O casamento e a sapataria…

Outro dia fui levar uma sandália do meu filho para arrumar no sapateiro, que na realidade era uma sapateira, uma senhora bem sorridente e que me chamava o tempo todo de “Sô” (de uai Sô mesmo).



De repente entra um moço bem vestido, de muito boa aparência com um relógio na mão perguntando pra senhora sapateira se ela tinha uma cola pra colar a pulseira do mesmo.

Eu, como sou muito participativa, pra não dizer enxerida, lhe perguntei: “- Porque você não compra outra pulseira (a dele já estava velhinha, nem sei se compensava colar)?”

Ele arregalou os olhos e disse: “- Não! Eu sou meio supersticioso, essa pulseira veio com o relógio e já me trouxe muita sorte!”.


Nesse caso encerrei meu discurso intrometido e continuei explicando como queria o conserto da sandália. Como levei apenas um pé ela perguntou se o outro estava em bom estado. Eu disse que sim, pois meu filho parece que jogava o peso do corpo mais de um lado do que do outro.  Então o rapaz disse: ”- Ah, eu também tenho esse problema, minha pisada deve ser errada porque todos os meus sapatos são mais gastos de um lado que do outro”.

– Meu marido também era assim! Eu disse.

– Mas ele não tem mais a pisada torta, depois que casamos, elas se ajustaram!


Em alguns segundos ficamos nos olhando espantados, porque acho que pensamos a mesma coisa e o rapaz solta: “- Olha, acho que você trouxe equilíbrio pra ele!”.

E assim balancei a cabeça afirmativamente e fiquei com aquilo na mente.

Seria mesmo o casamento um divisor de águas para duas pessoas a ponto de mudar hábitos e até a postura corporal?

Muita coisa na vida de uma pessoa muda depois que ela se casa, outras continuam sendo as mesmas. Na minha própria experiência digo que eu era uma pessoa antes de me casar e me tornei outra. Mudei pra melhor em muitos aspectos, em outros acho que piorei com o tempo.

Mas que equilíbrio danado é esse?

Seria a vontade que um tem de impressionar o outro e tentar ser melhor?

Seria aquela aprovação que a gente sempre espera da pessoa que ama, nas decisões que vai tomar?

Tentei voltar no início do relacionamento e descobrir isso, mas são quase 25 anos! Não tenho memória pra isso e sinceramente, muita coisa gostaria de esquecer.

Dizem que relacionamento é uma vida de renúncias, senão sempre haverá brigas e cobranças. Mas a meu ver um casamento baseado em renúncias não é um relacionamento feliz. Jamais me sentiria confortável em saber que a pessoa que amo abriu mão de uma coisa que gosta para fazer uma que não gosta só pra me agradar. O segredo da felicidade vem de fazermos as coisas que gostamos com quem gostamos.

Mas e se temos gostos diferentes?

Relacionamento feliz não se constrói em seis meses, um ano. Leva tempo pra conhecermos as pessoas e nos identificarmos com elas. Hoje vivemos no mundo do “instantâneo”, macarrão instantâneo, foto instantânea, fast foods, conexão online, namoros rápidos (ficadas) e por aí vai. O amor ficou instantâneo. Quando a gente ama e aprende a conhecer a pessoa amada, a gente ama o que ela ama, sem renúncias. Amamos porque queremos amar. E não estou falando de gostar de frio ou calor, coca ou Fanta, Stallone ou Jennifer Aniston. Estou falando de coisas que realmente importam pra que a felicidade esteja sempre presente. As brigas têm que existir, pois somos diferentes, mas brigas que terminem em um sanduíche lambrecado de maionese ou da gente indo deitar no sofá com o bem que foi pra lá emburrado.

Sim, isso é equilíbrio!

Saber que existem dias bons e dias ruins, que vai ter dinheiro pra ir ao cinema, que não vai ter dinheiro pra pagar a luz e ela ser cortada na hora do banho quente, que vai ter barraco por causa de coleguinha , que vai ter dor de cabeça na hora de deitar, que vai ter sorriso Largo quando chegamos em casa depois de um dia de trabalho, que vai ter mau-humor de manhã…

Deixar a balança retinha, sem pender de um lado para outro é difícil, leva tempo, mas temos todo tempo do mundo! E às vezes ela vai pender mais para um lado do que para o outro, embora na maior parte do tempo estará ali tranquila, aferida.

Depois de muito refletir nisso, entendi que minha vida (a dois) não tinha que ser perfeita e sim equilibrada. Isso fez toda a diferença.

Fui buscar a sandália e estava perfeita, melhor do que imaginei. Cheguei na sapataria e a senhorinha me recebeu com um sorriso e disse: “Oi Sô!”.

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Texto escrito com exclusividade para o site O Segredo. É proibida a divulgação deste material em páginas comerciais, seja em forma de texto, vídeo ou imagem, mesmo com os devidos créditos.




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