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Nunca sabemos ao certo se vai dar mesmo certo. O que não podemos é perder o amor de vista

O amor ainda é aquela máquina fotográfica antiga – que em alguns lugares chamávamos de lambe-lambe, onde para  se fazer uma foto era preciso mais do que alguns minutos sem poder nos mover para a foto não sair tremida ou queimada. Era preciso paciência e dedicação. Tal e qual o amor. 



A gente sabe que já não temos vinte anos quando nos tornamos seletivos e escolhemos com o que queremos nos ocupar e o que queremos deixar ir.  O tempo é o nosso bem mais precioso para deixar ir sem aproveitá-lo com o que faz sentido de verdade.

Não faz sentido ver o amor dos outros quando o amor dos outros pode ser fabricado. Quando a foto pode ser fabricada. Há filtros e aplicativos que removem manchas, tiram imperfeições, recortam cenários ou borram o fundo. Há tutoriais para nos ajudar a fazer a foto perfeita. Aquela foto que vai ganhar tantas curtidas quanto tempo levar para outra foto ocupar o podium de ser a sensação do momento.

Eu gosto de usar os filtros porque gosto de cores e não posso sair pintando as fotos com lápis de cor porque as fotos de hoje não vão para a prateleira da sala.  Então, usar os filtros supre essa minha mania. Mas torna-se um problema quando não aceitamos em nossas fotos como somos realmente, assim, de manhã, quando acordamos.


Perguntaram-me outro dia se nunca saio sem pintar o rosto. Saio sim. E acho uma delícia sair assim. Quando dá, saio de pijama e pantufas até onde eu consigo, sem confundir os outros. No frio, se posso, deixo o pijama por baixo do casaco.

Ninguém precisa saber dos nossos sorrisos e dos nossos encontros. Não é preciso testemunhas para cada risada gostosa que dou com as coisas que você diz.

Andamos de mãos dadas pelas ruas porque não suportamos ficar longe quando estamos juntos. Mas não tenha medo das fotos.

Não divulgamos como evento das redes sociais quando combinamos de nos encontrar e, provavelmente podemos passar em frente aos seus amigos e eles não saberão. Estão todos tão preocupados com o que está na galeria de eventos do dia, da semana e do mês!


Na verdade não há só filtros e contagem de visualizações e curtidas. Há um número infinito de coisas a medir.

Portanto, chego a conclusão de que o amor tem medidas. Como se mede o amor? Como se mede o outro? Como podemos medir a nós mesmos?

As medidas podem variar de acordo com o quanto nos comprometemos num relacionamento.

Um amor onde nos preocupamos com a gente mesmo, com os nossos gostos e a nossa satisfação e não sabemos lidar com os desejos e necessidades do outro, pouco vale. É de um tamanho muito pequeno, se não sabemos lidar com as pequenas insatisfações diárias.

Eu sou pequenina, mas me torno grande quando me dedico. Quando trato com respeito e quando olho nos olhos e sustento o olhar, com a esperança de poder ver dentro dele e deixo a descoberto a mim mesma, na esperança de também me conhecer.

Somos gigantes quando apoiamos, quando ouvimos o dia do outro com aquele interesse peculiar de quem quer fazer parte do que é importante para quem amamos; para que a gente some em vez de diminuir. Quando sonhamos e realizamos juntos, somos mesmo muito gigantes.

Somos grandes quando trabalhamos o perdão, quando somos corajosos de nos mantermos como somos e não procuramos agradar o outro. Essas máscaras caem e só trazem muita dor.

Às vezes, encontramos pessoas que mudam suas medidas. Podem nos parecer enormes no início e, aos poucos, ir diminuindo, diminuindo. Pode ser que se deixem levar pelos outros, pelas correntes de ar, podem nos decepcionar e nós a elas. Pode ser que tenhamos nos visto de longe e não percebemos. Outras vezes, acontece o contrário. Encontramos pessoas que pareciam miudinhas e pouco percebíamos ali alguma grandeza.

Mas daí acontece uma coisa engraçada. As medidas não são em metros ou centímetros. As medidas são as ações, o tempo dispensado, a atenção e a dedicação. É o equilíbrio entre expectativas e frustração.

Todo relacionamento nos decepcionará. A pergunta que fica é o quanto estamos dispostos a buscar equilibrar a balança entre as expectativas e as frustrações.

Provavelmente não teremos um filtro para nos salvar ou tornar o cenário mais bonito quando as cores ficarem um pouco desbotadas, quando o flash não funcionar ou mesmo quando na foto aparecer mais do que eu e você… Naquela foto perfeita em que ficamos horas a planejar e depois a fotografar várias vezes nos mais diferentes ângulos!

O amor ainda é aquela máquina fotográfica antiga – que em alguns lugares chamávamos de lambe-lambe, onde para  se fazer uma foto era preciso mais do que alguns minutos sem poder nos mover para a foto não sair tremida ou queimada. Era preciso paciência e dedicação. Tal e qual o amor.

Sendo assim, não importa muito o que vestimos, o que usamos, o que planejamos. Não importam os outros.

Nunca sabemos ao certo se vai dar mesmo certo. A única certeza que temos é de que, se for preciso, saímos de pijamas e sem maquiagem. O que não podemos é perder o amor de vista.


Direitos autorais da imagem de capa: Toa Heftiba on Unsplash

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