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“O cenário que encontrei dava vontade de sentar e chorar, porque era uma situação muito crítica”

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Voluntários de várias partes do país se deslocaram para Brotas (SP), a 246 quilômetros da capital paulista, para atuar no resgate e cuidados das mais de mil búfalas encontradas em situação de maus-tratos, em uma fazenda e, há quase 20 dias, permanecem no local alimentando e prestando atendimento médico para os animais.

“O cenário que encontrei dava vontade de sentar e chorar, porque era uma situação muito crítica”, contou o médico veterinário voluntário Maurice Gomes Vidal.

Segundo ele, muitos animais estavam em uma situação impossível de ser revertida. “Foram aqueles que, infelizmente, morreram. Ao chegarmos, já existia uma vala coletiva com cerca de 100 animais mortos”, disse.

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Noivos, médicos veterinários atuam no resgate das búfalas em Brotas — Foto: Reprodução/Instagram

Vidal e a noiva, Caroline Machado, que também é médica veterinária, chegaram à fazenda Água Sumida em 13 de novembro. Neste dia, o casal encontrou 17 animais em condições extremas, que não conseguiam ficar em pé. Desses, quatro morreram.

“Como as pessoas sabem que eu tenho um histórico de ajudar, eles começaram a me marcar em publicações em redes sociais e aí nós viemos. Os búfalos são muito resistentes, mas não podem ficar sem o básico, que seria água e alimento. Então, com essas condições, os animais começaram a cair por desnutrição e desidratação”, disse Vidal.

Dia a dia de trabalho

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Voluntários ajudam búfalas em situação de abandono em Brotas — Foto: Fabio Rodrigues/g1

Vidal e os outros veterinários e voluntários que atuam na manutenção das búfalas têm uma rotina intensa de trabalho. São cerca de 18 horas por dia para cuidar dos cerca dos mais de mil animais que se encontram espalhados pela fazenda, que tem uma área de 500 mil alqueires.

O trabalho é divido em etapas, de acordo com a condição do rebanho que existe na fazenda.

As búfalas que se encontram em situação de extrema desnutrição e aquelas que estão machucadas são levadas para o hospital de campanha.

No local foram construídas tendas improvisadas pelos próprios voluntários com lonas e bambus, para que os animais pudessem ser tratados na sombra e próximos à estrutura que reúne os medicamentos.

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Voluntários ajudam búfalas em situação de abandono em Brotas — Foto: Fabio Rodrigues/g1

Lá, elas recebem diariamente doses de soro para repor a água e os sais minerais. Segundo os voluntários, são necessários cerca de 210 litros por dia para atender todos os animais com desidratação. Complexos de vitaminas e poli vitamínicos também são aplicados para tratar a subnutrição.

O veterinário explicou que é necessário coletar vários exames para verificar as funções hepáticas e renais, já que alguns animais apresentam alteração.

“Tivemos a morte de uma búfala por falência dos rins. E olha que eu nunca vi animais desse porte morrendo por problemas nos rins. Quando isso acontece, são casos muito isolados, que vemos em livros acadêmicos”, disse Vidal.

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Voluntários ajudam búfalas em situação de abandono em Brotas — Foto: Fabio Rodrigues/g1

Muitos animais estão sendo tratados com pomadas para as feridas que têm espalhadas pelo corpo.

De acordo com os médicos veterinários, as lesões se formam devido ao contato do couro do animal com o solo por um longo período. Os animais caem e não conseguem se levantar por falta de nutrição suficiente.

Vários ainda tiveram a condição agravada pelo pisoteamento por outros bufálos do rebanho.

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Voluntários ajudam búfalas em situação de abandono em Brotas — Foto: Fabio Rodrigues/g1

Para tratar os animais em condições agravadas, os voluntários enfrentam o sol e altas temperaturas para levar o rebanho do pasto até o hospital de campanha.

Para isso, eles se unem e utilizam da força braçal para levantar os búfalos e acomodá-los no trator que os transporta até a área de tratamento.

Andando por todos os lados

O trabalho intenso segue com o restante dos animais que ficam espalhados pelos pastos da fazenda.

Os voluntários são responsáveis por desenrolar os rolos de feno, comprados para alimentar os bichos, separá-los em porções menores e distribuí-los ao rebanho.

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Voluntários ajudam búfalas em situação de abandono em Brotas — Foto: Fabio Rodrigues/g1

Com o calor severo, típico durante o fim da primavera e início do verão, os animais se aquecem muito rapidamente e necessitam de vários litros de água para que possam se hidratar e se refrescar. Por isso, os ativistas reabastecem os cochos d’água pela manhã e no fim da tarde, além de remanejarem os recipientes de lugar, quando necessário, para que os animais tenham acesso mais facilmente a água.

Para evitar que os animais atinjam o superaquecimento, devido à exposição contínua ao sol, os ativistas cavam buracos rasos que formam uma espécie de piscina natural. As valas são abastecidas por caminhões-pipa que são disponibilizados pela prefeitura duas vezes ao dia.

Faixa de Gaza

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Voluntários ajudam búfalas em situação de abandono em Brotas — Foto: Fabio Rodrigues/g1

Outras búfalas continuam confinadas em uma área de preservação ambiental. O local onde todos os animais foram encontrados pela Polícia Ambiental no início do mês sem água e alimento foi apelidado pelos voluntários como ‘Faixa de Gaza’.

Por conta de uma decisão judicial, cerca de 150 búfalas e bezerros não podem ser retirados desse espaço.

Os voluntários estão limitados a, apenas, alimentarem os animais e prestar atendimentos urgentes àqueles que estão gravemente feridos ou em extrema necessidade de nutrição e hidratação.

Prazos

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Voluntários ajudam búfalas em situação de abandono em Brotas — Foto: Fabio Rodrigues/g1

Com a gravidade da situação, os voluntários relatam que não existe um prazo para tratar e recuperar 100% dos animais. Muitos estão espalhados pela propriedade, além das fêmeas que estão prenhes. Segundo os ativistas, quase 600 estão para parir nas próximas semanas.

“Trabalhar aqui é uma montanha-russa de emoções, porque quando a gente começa a organizar algumas coisas outras passam a dar problema e damos alguns passos para trás. Sinto que já conseguimos melhorar muito a condição dos animais, embora não haja uma previsão para a recuperação completa dos bichos”, afirmou a médica veterinária e bióloga Caroline Machado.

Grupo de Resgate de Animais

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Voluntários do Grad em Brotas — Foto: Reprodução/Instagram

Boa parcela dos voluntários faz parte do Grupo de Resgate de Animais em Desastres (Grad), uma organização sem fins lucrativos que atua no salvamento de animais em situações extremas, como o rompimento das barragens de Mariana e de Brumadinho (MG), além do incêndio que devastou o Pantanal.

Atualmente, o Grad é composto por 60 membros e sua sede fica em Conselheiro Lafaiete (MG). O trabalho é financiado por doações.

São esses recursos que possibilitaram que os voluntários se deslocassem de Minas Gerais para Brotas, além de custear a estadia da equipe na cidade.

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Médico veterinário Daniel Oliveira, integrante do Grad, atua como voluntário no resgate das búfalas em Brotas — Foto: Arquivo Pessoal

“O Grad é chamado literalmente para apagar incêndios. Nós entramos em ação quando a localidade já não tem como responder ao problema, quando as organizações locais e as pessoas envolvidas não conseguem solucionar a situação”, explicou a médica veterinária e coordenadora do grupo, Carla Sassi.

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