Amor

O amor é racional?

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Dizem que o amor tem um lado lógico. Mas será que é possível racionalizar os atos relacionados a esse sentimento?

O amor precisa da ajuda dos impulsos animais e da razão para fazer bem como um todo
Foto: Daniel Aratangy / Ilustração: Lauro Machado/Estúdio Insólito

Há uma descrição do cérebro humano que é muito didática. Segundo ela, nós não teríamos um cérebro só, mas três. Essas partes têm funções diferentes, mas muito complementares. Nosso cérebro seria então uma espécie de três em um, um conjunto de estruturas que são chamadas a agir em função das diferentes situações que a vida nos oferece.

O primeiro cérebro chama-se sistema reptiliano, porque é uma herança de bichos como os dinossauros. Suas funções estão inteiramente ligadas aos instintos de sobrevivência física, como comer, economizar energia, esconder-se, fugir e também gerar o impulso sexual, pois dele depende a sobrevivência da espécie.

O segundo cérebro chama-se sistema límbico, é bem mais novo que o anterior e tem sob sua jurisdição os sentimentos e as emoções. Graças a ele somos capazes de amar, odiar, sentir medo, raiva, saudade, prazer, ambição, ciúmes.

Só que o ser humano, e apenas ele, tem o terceiro cérebro, chamado de córtex cerebral. Uma fina camada que recobre todo o órgão (córtex significa casca) e que concentra a maior quantidade de neurônios existente na natureza. E é nessa camada que se realiza o fantástico conjunto de reações químicas que convencionamos chamar de pensamento, lógica, razão.

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O amor pode começar no sistema límbico, mas ultrapassa esses limites e contamina todo o cérebro, pedindo a participação de nossa parte mais primitiva, animal, e de nossa função mais desenvolvida, racional. Sem essas ajudas, o amor não se sustenta, deixa de ser um prazer e passa a incomodar como um corpo estranho.

Entretanto, o amor é um sentimento maravilhoso, mas frágil. Lygia Fagundes Telles uma vez o comparou a uma bolha de sabão, e escreveu um conto com esse título. Uma bolha de sabão flutua no ar e se eleva como se estivesse em busca do infinito. Até que estoura… E estoura porque é sensível demais, mais leve que a realidade cotidiana. O amor é assim mesmo, e se não for conservado ao abrigo das farpas cortantes acaba por estourar.

Conheço pessoas que se acomodaram na conquista. “O amor nos manterá unidos”, diz o imprudente. Não, o amor não sustenta, quem sustenta é a felicidade que vem dele, das ações que ele provoca e das coisas práticas da vida.

O que pode fazer a razão em favor do amor é providenciar uma coleção de pequenos atos que, somados, conferem valor à relação e garantem sua longevidade. Não há nada mais sem graça que uma relação que se acomodou. A rotina que mata o amor é a rotina do que não se faz.

Da declaração de amor que deixa de ser feita, do elogio economizado à roupa simples do dia a dia, do sorriso sonegado ao acordar, da palavra de carinho roubada à despedida, da comemoração não feita em qualquer conquista, do boa noite seco, sem um beijo, antes de dormir.

O amor não se sustenta sem a intenção de amar e sem a ação pequena, mas constante, de alegrar o outro com sua presença. Acredito que o amor é uma grandeza que não se sustenta com o tempo. Ou aumenta ou diminui. Qual é, afinal, sua intenção?

Fonte: Vida Simples

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