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O curioso caso de Lydia Fairchild, que deu à luz os filhos de uma pessoa que nunca existiu

Capa Facebook O curioso caso de Lydia Fairchild que deu a luz aos filhos de uma pessoa que nunca

A mulher engravidou e teve as crianças, mas por conta de uma condição genética rara, teve de lutar na justiça para não perder os filhos.

Lydia Fairchild era uma mãe comum, que sentia muito orgulho dos filhos e da família que construiu. A tranquilidade de sua vida, no entanto, foi interrompida por desafios nada comuns: ela precisou ir a um tribunal e provar que os filhos que gerou em sua barriga eram biologicamente seus.

A descrição da história parece confusa e, de fato, ela é!

A luta de Fairchild por seus filhos começou quando ela tinha 26 anos, de acordo com o canal ABC News. Na época, ela estava desempregada e solicitando assistência financeira do estado de Washington. Como parte do procedimento para conseguir o auxílio, todos da sua família precisaram passar por testes de DNA para provar que todos eram parentes.

O Departamento de Serviços Sociais ligou para Fairchild e disse a ela que precisavam de sua presença o quanto antes. O que Fairchild pensava ser uma reunião de rotina com uma assistente social se transformou em um interrogatório. A mãe de repente se tornou suspeita de crime aos olhos das autoridades.

Foi o resultado dos testes que colocou Lydia naquela situação. Eles confirmaram que seu parceiro era o pai das crianças e nos testes delas esta paternidade foi comprovada também. O problema estava na parte de Lydia no teste: todos na sua casa estavam conectados geneticamente, menos ela. As autoridades lhe disseram que, de acordo com os exames, ela não era a mãe dos pequenos.

2 O curioso caso de Lydia Fairchild que deu a luz aos filhos de uma pessoa que nunca existiu

Direitos autorais: Reprodução YouTube / Real Stories

Fairchild tinha certeza de que havia um erro, mas a assistente social disse que isso não era possível, pois o teste aplicado era infalível.

Por isso o Estado negou o auxílio para Lydia, mas agora este era o menor de seus problemas. Ela estava sendo acusada de ter atuado como uma mãe de aluguel paga, uma prática ilegal, e de ter cometido fraude. Lydia estava desesperada, pois tinha chances reais de perder seus filhos.

A situação não fazia sentido na cabeça dela, pois sabia que eram seus filhos. Então correu para casa para procurar fotos de sua gravidez e encontrou as certidões de nascimento. Ela contou a história para seus pais que não podiam acreditar. Sua mãe tentou acalmá-la, dizendo que tinha testemunhado o parto de todos os filhos de Lydia, eles eram, sem sombra de dúvidas, seus filhos biológicos.

Fairchild chamou seu obstetra, Dr. Leonard Dreisbach. Ele esteve presente nos nascimentos de seus três filhos e garantiu a Fairchild que a ajudaria no tribunal.

Ela montava sua defesa, mas nada disso parecia importar, porque os testes de DNA eram considerados infalíveis, o padrão-ouro no tribunal. O DNA mostrou que a composição genética de Fairchild não correspondia à de seus filhos, logo seu caso parecia irreparável.

Para eliminar qualquer chance de erro humano, novos testes de DNA foram solicitados a diferentes laboratórios. Foi uma espera agonizante, mas os resultados foram os mesmos: os filhos não eram dela.

Fairchild soube então que estava perto de perder seus filhos. Depois de três audiências no tribunal, o juiz a aconselhou a procurar um advogado o quanto antes.

Lutando no tribunal

A mãe nunca pensou que precisaria lutar para ter os filhos, mas logo ela se viu nas trincheiras do tribunal e sem auxílio, pois a maioria dos advogados contatados por Lydia não estavam dispostos a lutar contra os resultados dos testes de DNA.

O advogado Alan Tindell finalmente concordou em aceitar o caso, mas ele a sabatinou sobre sua conexão com as crianças, perguntando-lhe exaustivamente se aqueles filhos não seriam da irmã de Lygia, de seu irmão, ou se ela não teria “abduzido” as crianças de alguém. Como ela nunca mudava sua versão da história, Tindell acreditou na mãe desesperada.

Fairchild estava em uma situação difícil, enfrentando evidências científicas infalíveis pesando contra ela.

O que ela não esperava é que, em outra ponta do país, havia outra mulher que também aparecia em testes de DNA como se não fosse a mãe dos próprios filhos, neste caso, os médicos desvendaram o mistério.

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Em Boston, Karen Keegan recebeu um telefonema assustador de seu médico. Chegou em um momento muito difícil de sua vida, quando ela precisava de um transplante de rim.

O médico lhe disse que tinha notícias incomuns contra Karen, algo nunca visto em sua carreira, mas seus filhos biológicos não correspondiam ao seu DNA. Qualquer criança de pai e mãe deve herdar genes tanto da mãe quanto do pai. No caso de Keegan, parecia que seus dois filhos não tinham herdado nada de seu DNA, foi explicado pela Dra. Lynne Uhl, patologista e médica da medicina transfusional.

Os médicos de Boston fizeram a Keegan o mesmo tipo de perguntas feitas a Fairchild em Washington. Eles perguntaram a Keegan de onde seus dois filhos tinham vindo, já que o código genético deles não era o mesmo que o dela.

Os médicos coletaram amostras de DNA de todo o corpo de Keegan, testaram seu sangue, seu cabelo e esfregaram sua boca. Ainda nada combinava com o DNA de seus filhos, mas Keegan teve outra ideia.

Keegan disse à Uhl que teve um nódulo de tireoide removido um tempo atrás. Após uma extensa busca, os médicos encontraram uma amostra de seu tecido tireoidiano guardado em um laboratório próximo, na área de Boston. De acordo com a Uhl, esse pedaço de tecido foi a chave para resolver o mistério médico.

O DNA que corresponderia ao dos filhos poderia estar em qualquer lugar do corpo de Keegan, mas em sua tireoide concentrava-se o material que combinava com o código genético dos descendentes.
O mistério foi resolvido. De certa forma, Keegan era a própria gêmea, absorvida no útero. E o mesmo se aplicava para o caso de Lydia.

Em seu sangue, Karen era uma pessoa, mas em outros tecidos, ela tinha evidências de ser uma fusão de dois indivíduos, explicaram os médicos.

O que Karen e Lydia vivenciaram foi uma questão genética rara chamada quimerismo, com apenas 40 casos documentados em todo o mundo.

Na biologia humana, uma quimera é um organismo com pelo menos dois tipos de células geneticamente distintas – ou, em outras palavrasalguém que deveria ter tido um irmão gêmeo. Mas no útero da mãe, dois óvulos fertilizados se fundiram em algum momento, tornando-se um feto só, mas que carrega dois códigos genéticos distintos — duas fitas separadas de DNA.

O gêmeo é invisível, mas para as quimeras o gêmeo vive microscopicamente dentro do corpo como DNA. Ou seja, no teste de DNA de Karen e Lydia, aparece como se essa “irmã” — que nunca existiu — fosse a verdadeira mãe de seus filhos.

A luta pelos filhos

Voltando ao caso de Lydia, o Estado ainda desconfiava dela. Como forma de provar que as crianças de fato eram suas, Lydia, que estava grávida na época, permitiu que um oficial do tribunal acompanhasse seu parto para fazer a testagem do DNA assim que o bebê nascesse.

Eles colheram a amostra da criança minutos após o seu nascimento, e o oficial testemunhou o bebê saindo de Lydia, e ainda assim o teste mostrou que Lydia não era sua mãe.

3 O curioso caso de Lydia Fairchild que deu a luz aos filhos de uma pessoa que nunca existiu

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Apesar de testemunhar o nascimento, as autoridades acreditavam que ela estava agindo como barriga de aluguel, possivelmente tendo um filho por dinheiro.

O advogado de Fairchild estava determinado a resolver o mistério, então ele se deparou com a história da quimera de Keegan no New England Journal of Medicine, assim pediu que o juiz adiasse o julgamento para fazer testes em Lydia, como os de Karen.

Os resultados de Lydia foram como os de Karen: ela tinha material genético de sua “gêmea” nela, e era esse código que constava como o da mãe das crianças.

O juiz finalmente acreditou que ela era a mãe biológica das crianças e permitiu que ficassem com Lydia. Se não fosse por Keegan, Fairchild disse que poderia perder seus filhos para sempre.

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