota um comportamento egoísta, dividindo-se incansavelmente, sem responder a nenhum “sinal de moderação”.

O próximo passo da célula é tentar alcançar a imortalidade, um recurso proibido, tanto que a cada segundo cerca de um milhão de células morrem por apoptose dentro de nós, uma morte programada. Imediatamente à mutação, algumas se tornam imortais, ou seja, têm capacidade para se dividir ilimitadamente, crescendo tanto, que acabam com os nutrientes do oxigênio.

Quando determinada região está comprometida, começam a viajar pelo organismo, “explorando novos territórios” e passando por novas mutações. Usando a corrente sanguínea, querem chegar a algum local onde possam novamente iniciar o processo de crescimento desenfreado. O professor explica que, por sorte, menos de 0,001% delas completam uma viagem, mas quando o conseguem, tentam “colonizar” os novos espaços, desencadeando a metástase.

López-Otin revela que nosso sistema imunológico é que ajuda a combatê-las. O processo é chamado de “imunovigilância tumoral”, e se acordamos com uma célula que passou por uma mutação, o sistema imunológico tem chances de reconhecê-la como estranha e eliminá-la.

Segundo explica o pesquisador, o câncer é uma doença que pode ser freada, e a melhor forma é pela prevenção, sabendo se existem chances hereditárias de desenvolver, e fazendo exames de rotina. Dessa forma, existem medidas a serem tomadas, chegando a eliminar as doenças das famílias.

O assunto do sequenciamento de genoma e os inúmeros avanços da ciência voltada para a saúde podem fazer com que as pessoas persigam a imortalidade. Mas López-Otin é enfático ao lembrar que apenas as células egoístas e viajantes que desejam se tornam imortais, e ele não tem medo nenhum das doenças, apenas espera que elas cheguem ao seu corpo o mais tarde possível.

Aos 63 anos, ele explica que a maior façanha cósmica é ter resistido todo esse tempo a milhares de mudanças diárias no genoma e que o assombroso não é ter câncer, e sim não o ter. A delicadeza molecular, para o pesquisador, faz perceber que a sobrevivência é um milagre, principalmente porque o genoma é constituído por três bilhões de peças em cada célula do nosso corpo, e todas as noites cada uma delas se divide, fazendo uma cópia desse material genético.

Pode ser que nada aconteça, mas também pode ser que exista alguma mudança, e que as células egoístas, imortais e viajantes façam parte do nosso corpo. Mesmo assim, para López-Otín, o mais natural é termos uma doença que nos “roube a vida e nos converta em nada”.

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