Pessoas inspiradoras

“Nunca tive medo.” Nordestina que salvou filho de trabalho escravo vê história virar filme e ganha prêmio!

Pureza enfrentou fazendeiros e jagunços, encontrando trabalhadores vivendo uma realidade que pouco se falava: a escravidão moderna!



Até onde uma mãe pode ir para ajudar um filho? Todas as pessoas que tiveram o privilégio de conviver com suas mães, ou todas as que tiveram filhos sabem que para elas não existem limites quando o assunto é o cuidado de alguém que veio de si mesmas.

O senso de justiça materno e a vontade de ver um filho crescer e brilhar falam mais alto, levando-as a fazer tudo por sua prole.

Pureza Lopes Loiola é uma mãe desse tipo, e mais, ela é uma personalidade brasileira! Exatamente, ela é responsável pelo Brasil reconhecer e combater a “escravidão moderna”.


Antes dos seus esforços, quase nada se sabia sobre o assunto, e muitos acreditavam que isso não existia aqui. Foi em busca do filho caçula Antônio Abel Lopes Loiola que a mãe descobriu a dura realidade de muitos trabalhadores rurais na década de 1990.

Por sua importância, Pureza recebeu, em Londres (Inglaterra), o Prêmio Antiescravidão da Anti-Slavery International, a entidade mundial mais antiga que combate o trabalho escravo. Mesmo reconhecida no exterior, poucos no Brasil sabem da sua história, mas ela virou filme estrelado por Dira Paes e dirigido por Renato Barbieri.

Depois de um mês sem notícias do filho Antônio Abel, que tinha ido atrás de trabalho no garimpo, Pureza decidiu ir atrás dele. Segundo reportagem da BBC, ela saiu apenas com a roupa do corpo e uma bolsa, disposta a encontrá-lo de qualquer forma, mas a única notícia que tinha era a de que ele tinha ido para o Pará.

Direitos autorais: reprodução YouTube/Escravo, Nem Pensar!


Pureza conta que nunca sentiu medo, apenas a certeza de ir atrás do filho, pois sentia, no fundo do peito, que ele precisava de ajuda. Enquanto procurava Abel, ela trabalhava como cozinheira em fazendas do sul do Pará, aonde achava que o filho tinha ido.

O serviço que os empregados desempenhavam nas propriedades onde a mãe trabalhava era de derrubar a mata nativa para que a área virasse pastagem para o gado. A maioria dos trabalhadores eram migrantes do Norte e Nordeste, que descobriram que a realidade era outra assim que chegavam às fazendas. Os empregadores confiscavam documentos, eles se tornavam dependentes dos encarregados para comer, vestir-se e até para ter remédios.

Convencida de que o filho era mantido nas mesmas condições, Pureza entrou em contato com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), em São Luís, no Maranhão. O padre missionário diocesano Flavio Lazzarin, de 72 anos, conheceu a mulher em 1994, quando ela lhe contou sua história de desespero, em busca do filho.

Com apoio da CTP, a mãe entrou em contato com o Ministério do Trabalho e com o Ministério Público do Trabalho no Maranhão, no Pará e em Brasília. Escreveu cartas à mão para Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, mas apenas Itamar lhe respondeu.


Mesmo com as dificuldades e a peregrinação, ela nunca pensou em desistir e, com apoio das autoridades, Pureza conseguiu encontrar e resgatar o filho caçula. Hoje ele vive em Bacabal, com toda a família.

No fim da década de 1990, a história de Pureza impulsionou a criação do Grupo Especial Móvel de Fiscalização, que viabiliza o cumprimento da lei e dos direitos trabalhistas na região Norte do país. E a história da mãe passou a ser citada em reuniões de direitos humanos e todas as vezes que se abordava a questão do trabalho análogo à escravidão.

Foram três anos buscando Abel, e Pureza precisou vender tudo o que tinha no Maranhão para embarcar nessa saga. No trajeto, foi onde se deparou com a quantidade de pessoas que passavam por péssimas condições, mantidas praticamente reféns nas fazendas onde trabalhavam. O filho realmente estava no Pará, em condições análogas à escravidão, e só conseguiu encontrar a mãe porque fugiu da fazenda onde trabalhava.


O filme “Pureza” estreou no 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em novembro de 2019 e, desde então recebeu três prêmios de melhor filme pelo júri popular, e Dira Paes, que interpreta a trabalhadora rural, recebeu quatro prêmios pelo papel. O longa já fez parte da seleção oficial de outros 23 festivais no mundo; só não entrou no circuito comercial por conta da pandemia.

Não é difícil lidar com os filhos, difíceis são os pais que não encontram tempo para lhes dar atenção!

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