O dia em que eu desisti

Faz muito tempo que eu comecei a desistir. E vejo apenas agora que eu já vinha desistindo muitas vezes, sem perceber.

Primeiro eu desisti de trabalhar em uma empresa que jamais reconheceu meu talento, onde eu trabalhava muito e ganhava pouco para o tamanho da responsabilidade que eu tinha.

Eu gerenciava uma equipe grande, pessoas nas quais eu via a insatisfação pregada na alma, todos sempre reclamando e eu fazendo de tudo para motivar, em vão. Onde o trabalho era meramente mecânico para poder sobreviver, pagar contas, faculdade, essas coisas que a grande maioria da humanidade faz.

Depois eu montei minha própria empresa e em menos que quatro anos eu também desisti.

Senti que deveria desistir quando eu já não acordava feliz, quando as dívidas começaram a avassalar minhas noites e destruir a vontade que eu tinha de passar a maior parte do meu dia pagando contas intermináveis, apesar de eu amar profundamente cada um dos meus funcionários, que ainda hoje, são meus amigos.

Desisti de vez do corporativo e comecei a prestar atenção que deveria desistir ainda de mais e mais coisas.

Desisti do meu casamento. Da falta de afinidade, da escassez de amor e respeito, desisti de ser a esposa que era tudo, menos mulher, da falta que eu sentia de mim ao oferecer até o que eu não tinha.

Desisti de morar em cidade grande. Ali percebi que me mantinha apenas por conveniência à relação, por apego a minha família, à fidelidade ao meu medo de não conseguir “sozinha”, porque era isso que eu ouvia toda vez que tentava uma separação.

Temia pelos meus filhos, temia pela nossa saúde emocional e financeira que estava extremamente abalada já por tanta “desistência”.

Mas eu precisava desistir. Desistir daquela vida que eu criei com base no que todos queriam que fosse, menos eu.

Desistir da pressão a qual eu me submetia porque precisava ser alguém para muitos.

Desistir da profissão e da relação que não fazia mais o menor sentido, a qual eu aceitava para ser amada e pertencente.

Agora, neste momento, escrevendo, meu coração está cheio de gratidão por tantas vezes que eu desisti.

Eu agradeço, abençoo e honro todas estas desistências. Reconheço a importância de todas as experiências que vivi.

Eu desisti do que me oprimia, do que me machucava, me sufocava, me corroía.

Foram todas essas desistências que me ensinaram a recomeçar de novos lugares de mim.

Compreendi que finais não existem, tudo é mutante, cíclico.

Entendi que segurar demais dói muito mais do que soltar.

E que desistir não é sobre finais, sobre não mais experimentar.

É sobre criar espaços ainda maiores, novos caminhos, é sobre acessar o que ainda não foi experienciado.

Eu apenas desisti da vida que eu não vivia, antes que eu pudesse desistir do que eu realmente queria.

Eu deixei de desistir e aprendi a me escolher.

E de qualquer coisa que não me faça ainda mais feliz, de tudo o que não possa ser grande, bom e belo, hoje, eu desisto!


Direitos autorais da imagem de capa: Jake Noren on Unsplash.



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