Nunca viva no futuro. Perderá o seu momento, o seu presente, a sua vida.



O despropósito da vida

Se existe um propósito na vida, não quero sabê-lo. Quando coloco um propósito, espero um resultado. Nada na vida existe pelo seu resultado. Nada na vida vive para chegar ao seu fim. Nem mesmo a vida.

Atribuir-lhe um propósito é matá-la sem dar-lhe qualquer hipótese de viver. É privá-la de quem é em contraste com o que poderá nunca vir a ser.

Já há muito que estou cansado de teorias e doutrinas e de quem as defende. Acredito mais em excepções, diferenças e milagres, não esses milagres profetizados e ligados a causas e religiões, mas aqueles que acontecem dentro de mim mesmo.

Cada um de nós é um verdadeiro milagre, desde o momento em que foi concebido até ao momento presente. O problema põe-se porque não cremos nisso e buscamos o milagre nos outros, no exterior.

A melhor fórmula para viver a vida existe dentro de cada um de nós e acontece a cada momento.

O amanhã é ainda apenas amanhã. Daqui até amanhã existem muitos momentos para viver. Tudo pode mudar de um segundo para o outro. E muda no seu próprio momento. Nunca depois dele. O que acontece depois do momento é uma consequência dele, mas pertence ao próprio momento em que também acontece.

A vida é uma sequência de momentos. Cada momento tem o seu propósito. A soma de todos esses momentos origina uma viagem, um voo, um caminho.

O propósito de cada um de nós é viver a sua viagem, o seu voo, o seu caminho, à medida que vai surgindo. Nada mais.

Com efeito, acredito que aquilo que vimos cá fazer é sermos nós mesmos, genuínos, naturais, espontâneos, mas não como um propósito. Viemos cá sê-lo ao longo da nossa viagem, do nosso voo, do nosso caminho, numa construção maravilhosa a cada momento, a cada escolha, a cada intuição, a cada sentir.



Querer fazer do propósito apenas o final da viagem, o término do voo, o fim do caminho, é tirar toda a magnificência à vida e a nós mesmos. Sermos quem viemos ser é uma edificação linda que se manifesta a cada momento. Não existem limites para cada momento em que vivemos quem somos. Tudo é mais intenso, mais nosso. Tudo faz muito mais sentido e, mesmo que não o sintamos, sabemo-lo presente.

Pelo contrário, viver a pensar no amanhã, no momento em que seremos quem viemos ser, é adiar aquilo que já está a acontecer, é viver sem ter consciência do que estamos a viver, é procurar algo que já está connosco.

Quando se vive com um propósito no futuro, perde-se o melhor de cada momento.

Nunca viva no futuro. Perderá o seu momento, o seu presente, a sua vida. Nunca se esqueça de que viver o momento é poder mudar a cada instante as suas escolhas. Se você  vive no amanhã, todas as suas escolhas estão limitadas pelo que quer amanhã. Viver sem genuinidade, sem espontaneidade, com limitações e concepções, é morrer sem realmente viver.

Tudo o que acontece, acontece agora. O propósito não é mais do que a morte do presente. Não queira um dia conquistar um propósito.

O propósito é o agora, a viagem, o voo, o caminho. Sempre o agora, a viagem, o voo, o caminho. Nunca o amanhã, a chegada, o término, o final. Nunca.

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Direitos autorais da imagem de capa: Johannes Plenio on Unsplash






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